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  • Heloísa Cipriano

Além das Trilhas: O Auto da Compadecida

Atualizado: Jun 11

Semana passada recebemos a notícia de que o Governo Federal transferiu recursos destinados ao pagamento de beneficiários do Bolsa Família na região Nordeste para a área da Comunicação Social, que cuida da publicidade do Governo Bolsonaro. Essa informação nos faz refletir sobre o papel do jornalismo em nossas vidas. Respaldado pela liberdade de imprensa e os direitos de ter acesso à toda e qualquer informação, é com o jornalismo que a veracidade dos fatos vem a tona. Nesse caso, a informação pode ser acessada por todos: a publicação no Diário Oficial constava uma transferência de 83.9 milhões de reais que seriam destinados no começo do ano ao programa Bolsa Família, instituído no Governo Lula e que ajuda financeiramente milhares de famílias de baixa renda, aquelas que possuem renda per capita de 89 a 178 reais. E nesta terça-feira (09), depois de diversas críticas, inclusive de Manoel Galdino, diretor da Transparência Brasil (entidade que analisa gastos públicos) o Governo voltou atrás e revogou a portaria.

Mas o que essa informação tem a ver com o Além das Trilhas desta semana? É que quando saímos da nossa bolha - essa que vive dignamente, com comida na mesa todo o dia - e passamos a olhar pro lado dos mais de 13 milhões de brasileiros sobrevivendo com até 145 reais por mês, refletimos: qual o motivo de se transferir dinheiro para fazer boa propaganda de um Governo que de bom, até agora, não fez nada? Aliás, de um Governo que ao invés de transferir esse dinheiro para quem realmente precisa, para o pobre trabalhador, utiliza-o para benefício próprio (já que, é claro, não vão fazer publicidade negativa)?

De acordo com o IBGE, a miséria atinge principalmente estados do Norte e Nordeste do Brasil. Ao mestre Ariano Suassuna, só temos a agradecer: obrigada por, com sua literatura, apresentar a força dos nordestinos. Obrigada também a Adriana Falcão e João Falcão, com seus roteiros; e Guel Arraes, com sua direção, a encaixar o trabalho de Suassuna nas telonas do cinema brasileiro. Com essa reflexão é que hoje falamos além da trilha sonora de O Auto da Compadecida.


Quando soube dessa notícia envolvendo o Bolsa Família, me remeti diretamente a cena de O Auto da Compadecida em que Nossa Senhora roga por João Grilo e o povo pobre do Nordeste. A atuação que mais gosto de Fernanda Montenegro é nesse filme, e sua fala sempre me arrepia. Ela diz, pedindo o perdão de Jesus Cristo, seu filho muito amado.

“João foi um pobre como nós meu Filho. Ele teve que suportar as maiores dificuldades numa terra seca, pobre como a nossa. Pelejou pela vida desde menino. [...] Acostumou-se a pouco pão e muito suor. [...] Passava fome. E quando não podia mais, rezava. E quando a reza não dava jeito, ia se juntar a um grupo de retirantes que tentava sobreviver no litoral. Humilhado. Derrotado. Cheio de saudade. E logo que tinha notícia da chuva, pegava o caminho de volta; animava-se de novo, como se a esperança fosse uma planta que crescesse com a chuva. E quando revia a sua terra dava Graças a Deus por ser um sertanejo pobre, mas corajoso e cheio de fé.”

A música de O Auto da Compadecida nos transporta para o sertão nordestino, com elementos que misturam cordel, forró e sons regionais. Os instrumentos típicos como triângulo, cordas, flauta, violão, viola, clarinete, marimba e percussão são o que coloca o grupo musical Sá Grama em evidência na sonoridade.

Unidos, esses instrumentos contam histórias que não precisam nem de imagens para visualizar. Exemplos são:


1. A cena em que Dorinha, personagem interpretada por Denise Fraga, se confessa com o padre e descobre que seu marido estava disfarçado para descobrir suas traições. A música de fundo, do bem sucedido grupo pernambucano SaGRAMA, complementa a história apresentada visualmente, despertando a atenção de quem assiste. É uma música mais agitada, despretensiosa, o que combina perfeitamente com a personagem que recebe a música tema Rói Couro.


2. A música Presepada foi composta para ser tema de João Grilo, personagem principal do filme interpretado por Matheus Nachtergaele. É alegre, traz um tom de alguém esperto, carismático, assim como o personagem é. Também tem um caráter cômico. Em momentos alegres, traz gargalhadas ao espectador, como na cena em que João Grilo toca a gaita para ressuscitar Chicó, fingindo ser milagrosa para o Capitão Severino e seu comparsa, Cangaceiro Cabra.

E em momento de tensão, há melodias que transmitem a tristeza; como na cena da morte de João Grilo, com a música Sentença.


3. Outros exemplos que não podemos deixar de lado são as músicas tema do Capitão Severino, interpretado por Marco Nanini; e do Diabo, interpretado por Luís Melo. A música Severino começa com uma sanfona bem “chorosa”. Não sei se foi o que queriam transmitir, mas quando ouço o início penso numa retirada de imigrantes no sertão, caminhando por horas no cerrado seco, assim como cangaceiros faziam. Depois, ela começa a ficar agitada, como se mostrasse os dois lados de ser cangaceiro: da pobreza e da vilania, já que a vida no Cangaço se baseava em pilhagens, assassinatos e até mesmo estupros. Quanto à música Filho de Chocadeira, tem um som confuso, cheio de detalhes, o que remete às artimanhas do “tinhoso”.


Comece a ouvir em 1 minuto e 20 segundos.


Folk Music também é um elemento presente na trilha sonora do filme. Inclusive, folk remete à Folkcomunicação, campo de estudo criado pelo professor Luiz Beltrão que analisa a difusão da comunicação popular e o folclore nos meios de comunicação de massa. Tanto é que o cordel é uma das diversas manifestações folkcomunicacionais, literatura típica do Nordeste brasileiro. E como já mencionado, cordel está tanto na música de O Auto da Compadecida quanto na linguagem audiovisual do filme. Dá uma olhada só no cartaz do filme e em trechos (principalmente das fanfics do Chicó).

Para quem quer conhecer a trilha sonora do filme, ouça o CD de SaGRAMA. O grupo pernambucano é também chamado de Banda Sinfônica do Recife. Foi criado em 1995, no Conservatório Pernambucano de Música, e trabalha a música pernambucana instrumental com base nas manifestações da cultural popular local.

Ouça a trilha sonora completa, disponível no site do Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) aqui.

Dicazinha Além das Trilhas para O Auto da Compadecida


A trilha sonora de O Auto da Compadecida é instrumental; e para quem gosta de regionalidade com carga histórica intensa, vai amar as canções. Entendo que é muito bom dar dicas de séries e filmes de outros países; mas é essencial que a gente se apaixone pelo nosso mundo. O Auto da Compadecida é só um desses mundos; o Brasil é tão diverso, cada região tem seu estilo e isso é que faz sermos tão ricos em cultura, pouco valorizada em nosso meio. Apoiemos a cena local! Viva o Nordeste, viva Ariano Suassuna. E viva O Auto da Compadecida!

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