• Anna Clara Fonseca

A intensa elegância do Wings (parte 1)

Atualizado: Jun 27

Uma das melhores atrizes que o mundo já viu, Elizabeth Taylor, chegou a comentar uma vez, em um documentário, que o pano de fundo da sua infância foi os estúdios da MGM. Muitas pessoas passaram por aqueles corredores com sonhos abundantes, talentos e sorrisos. Por viver nesse contexto durante tantos anos, ela conseguia reconhecer rapidamente quando o individuo era singular. Sinto-me como a própria Elizabeth nesses meus 20 anos de existência. O feeling para o único se apura a cada dia que passa. Ouvimos algo aqui ou ali, dançamos lá ou cá, mas é raridade colidir com algo que faça seu coração bater mais rápido ou o corpo se arrepiar. Fazia um tempo que não me sentia como me sinto atualmente.


Nós somos motivados por nossos sonhos. Espontaneamente fazemos algo por eles todos os dias, ao mesmo tempo em que somos apresentados aos sonhos de outras pessoas diariamente. Nossos artistas favoritos eram e são sonhadores e o que reproduzem para nós é o que um dia já foi seu maior desejo.


Hoje iremos falar de um em especial. Fomos apresentados a ele há sete anos. Era humilde, carente, porém rico de beleza. Pequeno, mas grande. A parte mais legal dos sonhos é que não fazemos ideia para onde eles podem nos levar. Creio que o BTS também não fazia ideia do que aconteceria após o lançamento do WINGS.


Da esquerda para direita: Jeon Jungkook, Park Jimin, Jung Hoseok (J-Hope), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga) e Kim Namjoon (Rap Monster/Real Me).

Bangtan Sonyeondan, Bangtan Boys, Bulletproof Boy Scout em coreano, Beyond The Scene em inglês, são nomenclaturas para um dos maiores fenômenos mundiais atualmente e podem ser resumidas em apenas três letras: BTS. Possuintes de talento, humildade e singularidade, os sete jovens sul-coreanos foram alguns dos responsáveis em potencializar a introdução da cultura coreana no mundo, nos últimos anos. Ao lado deles, estão outros grupos como Super Junior, Girls Generation, Bigbang, TWICE, EXO, NCT, entre outros.


BTS vem sendo a porta de entrada para o k-pop, alcançando corações resistentes, mentes blindadas e a simpatia de todos. Entretanto, apesar de toda essa revolução cultural sonora promovida pela Coreia do Sul, ainda existe alguns seres humanos que acham que o ouvido vai cair ao ouvir música em uma língua asiática. E é aí que os nossos garotos a prova de balas são introduzidos na história, para mostrar que você consegue sobreviver muito bem ao dia seguinte.


O LONGO COMEÇO

Formada pela BigHit Entertainment no desejo de debutar um grupo masculino de hip-hop, BTS deu seu primeiro passo ao estrelato em julho de 2013 com o single ‘No More Dream, seguido do segundo MV (Music Video) ‘We Are Bulletproof Pt.2 e se apresentando ao mundo com o single álbum 2 COOL 4 SKOOL. Mas enganam-se aqueles que pensam que tudo foi flores naquela época. BigHit era uma empresa pequena competindo com a BIG3 (três maiores empresas de entretenimento da Coreia: SM, YG e JYP), o que dificultava na divulgação do grupo. Foram negligenciados em vários momentos, muitas vezes nem podendo se apresentar em programas de televisão ou tendo a transmissão reduzida, mas como dizia o aclamado Fred Mercury: “The show must go on” (o show deve continuar) e foi isso que os mesmos fizeram.


Em setembro daquele ano, lançaram o mini álbum O!RUL8,2?, promovendo o single N.O. O MV retrata um regime escolar autoritário onde os alunos são alienados e fortemente reprimidos até que os próprios se revoltam, combatendo a situação. Um dos diferenciais do BTS dos demais grupos são os temas abordados nas canções. É muito recorrente se deparar com assuntos como politica, critica social, saúde mental, etc. N.O é uma dura critica ao sistema de ensino da Coreia, como a própria aliena e deteriora seus alunos aos poucos. O MV, a la Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, foi um aviso artístico e certeiro à população do que eles se constituíam: força e revolução.


Ao mesmo tempo em que eram fortes e revolucionários, criticas e comentários infelizes o cercavam. Costumavam dizer que não se consolidariam com sucesso, que não se encaixavam no modelo de grupo de k-pop ou então disseminavam comentários maldosos sobre a aparência de J-Hope, Namjoon e Jimin, dizendo que não eram bonitos o suficiente ou que Jimin era gordo (???). Uma vez, Namjoon, disse que estava grato por Jungkook e Taehyung serem bonitos, assim eles ganhariam fãs. Isso dói tanto quanto saber que Jimin teve que fazer dietas cruéis para entrar nos padrões corporais “aceitáveis” do país. Eles eram criticados por trazerem a diferença em um contexto onde o semelhante é correto e o intrínseco não é nada perto de um rostinho bonito.


A mensagem continuou sendo levada no mini álbum Skool Luv Affair lançado em fevereiro de 2014, estreando singles como a rebelde Boy In Luv e a romântica Just One Day, e também falam sobre jovens “quebradores de costas” em Spine Breaker, onde a letra fala sobre o egoísmo de não ver a realidade e condições da família. O nome “Spine Breaker” é uma metáfora as espinha dorsal dos pais que trabalham até quebrá-la para alimentar as vontades egoístas dos filhos.


Também temos a subestimada Tomorrow, dona de uma das composições mais sinceras e influenciadoras do álbum, discursando sobre a importância de seguir nossos sonhos. Há um momento que desanimamos sobre o que queremos ser de verdade e Namjoon diz: “A vida não é sobre viver, mas sobreviver / À medida que você sobrevive, você desaparecerá algum dia/ Eu queria me tornar alguém feliz e forte, mas por que estou me tornando mais fraco?” Mas nós sabemos que esse sonho é apenas nosso e J-Hope frisa: “A luz brilhará então não se preocupe/ Este não é um ponto final, mas apenas uma pausa na sua vida/ Levante seu polegar e pressione play para que todos possam ver.”. Então vem o refrão e ressalta com: “Siga seu sonho como um destruidor, mesmo se der tudo errado, oh vai melhorar.”.


BTS no show do Brasil em 2014. Foto: Melina Ferreira

Em Agosto, foi a chance do Dark & Wild brilhar. O primeiro álbum completo de estúdio evidenciou ainda mais o conceito sombrio e rebelde desde o debut. Danger e War Of Hormone foram os singles do disco, sendo aclamados por todo país e alcançando paradas na Billboard pela segunda vez. Eles deram inicio a pequena turnê Live Trilogy Episode II: The Red Bullet, realizada entre dezembro de 2014 e agosto de 2015, passando por alguns países como Nova York, México e o nosso amado Brasil. O show aconteceu em São Paulo, no Espaço das Américas, em Julho. Acredito que a ideia de vir ao país ainda era muito irreal e deixaram isso claro ao citar a cidade brasileira na terceira parte do conjunto Cypher Pt.3: Killer (Venda pedras, vire um charlatão / De São Paulo a Estocolmo / Lugares que vocês nunca sentaram na sua vida, eu me sentei).


O ORGULHO DA JUVENTUDE



Adultos costumam dizer que a juventude será o momento mais feliz de nossas vidas, conjuntamente em que se concilia com angústias e gatilhos psicológicos. Artistas são capazes de relatar tal período de maneira sensível e muito honesta, como é o caso da obra literária O Apanhador no Campo de Centeio de J.D Salinger, o álbum Electra Heart da Marina and The Diamonds e a trilogia The Most Beautiful Moment In Life do BTS.


A era HYYH (Hwa Yong Yeon Hwa em coreano, que significa “o momento mais bonito ou mais feliz da vida de alguém”) foi separada em três partes e veio para falar sobre juventude em sua forma mais linda, poderosa, perigosa e agonizante. O que é capaz de fazer com alguém, como pode interferir em nossa essência e a relevância de falar sobre nossos maiores demônios. Também foi o momento que conseguimos ouvir e ver o amadurecimento pessoal e musical dos membros, coincidindo com o desenvolvimento do grupo em si. Conseguimos encontrar poesias liricamente coesas com nossas vivências juvenis, explanando temas como amor, amizade, ansiedade e depressão, sem romantizar as situações. Não glamorizam nossas dores, e sim, mostram que elas são reais e que precisamos tratar/falar sobre elas.


Escrita por Namjoon, J-Hope e Suga, I Need You evidência um pano de fundo de um relacionamento deteriorado por incontáveis pedidos de volta e promessas jogadas ao vento. O romantismo em Hold Me Tight segue o mesmo caminho enquanto Dope vai para outro totalmente diferente, recebendo o dom de ser a mais pop e descontraída do disco.


A segunda parte foi lançada em 30 de dezembro de 2015 com o avanço do assunto, agora mostrando um lado mais divertido, com a apaixonada Run e Whalien 52, que leva tal nome por mencionar uma das baleias mais solitárias do mundo. Seu canto alcança os 52 Hz, muito mais alto do que a vocalização normal das baleias, é mais curto e frequente. Com essa informação, os garotos metaforizam a solidão e preocupações que temos nesse momento da vida, amores não correspondidos e a solitária sensação da fama. Ma City pontua pontos fortes de algumas cidades da Coreia como Ilsan, Busan, Gwangju e Daegu, respectivas cidades natais do grupo. Já em Baepsae (Silver Spoon), eles apresentam o lado mais ousado e descarado de cada um. O pop calmo em Autumn Leaves é o respiro até chegarmos à última, vulgo a favorita das fãs, House Of Cards, que carrega uma envolvência magnética capaz de fazer você dançar sensualmente e não perceber. Contém um poder superior e invulgar sem ser excêntrico. Em outras palavras: sexy sem ser vulgar.


A terceira e última parte da bela trilogia recebeu o nome de The Most Beautiful Moment In Life: Young Forever, uma ode ao momento mais importante de nossas vidas. Lançado em maio de 2016, reúne canções dos dois últimos álbuns e acrescentam remixes, versões estendidas e inéditas como a agressiva Fire, o pedido de socorro Save Me e o epílogo Young Forever. Nossa abertura para discutir sobre saúde mental é maior do que já foi há algumas décadas atrás. Ela sempre esteve dentro de cada um, mas a sociedade diminuía o sentimento, nomeando como rebeldia, o que, coincidentemente, acabou se tornando o titulo de um dos primeiros filmes a falar sobre o assunto: Rebel Without a Cause (Juventude Transviada), de 1955, carregando James Dean no papel principal.


Nos anos 80 foi John Hughes, com Clube dos Cinco, impactando os espectadores com tamanha identificação com os personagens. Esse cenário passou por muitas mudanças até chegarmos aos dias de hoje. Atualmente, a sociedade entende a magnitude do que o silêncio ensurdecedor das mentes pode acarretar para o curso de nossas vidas. Contudo, até mesmo o sofrimento é romantizado pela mídia, concedendo más interpretações. Salvo algumas mensagens, a do BTS é uma das mais intrínsecas e efetivas. Gosto da forma como eles descortinaram o tema ao mundo, mostrando que não é errado se sentir assim, que devemos reconhecer o problema e falar sobre ele. Também esclarece que não podemos sentir tudo sozinhos. Temos amigos, precisamos contar com eles. O grupo aborda a problemática, a tratando como de fato deve ser retratada. Sabem que não podemos deixá-la nos definir e que devemos fazer algo em relação a isso, encontrando sua verdadeira voz em alguma parte do seu ser.


A partir dai, podemos ver o crescimento exponencial do grupo através do mundo. Ganharam prêmios, incluindo de Melhor Álbum do Ano em 2016 no MAMA, uma das principais premiações da Ásia. Não para por ai, venderam milhões cópias só na primeira semana de lançamento e tornaram-se o segundo grupo de k-pop a ter seu segundo álbum consecutivo a entrar na Billboard 200. Tais conquistas foram tão grandes que o ocidente abriu os olhos para eles, alcançando agora não só a Ásia, como também América do Norte, do Sul e Europa. Por já terem visto de quase tudo, as pessoas estavam curiosas e eufóricas para conhecerem o que eles tinham a oferecer, e que foi recebido de braços abertos. Salvaram milhões de corações, conversaram com muitas mentes e confortaram incontáveis crises de ansiedade. Todo esse contexto só foi o começo para o que realmente estava por vir. Eles iriam dominar o mundo, apenas não sabiam disso.


Vamos para segunda parte?

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