• Heloísa Cipriano

Além das Trilhas: Trent Reznor & Atticus Ross

Estamos acostumados a assistir às cerimônias de premiação do Oscar no mês de fevereiro. Mas, para adaptação das medidas sanitárias em razão da pandemia da Covid-19, a cerimônia deste ano precisou ser readaptada e acontece agora no próximo dia 25 de abril, dois meses após o previsto. Nela, vamos prestigiar os homenageados dos melhores filmes lançados entre 1 de janeiro de 2020 e 28 de fevereiro de 2021.


Não é novidade para ninguém que a indústria cinematográfica sofreu um forte impacto em razão da pandemia, com salas fechadas durante meses (ainda hoje isso ocorre). Mas, por outro lado, os serviços de streaming impulsionaram as vendas dos filmes. Neste ano, a maior parte dos indicados foram disponibilizados por diversas plataformas, dentre elas a que detém mais indicações a Netflix (35). E em questão de trilha sonora, das cinco indicações, duas são de uma dupla de sucesso nessa jornada de sons para filmes da sétima arte. O Além das Trilhas de hoje traz o trabalho colaborativo de Trent Reznor e Atticus Ross.



Trent Reznor é mais conhecido por ser o fundador da banda de rock Nine Inch Nails e responsável pela produção e lançamento do primeiro álbum de Marilyn Manson - que inclusive já declarou de forma polêmica em entrevistas que cortou relações com o artista por não aprovar suas ações. Nascido no estado norte americano da Pensilvânia, desde criança apresentava potencial para viver da música. Na década de 1980, com 23 anos, alcançou fama com a banda Nine Inch Nails com uma grande variedade de gêneros, principalmente conhecida pela sua caraterística eletrônica.


E foi em outro continente do mundo que Atticus Ross nasceu: dois anos mais novo, o inglês nasceu em Londres e passou por produção e mixagem de músicas em 1990. Foi em 2002 que Reznor e Ross se conheceram, trabalhando num projeto paralelo. Em 2008, Atticus contribuiu com a produção do álbum Ghosts I-IV e não parou mais de lançar trabalhos com seu amigo. Anos mais tarde, em 2016, Atticus Ross se tornou um membro da banda em tempo integral.


Em mais um dos costumeiros hiatos da banda, entre 2009 e 2012, a dupla começou com trabalhos de composição de trilhas sonoras para a indústria da sétima arte, com o lançamento do filme A Rede Social (2010). Foi aí que começaram uma parceria que nunca mais parou. O trabalho rendeu aos dois o Oscar de Melhor Trilha Sonora de 2011. Logo depois, o diretor David Fincher chamou Reznor e Ross para seus outros dois filmes, Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres e Garota Exemplar.


Confira a seguir alguns dos principais trabalhos de Trent Reznor e Atticus Ross.


A Rede Social (2010)



Antes de produzir a trilha sonora de A Rede Social para o diretor David Fincher, Trent Reznor já havia participado com sua banda no filme Seven - Os Sete Crimes Capitais. Nos créditos de abertura, a música Closer foi escrita por Reznor e interpretada pela Nine Inch Nails. Atticus Ross também já tinha experiência no setor, compondo a trilha sonora da série Touching Evil e do filme Nova York, Eu Te Amo.


Uma característica muito presente nos filmes de David Fincher é a valorização das trilhas sonoras; ele reconhece o potencial que o som tem para expressar o significado de uma cena. Isso é tão real que rendeu um Oscar na categoria Melhor Banda Sonora a Reznor e Ross - estavam concorrendo com os veteranos Hans Zimmer e Alexandre Desplat. À Veja, Reznor descreveu que foi uma surpresa a indicação ao Oscar. “Nunca pensamos que ganharíamos algo com a trilha, porque ela não foi feita nos moldes tradicionais de Hollywood, com orquestras”, contou ele.


O filme narra a trajetória de um dos empresários do ramo de redes sociais mais rico do mundo, Mark Zuckerberg, durante o desenvolvimento do Facebook. Desconstruído, o som de cada uma das faixas da trilha sonora é impactante e consegue se inserir muito bem nas reações dos personagens ao longo do filme. O sintetizador é o elemento mais presente, usado para criar uma identidade sonora que inspira drama e intrigas. Bônus para o nome das faixas: cada uma delas sugere o foco imagético da cena, o que torna o trabalho da dupla ainda mais criativo.


Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011)


A colaboração com David Fincher não parou mais. Um ano depois, Reznor e Ross foram responsáveis pela trilha sonora de Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Ambientada na Suécia, a trama gira em torno do jornalista Mikael Blomkvist, contratado para investigar o desaparecimento de uma jovem. Como ajuda, ele se junta à hacker Lisbeth Salander.


Para traçar a narrativa misteriosa (com personagens igualmente intrigantes, como a hacker vivida por Rooney Mara), Reznor e Ross utilizam sons eletrônicos mais abstratos que remetem mais a um efeito sonoro do que a uma melodia. Um exemplo cabe na primeira faixa da trilha: Hidden in Snow, com uso de instrumentos como xilofone ao fundo.



A trilha é considerada uma das mais claustrofóbicas da história e foi muito elogiada pela crítica na época, trazendo uma versão cover de Immigrant Song, de Led Zeppelin, que também foi muito bem acolhida pelo público. Segundo Reznor, a ideia era justamente transmitir uma sensação desconfortável, “porque o enredo do filme muitas vezes faz a gente se sentir assim. O roteiro reúne muitas situações desconfortáveis”.


Garota Exemplar (2014)


Para retratar a conturbada e tóxica relação dos protagonistas Amy e Nick, Reznor e Ross foram escolhidos novamente por David Fincher. A experiência que já tinham com dois filmes com tramas recheadas de tensão lhes renderam composições que retratam bem a história da “garota exemplar” Amy Dunne. A ideia de um som belo - carregado de sintetizadores - na superfície mas que, com o tempo, demonstra requintes de maldade é o arremate final para compor a trilha sonora deste filme, com desenvolvimento surpreendente. Inclusive, esses pontos de virada no desenvolvimento também refletem no som trabalhado pela dupla, que antes seguia o roteiro mais misterioso e, depois, quando são revelados novos fatos ao telespectador, ganham uma liberdade maior. O trabalho foi indicado ao Globo de Ouro de 2015 na categoria “Melhor Trilha Sonora”, perdendo para Jóhann Jóhannsson com A Teoria de Tudo.


Seremos História? (2016)



O documentário é uma produção da National Geographic e narrado pelo ator e ativista ambiental Leonardo DiCaprio. Ao longo da história, DiCaprio faz entrevistas para encontrar soluções a problemas ambientais com figuras políticas e religiosas como Barack Obama, Ban Ki-moon, John Kerry, Papa Francisco e Elon Musk. A trilha sonora já começa logo nas primeiras imagens; uma das faixas compostas pela dupla, a Before the Flood, realça um som que remete a uma gota de água pingando. Além de Reznor e Ross, a trilha também foi composta pela banda Mogwai e pelo compositor Gustavo Santaolalla.


The Black Ghiandola (2017)


O curta-metragem é uma produção especial da Make a Film Foundation e os compositores foram convidados a trabalhar na trilha sonora dos 16 minutos de duração. Escrita por um jovem de 16 anos chamado Anthony Jonathan Conti, portador de câncer da cortical adrenal, é um terror que conta a história de um rapaz (interpretado pelo jovem escritor) que arrisca a vida para salvar a garota que ama após perder sua família durante um apocalipse zumbi. A Make a Film Foundation faz filmes para crianças que têm graves condições médicas, juntando-as com profissionais da indústria cinematográfica. Nomes de peso da indústria cinematográfica de Hollywood fazem parte desse curta, como Johnny Depp, J. K. Simmons, Laura Dern e David Lynch.


Bird Box (2018)



A ficção científica e suspense estrelada por Sandra Bullock pede um som que prenda o telespectador num estado de medo do desconhecido durante os 124 minutos de duração; especialmente porque, assim como a protagonista, não sabemos o que o cenário apocalíptico nos espera ao final. Conta a narrativa de uma mulher que, junto com um par de crianças, precisam atravessar vendados uma floresta e um rio para evitar que entidades sobrenaturais mostrem seus piores medos, os levando a se matar. Na época do lançamento, Reznor e Ross lançaram o álbum completo do filme no site oficial da banda Nine Inch Nails. O clima de horror facilmente é sentido; é um som carregado, especialmente com as faixas Outside e Undercurrents.


Waves (2019)


Numa época em que o movimento MeToo questionava a masculinidade tóxica e a construção da imagem masculina, o filme Waves foi necessário. A história é sobre uma família negra de classe média de Miami que passa por crises após uma tragédia, e que buscam se reconectar. A audiência do filme foi boa, mas gerou discussão por retratar a masculinidade tóxica e lutas negras na perspectiva do diretor Trey Edward Shults, um homem branco. Segundo o diretor, o tema racial serviu para amplificar a intensa exigência do pai para que seu filho tivesse sucesso, com citações do protagonista vivido por Sterling K. Brown como "não podemos nos dar ao luxo de ser medianos". E então, a trilha sonora de Reznor e Ross aparece como um complemento da imagem para demonstrar os sentimentos dos personagens e a reflexão das situações.


Soul (2020)


O enredo da mais nova animação da Pixar já tem como personagem central um professor de música que sonhava em ser um músico de jazz. Podemos subentender que a responsabilidade em fazer uma trilha sonora é uma das maiores no longa, não é? Pois Trent Reznor e Atticus Ross souberam entender a proposta do filme, porque a trilha sonora está concorrendo ao Oscar deste ano. O trabalho conta com 42 canções originais, sendo composições da dupla e também do pianista norte-americano Jon Batiste, que escreveu as canções de jazz. O pianista queria criar música jazz "autêntica", mas também "acessível a todas as idades". As críticas foram a maioria positivas para a trilha sonora de Soul, como do The Hollywood Reporter que chamou o filme de "pico da Pixar". Aqui no Brasil, o site especializado em cinema Omelete elogiou a trilha informando que a música “faz mergulhar na história. [...] Eles carregam o espectador por toda a trama e potencializam a força de cada descoberta e atrito”. Soul ganhou o Globo de Ouro deste ano na categoria Melhor Trilha Sonora e concorre ao Oscar.


Disponível no Disney+.


Mank (2020)



Nesse filme, a dupla precisou sair de sua zona de conforto porque o filme é retratado nos anos 1930 e 1940, Era de Ouro do Cinema. A história retrata a vida problemática do roteirista Herman J. Mankiewicz, que precisa construir o roteiro do filme Cidadão Kane. A produção é novamente uma parceria com o diretor amigo David Fincher. A trilha sonora já não é mais repleta de sintetizadores; aqui, a composição é com instrumentos da época para dar credibilidade ao período retratado. Além disso, o áudio é feito em mono para criar uma sensação de filme antigo. O som é em sua maioria clássico; algumas faixas são leves e super nostálgicas, como [If Only You Could] Save Me e M.G.M.; e outras mais “duras”, como The Dark Night of the Soul.


Disponível na Netflix.


Watchmen (2019)



Watchmen é uma minissérie do canal de televisão por assinatura HBO e estreou em 2019. Ela acompanha os eventos futuros depois dos acontecimentos da série em quadrinhos de 1987 da DC Comics. Um dos mais elogiados trabalhos da dupla, eles compuseram 3 volumes com forte componente eletrônico, originado do som de sua banda. Compor a trilha de Watchmen foi uma coincidência, porque o criador da série, Damon Lindelof sugeriu Reznor e Ross para a HBO, que informou que eles dois eram fãs da HQ e queriam trabalhar na série de Lindelof. E assim a parceria foi feita. Quem assistir Watchmen deve conferir um som carregado de clássicos instrumentais, jazz e blues.


Curiosidades


A banda Nine Inch Nails é repleta de sintetizadores distorcidos, intensos sons de guitarras, percussão mecânica e vocais poderosos de Trent Reznor. E sem dúvidas, o álbum The Downward Spiral é até hoje o álbum mais popular da discografia da banda. Uma curiosidade que chama bastante atenção da crítica e dos fãs sobre esse álbum é que, na época de sua gravação, Reznor alugou em 1992 a casa onde a atriz Sharon Tate foi assassinada pela seita do psicopata Charles Manson.


Fachada da mansão 10050 Cielo Drive, onde Tate foi assassinada. Foto: Reprodução/YouTube

Considerado então um álbum conceitual, Reznor quis inovar, apresentando diversos gêneros, desde o Rock Industrial e Eletrônica até o Pop. The Downward Spiral foi sucesso imediato; a atmosfera da casa influenciou nas composições… mas causou um peso na consciência de Reznor quando eventualmente ele conheceu a irmã de Tate. É que na época, ele deu o nome do estúdio de Le Pig, uma referência de Susan Atkins, uma das responsáveis pelo assassinato de Tate, que com o sangue da vítima, escreveu a palavra “pig” na porta da frente. Em entrevista à revista Rolling Stone, em 1997, Reznor explicou porque se arrependeu de ter feito isso.

“Enquanto eu trabalhava no Downward Spiral, eu estava morando na casa em que Sharon Tate foi assassinada. Aí um dia eu conheci a irmã dela. Foi uma coisa aleatória, só um encontro breve. E ela disse: ‘Você está explorando a morte da minha irmã ao morar na casa dela?’ Pela primeira vez a coisa meio que me deu esse tapa na cara. Eu disse, ‘Não, é só meio que meu interesse no folclore americano. Estou morando nesse lugar em que uma parte bizarra da história aconteceu.’ Eu acho que eu nunca tinha percebido antes, mas eu percebi ali. Ela perdeu sua irmã em uma situação insensível e ignorante que eu não quero apoiar. Quando ela falou comigo, eu percebi pela primeira vez, ‘E se fosse a minha irmã?’ Eu pensei, ‘Foda-se o Charlie Manson.’ Eu não quero ser visto como o cara que apoia essas merdas de serial killer. Eu fui à casa e chorei naquela noite. Me fez ver que existe um outro lado das coisas, sabe? Uma coisa é andar por aí com seu pinto balançando no vento, agindo como se não importasse. Mas quando você entende as repercussões que isso tem… isso me deixou sóbrio: perceber que o que balanceia esse apelo da ilegalidade e falta de moralidade e essa coisa toda é a outra ponta da corda, as vítimas que não merecem isso”.

Ansiosos para o Oscar 2021? É muito provável que a dupla ganhe uma estatueta neste ano, ou por Mank ou por Soul, porque demonstraram uma versatilidade artística muito grande e dois desafios que até então não haviam passado: composição para um filme de animação e para um filme de época. Agora é esperar pelo resultado e pelo próximo projeto dos compositores rockeiros queridinhos.


Estamos ouvindo!

LEIA TAMBÉM

SIGA-NOS NO INSTAGRAM!