• Heloísa Cipriano

Além das Trilhas: Hildur Guðnadóttir

Já assistiram todos os filmes indicados ao Oscar deste ano? Pois quem gosta de acompanhar a cerimônia e apostar em quem levará a estatueta tem poucas horas para atualizar a lista, porque a 93ª Cerimônia do Oscar está programada para a noite de hoje, dia 25 de abril!


E se tratando de representatividade feminina, sabemos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deixou muito a desejar nestes 92 anos de premiação. Uma comemoração para este ano nesse sentido é que pela primeira vez duas mulheres foram indicadas na categoria melhor direção no mesmo ano: Chloé Zhao (por Nomadland) e Emerald Fennell (por Bela Vingança). Além disso, Zhao é a primeira mulher não branca a ser indicada na categoria em 93 anos de premiação.


Apesar dessas conquistas serem efetuadas bem no estilo “tijolinho por tijolinho”, algumas categorias ainda merecem atenção: estamos falando de indicações e vencedoras para melhor trilha sonora. Em 87 anos, apenas três compositoras levaram para casa o Oscar de Partitura Original (Rachel Portman, Anne Dudley e Hildur Guðnadóttir) e houve apenas cinco indicações para trabalhos de compositoras. O campo da música para cinema continua a ser dominado por compositores do sexo masculino e, neste ano, não houve qualquer indicação de compositoras para produtos audiovisuais. Talvez seja porque a maioria das composições são feitas por homens? Sim, mas aí é que está: será que isso tem relação com o fato delas terem um longo caminho a percorrer para conseguir essa visibilidade? Será que, por conta da pressão social, muitas desistem desse caminho? Eu, como mulher, acredito que esse argumento possa ser uma realidade.


Diante desta reflexão, vamos hoje trazer o trabalho da compositora que venceu um Oscar mais recentemente: em 2020, competindo com John Williams, Hildur Guðnadóttir levou a estatueta por Joker (2019). Depois de 23 anos sem uma mulher ganhar essa categoria (Anne Dudley levou por The Full Monty em 1997), Guðnadóttir fez e faz história na indústria musical.



Hildur é islandesa, nasceu em setembro de 1982 e vem de uma família de músicos (a mãe, inclusive, é uma cantora de ópera). Ela tem uma extensa carreira como violoncelista, instrumento que começou a tocar ainda criança, de acordo com informações do próprio portal da compositora. Apenas de seu trabalho com o violoncelo, ela lançou álbuns solo e colaborações com outros artistas.


Antes de começar a seguir o rumo da música para produtos audiovisuais, manifestou seu som pop experimental e música contemporânea a partir de 2006, com o lançamento de seu primeiro álbum, chamado Mount A. Logo depois, lançou Without Sinking (2009), Leyfðu Ljósinu (2012) e Saman (2014), discos nomeados para o Icelandic Music Awards, prêmio anual de música oficial concedido na Islândia, seu país de origem. Com seus trabalhos solo é possível perceber que ela trabalha com um amplo espectro de sons, de simples a grandiosos. Além disso, algumas de suas composições futuramente seriam utilizadas em produtos como a aclamada série da Hulu, The Handmaid 's Tale; e filmes premiados, como The Revenant e Arrival.


Com uma bagagem de estudos impecável em locais como a Academia de Música de Reykjavík, a Academia de Artes da Islândia e a Universität der Künste Berlin, Hildur compôs música para teatro, dança e filmes. Foi em 2011 que teve sua música composta pela primeira vez para um trabalho cinematográfico, com o filme de terror The Bleeding House.


Confira abaixo as principais obras de Hildur Guðnadóttir para o cinema e a TV.


Sequestro (2012)



A formação clássica faz parte da vida de Guðnadóttir; mas foi com as trilhas sonoras que ela conquistou reconhecimento mundial. O filme Sequestro é um de seus primeiros trabalhos para o audiovisual e foi super elogiado pela crítica especializada na época do lançamento, em 2012. Dirigido por Tobias Lindholm, o longa dinamarquês conta a história de um cozinheiro chamado Mikkel que trabalha num navio de carga dinamarquês. Antes de deixar a embarcação para sair de folga, ele é sequestrado por piratas e manipulado para pressionar seu chefe a pagar o resgate. A história é bastante comparada com o longa estadunidense Capitão Phillips, estrelado por Tom Hanks e baseado em fatos reais. Filme tenso exige trilha sonora tensa, e aqui Guðnadóttir entregou isso tão bem que, sendo o segundo trabalho cinematográfico, já conseguiu ser indicada para premiações, como a Robert Awards.


Os Suspeitos (2013)


Essa foi a primeira contribuição para um filme do diretor Denis Villeneuve (mais tarde ele continuou a parceria com Guðnadóttir em outros de seus longas). A música não foi composta por Hildur, mas uma de suas composições com solo de violoncelo foi utilizada. O enredo é sobre o rapto de duas garotas na Pensilvânia e o resultado da busca que é realizada pelo pai de uma das meninas e de um detetive chamado para a investigação.


Sicario: Terra de Ninguém (2015)


Segundo filme do diretor Denis Villeneuve que ela colaborou e que, em 2018 recebeu uma sequência. Em Sicario: Terra de Ninguém, ela também tocou um solo de violoncelo. Esse filme pode ser encontrado na Netflix e tem como protagonista uma agente do FBI que é alistada por uma força-tarefa do governo para derrubar o líder de um poderoso cartel de drogas mexicano. A filmagem foi realizada em Albuquerque, Novo México (quem é fã de Breaking Bad com certeza relacionou a cidade com histórias sobre cartel de drogas mexicano). Como em Os Suspeitos, Jóhann Jóhannsson também foi selecionado para ser o compositor do filme, e mais tarde em Maria Madalena ele faria um trabalho de composição em dupla com Guðnadóttir.


O Regresso (2015)



Seguindo nos trabalhos de intérprete de faixas com violoncelo, a música Whiten fez parte da trilha sonora do filme o Regresso, conhecido como o longa que deu pela primeira vez a estatueta de melhor ator ao considerado injustiçado ator Leonardo DiCaprio. Essa faixa é do álbum Without Sinking, lançado em 2009 por Hildur; seis anos depois seria utilizada no filme hollywoodiano extremamente elogiado pela crítica especializada. É uma faixa que demanda concentração e também tem a pretensão de ser tensa; misteriosa e bem linear. É em seus 2 minutos e 40 segundos que começa a desencadear mais frequências sonoras, e conta apenas com o violoncelo como instrumento musical.


A Chegada (2016)


Essa ficção científica também é de Denis Villeneuve e retrata a história nos dias atuais, quando seres alienígenas chegam na Terra em naves espalhadas por diversos pontos do planeta. Uma especialista em linguística, interpretada por Amy Adams, é chamada para entender a comunicação dos visitantes e o filme se desenrola na relação da protagonista com o entendimento sobre o espaço-tempo. Percebemos que Villeneuve é fã do trabalho de Hildur e, mais uma vez, ele utiliza um solo de violoncelo da compositora para fazer parte da trilha sonora.


Ming do Harlem (2016)


Esse documentário para televisão tem a trilha sonora completamente composta por Guðnadóttir e narra a história verídica de um homem chamado Antoine Yates que morava com um tigre chamado Ming em seu apartamento no Harlem, bairro localizado em Nova York, nos EUA. A história ficou mundialmente conhecida em 2003 e na época de sua captura, quando foi encontrado com seu dono, o tigre tinha três anos de idade. Além desse tigre, outros animais longe de seu habitat natural foram encontrados no apartamento, como um crocodilo de 2 metros chamado Al. É possível ouvir violoncelo e outros elementos sonoros na composição, que causam um clima de investigação completamente encaixado com a surpreendente história.


Strong Island (2017)



Outro documentário para televisão, nessa obra Hildur utiliza da sensibilidade do violoncelo para ilustrar a história verídica do assassinato do irmão do diretor, Yance Ford. A história relembra e analisa o assassinato de William, rapaz negro que tinha 24 anos na época e era professor. O sistema judicial norte americano permitiu que o homem branco responsável pelo homicídio permanecesse livre, e nesse filme, o cineasta Yance Ford reflete sobre percepção racializada, preconceito, tristeza, raiva e impunidade. Strong Island foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2018. O diretor, Yance Ford, foi o primeiro homem abertamente trans a ser nomeado para qualquer Oscar e o primeiro diretor abertamente trans a ser nomeado para qualquer Prêmio da Academia. O documentário recebeu um Emmy de Mérito Excepcional em Documentário e Ford entrou na história da produção estadunidense como o primeiro homem abertamente transgênero a ganhar um prêmio Emmy.


A Última Jornada (2017)


Em um trabalho colaborativo com Natalie Holt, Hildur compôs o longa estadunidense que se passa nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, com um grupo de oficiais britânicos que esperam um ataque das tropas alemãs. A trilha sonora venceu na categoria Melhor Música do Beijing International Film Festival. Assistindo ao trailer do filme, é possível perceber que neste trabalho, Guðnadóttir se aproxima mais dos moldes de trilhas sonoras para produtos com maior gasto orçamentário e mais perto de contar com uma bilheteria mais pomposa.


The Handmaid’s Tale (2018)


A quarta temporada de The Handmaid 's Tale está chegando! No próximo dia 28 de abril, três episódios vão estrear no streaming Hulu e continuarão a narrar a trajetória de June/Offred para libertar ela e diversas outras mulheres que vivem no governo totalitário de Gilead. Apesar de parecer ficcional, essa distopia é assustadoramente uma realidade no mundo. Você chega a pensar “que pesadelo seria viver numa Gilead”; mas, depois, se dá conta de que vivemos uma Gilead todos os dias. Esse desconforto que a série protagonizada por Elisabeth Moss preenche em nós é revestido de uma trilha sonora também perturbadora; e Guðnadóttir sabe criar sons perturbadores como ninguém. A canção Erupting Light, do álbum Without Sinking (2009), foi escolhida para ilustrar uma cena memorável da série. A personagem da casta das Aias, Emily, vivida por Alexis Bledel, se emociona em um camburão junto a uma das Marthas quando são levadas ao local de uma das sentenças que têm que pagar por desobedecer a ditadura de Gilead. A canção ilustra muito bem o sofrimento e a incompreensão que as personagens sentem na cena; é imponente e triste.


Maria Madalena (2018)



Com esse trabalho realizado em colaboração com Jóhann Jóhannsson, a compositora recebeu o prêmio Asia Pacific Screen Award de Melhor Trilha Sonora. O drama bíblico conta a história da fiel seguidora de Jesus de Nazaré, Maria Madalena, considerada uma santa em diversas denominações cristãs. O filme toca de forma delicada na vida interior de Maria Madalena, uma das pessoas mais incompreendidas na interpretação bíblica, e a composição aposta num coro de vozes misturado com instrumentos como piano, flautas, e elementos experimentais de percussão. A força simbólica e a crise pela qual a personagem passa devem ser destacados por meio do som e esse trabalho em conjunto com Jóhannsson (conhecido por mesclar orquestra tradicional com elementos eletrônicos contemporâneos) deu um toque mais expansivo ao som intimista da compositora islandesa. Segundo a resenha de Anže Grčar, o estilo composicional de Guðnadóttir não é muito diferente do de Jóhannsson; o som característico dela foi descrito como “quando o acústico encontra o eletro”. O resultado é uma trilha sonora diferenciada de filmes bíblicos, mas sem tirar o propósito de se conectar com o Sagrado.


Sicario: Dia do Soldado (2018)


Se no primeiro filme a trilha era de Jóhannsson, nesse Hildur que passa a assinar o nome de compositora do filme. O som remete a guerra, conflitos e ação. Na faixa Attack, por exemplo, praticamente o tempo todo parece que as batidas do instrumento musical são disparos de artilharia pesada, bem no estilo de gangue ou cartel mexicano. De acordo com o cineasta Marcelo Hessel, do site Omelete, a compositora “reaproveita os temas circulares e extenuantes do finado Jóhann Jóhannsson”. Para ele, Guðnadóttir recicla parte da trilha do primeiro filme; mas, acredito que ela utiliza alguns elementos do filme anterior para não fugir muito da identidade musical já criada de Sicario. E vamos combinar, o som precisava continuar a seguir uma linha nesse sentido, porque aqui a história gira em torno do terrorismo e da imigração ilegal na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Além disso, o som soa mais pesado, característica forte no trabalho de Guðnadóttir.


Chernobyl (2019)


A série da HBO foi aclamada pela crítica e retrata os eventos em torno do acidente nuclear de 1986, na usina de Chernobyl, uma das piores catástrofes provocadas pelo homem na história. Com a obra de composição para Chernobyl, Hildur recebeu um prêmio Primetime Emmy e um Grammy de Melhor Trilha Sonora de Trilha Sonora para Mídia Visual. O sucesso da série se deve à trilha provocativa da compositora, que ilustra com seu som as histórias chocantes das pessoas que lutaram pela vida depois do desastre. Para isso, ela inovou e foi criativa (ponto importante para trabalhar nessa área): usou sons de uma usina nuclear desativada na Lituânia. A informação foi divulgada por ela numa entrevista ao On Score: The Podcast. Nessa entrevista, ela confirmou ainda que foi ao local gravar pouco antes de começarem as filmagens, acompanhada de seu produtor, Chris Watson.


Coringa (2019)



Seu mais recente trabalho foi justamente o que a deu mais visibilidade na indústria musical para trilhas sonoras e tornou seus trabalhos solo também mais reconhecidos no mainstream. Com Coringa, Hildur soube entregar como ninguém a agonia, a problemática social e as consequências do que pode acontecer com uma pessoa que não trata um Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável. Já fizemos review sobre o filme aqui na Sidetrack e, quem assistiu, viu que não é um blockbuster sobre Joker; é um suspense psicológico sobre Arthur Fleck, comediante de stand-up fracassado que é levado à loucura e se envolve com o crime na cidade de Gotham City. Por Joker, Hildur ganhou uma estatueta do Oscar, uma do Globo de Ouro de Melhor Trilha Sonora Original, uma do Critics' Choice Awards 2020, o BAFTA 2020 e o Grammy de 2021. Em entrevista ao The Guardian, ela afirmou que Coringa foi um dos momentos de colaboração mais fortes que já experimentou. Assistir Joker com a trilha de Hildur Guðnadóttir, sem dúvida, faz com que a experiência de assistir Joaquin Phoenix seja muito mais inquietante, pois a atmosfera sonora desse filme é densa e pesada - justo o que precisava para entrar na lista de “longas para ficar dias pensando e tendo crise existencial”.


Atualmente, Hildur Guðnadóttir mora em Berlim, na Alemanha, de acordo com seu portal pessoal. Ela é bem discreta nas redes sociais, então não há novas notícias de outros trabalhos que ela esteja realizando… mas há um em específico que foi anunciado em janeiro deste ano. Ela deve ser a compositora do novo filme do diretor David O. Russell, mais conhecido pelos filmes O Lado Bom da Vida e Trapaça. De acordo com a revista digital Deadline.com, o projeto misterioso ainda não tem nome revelado, mas está em fase de produção na Califórnia e terá grandes nomes do cinema de Hollywood, dentre eles Robert De Niro, Mike Myers, Chris Rock, Anya Taylor-Joy, Christian Bale, Margot Robbie, Michael B. Jordan, Rami Malek e Zoe Saldana. Que elenco e que compositora escalados!


Quer conhecer mais trabalhos de compositoras poderosas como Hildur Guðnadóttir? Indiquem pra gente! Enquanto isso, ficamos atentas aos próximos capítulos do tapete vermelho deste ano. Até a próxima!

Estamos ouvindo!

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