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  • Anna Clara Fonseca

A primorosa humanidade do Wish You Were Here

A beleza está nos detalhes. O pequeno tamanho se torna imperceptível aos olhos daqueles que não tem atenção. Um dia essa beleza cresce, apresentando o que estava na nossa frente o tempo todo. Essa banda contém uma beleza esplêndida, suas músicas se perpetuaram por décadas, passando de pai pra filho até os dias de hoje.


Com apenas cinco músicas, o belo detalhe na discografia do Pink Floyd é o Wish You Were Here.

Capa do álbum Wish You Were Here

Antes de começarmos a contar a história do álbum, precisamos voltar em 1964, ano em que a banda foi formada pelos estudantes Roger Waters, Rick Wright, Nick Mason e Rado “Bob” Klose, que não vingou, deixando a banda no verão de 1965. Eles tiveram vários nomes antes do oficial como Sigma 6, Tea Set, The Architectural Abdabs, etc. Quando Syd Barret se juntou ao grupo no mesmo ano, deu a ideia de se chamar The Pink Floyd Sound, em homenagem aos cantores de blues Pink Anderson e Floyd Council.


A banda ficou assim: Syd Barret nos vocais e guitarra, Roger Waters no baixo, Nick Mason na bateria e Rick Wright nos teclados e voz de apoio.


Roger Waters, Nick Mansos, Syd Barret e Rick Wright.

O primeiro álbum The Piper at the Gates of Down foi uma grande estreia no ano de 1967, concedendo uma visibilidade inegável a psicodelia que eles produziam. As altas doses de LSD consumidas por Syd influenciava na hora de escrever suas canções, porém essa “ajuda” começou a ser um problema. A saúde mental de Barret estava se deteriorando, ele passou a apresentar um comportamento imprevisível. Não estava em sintonia com o resto dos integrantes da banda, desafinava a guitarra algumas vezes; tais atos começaram a preocupar seus colegas de trabalho.


Em 1968, Syd Barret é afastado do Pink Floyd e David Gilmour assume o posto.


Nick Mansos, David Gilmour, Rick Wright e Roger Waters de pé.

Aptos a experimentar novos horizontes, eles se afastaram da cena psicodélica, investindo em novos sons. A sonoridade diversificada apresentou um mundo novo a eles, dando a confiança necessária para lançarem o Atom Heart Mother em 1970, Meddle em 1971, Obscured By Clouds em 1972, até chegar ao ápice com o aclamado The Dark Side Of The Moon em 1973.


The Dark Side Of The Moon foi um sucesso instantâneo. Até hoje é considerado um dos maiores álbuns da história da música, seu legado é intocável. Ao mesmo tempo em que se tornaram uma das bandas mais importantes do rock, a riqueza veio em seu encalço. A sucessão de acontecimentos como shows esgotados e notoriedade privilegiada acabou deixando a banda mesquinha, “perdendo todo lado humano”, palavras de David Gilmour anos mais tarde. Esse foi um dos maiores fatores para a criação do Wish You Were Here.


Eles entraram no estúdio para gravar novas musicas em 1974. Gilmour tocou quatro acordes que desencadeou sentimentos em Waters para escrever Shine On You Crazy Diamond, canção dedicada a Syd Barret. Aliás, ele havia sido uma das veias do Pink Floyd. Sua criatividade deu forma à banda, não queriam ser ingratos o bastante para esquecê-lo. A canção começa de maneira melancólica juntamente com os acordes autênticos, criando uma experiência floydiana. O sintetizador e o órgão de Wright dão parecer na segunda parte da música, são responsáveis por fechar o disco, e fazem com tamanha elegância e maestria.


Um dos temas abordados no álbum é a crescente desilusão na indústria fonográfica. A letra de Welcome to the Machine conta um pouco sobre a sua experiência de Waters na indústria da música, “monstruosa e enganadora, que te mastiga e cospe fora” palavras proferidas pelo próprio no documentário The Story Of Wish You Were Here. Os sintetizadores da uma ideia futurista sobre a canção. O baixo entra logo em seguida, como se fosse uma pulsação. Logo temos todos aqueles sons casando perfeitamente.


Venha aqui garoto e pegue um cigarro“. Have a Cigar resume bem a indústria fonográfica e os seus encantamentos. O cigarro é uma metáfora a essas propostas irrecusáveis capazes de tornar você em uma marionete para eles. Brian Humphries foi o engenheiro de som do álbum. Ele não estava satisfeito com a voz de Roger e David na música: David não tinha uma voz grave o bastante e Roger não tinha a ferocidade necessária. Por isso, convidaram Roy Harper para cantar. Davis Gilmour considera a versão de Harper perfeita, enquanto Waters nunca conseguiu gostar.


Eles estavam no estúdio quando Gilmour tocou uns acordes sem pretensão, que acabaram deixando Roger instigado. Esses simples riffs foram capazes de criar uma das letras mais bonitas da história do rock. Wish You Were Here é uma tentativa de contatar com a humanidade da banda novamente. A chance de se encontrar com a essência de cada integrante, tentando se desintoxicar do mundo fútil e mesquinho que foram introduzidos. Entretanto, também é um apelo a falta de humanidade da sociedade em tempos tão difíceis. A melodia melancólica e a voz suplicante de Gilmour ganhou atemporalidade por simplesmente fazer jus aos nossos dias atuais, descrevendo com clareza a verdadeira face do ser humano. Wish You Were Here é considerada uma das canções mais importantes da carreira do Pink Floyd.


A execução da capa do disco

E todo esse conceito sobre buscar o lado humano dentro do nosso ser pode ser descrito através da capa do disco. Um homem apertando a mão de outro homem pegando fogo e ambos é a mesma pessoa. O criador da capa foi Storm Thorgerson, que estava trabalhando nas capas dos discos da banda desde A Saucerful Of Secrets de 1968. “Discutimos como é a música para nós. Ou a intenção da letra. Ou sobre o que realmente é o álbum.” explicou Storm em seu livro de 1997, Mind Over Matter: The Images of Pink Floyd. Longas conversas complexas com a banda mostraram que o tema principal do disco era a ausência. Os dois homens vestidos com ternos pretos e bem alinhados fazem referência à canção Have a Cigar e o aperto de mão significa um acordo vazio, desconhecido. As chamas representa o afastamento emocional do ser humano, a ausência promove o distanciamento por medo de serem queimadas.


Syd Barrett durante a mixagem de Shine On em 1975.

Antes de o Wish You Were Here ser totalmente finalizado, eles se deparam com uma situação um tanto inusitada. No dia 5 de junho de 1975, quando estavam fazendo a mixagem final de “Shine On”, chega um visitante em Abbey Road. Eles não faziam ideia quem era aquele homem. “Nick, você o reconhece?” David perguntou a Nick, que negou e ele respondeu: “É o Syd“. Ele estava diferente: gordo e careca, totalmente o oposto como o encontraram pela última vez. A emoção foi tão grande, que Roger e David não conseguiram segurar as lagrimas. Eles não estavam preparados para aquilo tudo, o modo como foi também influenciou no sentimento inicial.


Wish You Were Here pode ser considerada a ode do Pink Floyd. A riqueza instrumental, lírica e conceitual perdura até os dias de hoje, se tornando referência para muitos artistas. A mensagem continua válida, eles sempre conseguiram transmitir pensamentos coerentes sobre a sociedade num todo, logo, eles sentiram que era necessário que o mundo precisava ouvir aquilo, assim como eles também. Os temas conversados de canção a canção incentiva o ouvinte a fazer uma reflexão sobre o mundo e os seus atos em relação a isso. Pode passar 30 anos e o Wish You Were Here vai continuar sendo referência em atemporalidade coerente e aclamada com suas verdades intrínsecas e universais.




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