• Bárbara Bigas

Análise: My Mister, solidão e a vida adulta


NÃO contém spoilers!

Nome: My Ahjussi* (나의 아저씨)

Ano: 2018

Roteiro: Park Hae Young

Direção: Kim Won Suk

Gênero: Drama


*Assista na Netflix!


Num mundo acelerado, de muita competitividade e busca incessante pelo prestígio, aqueles que não se sentem parte disso provavelmente já se conformaram com uma (possível) triste realidade: seu destino tem de ser a solidão ou uma coleção de frustrações ao longo do caminho.


É num cenário mais ou menos assim que a vida de Park Dong-Hoon vem se desenrolando. Dong-Hoon protagoniza uma história de alguns fracassos e de uma luta constante pela verdade e pela justiça. Essas características (e muitas outras) fazem de My Mister um drama essencial, capaz de explorar a vulnerabilidade da vida adulta de maneira excelente. Ele reúne em seus 16 episódios intensas lições sobre altruísmo e autoconhecimento. Segue o fio para entender melhor.



O ENREDO


Park Dong-Hoon é um homem casado, de seus 40 e poucos anos, engenheiro estrutural que trabalha como gerente de equipe numa empresa de engenharia e construção. Mesmo que sua carreira tenha um quê de sucesso e sua vida esteja aparentemente resolvida no amor e no quesito financeiro, ele é um homem morno, pouco alegre e extremamente fechado em seus pensamentos e sentimentos. Para piorar, sua família vem passando por maus bocados com os seus dois irmãos desempregados e sua mãe já aposentada.


Em dado momento, uma funcionária temporária de sua empresa, Lee Ji-An, cruza seu caminho ao ver que este foi envolvido num esquema de propina. Ji-An, que tem suas intermináveis dívidas com agiotas e dificuldades para pagar seu próprio jantar, vê essa situação como um modo de levar vantagem e conseguir dinheiro mais facilmente. O que ela não esperava era a virada do jogo que a conectou profundamente com Dong-Hoon e que possibilitou uma relação de afeto e apoio entre eles.



PERCEPÇÕES GERAIS


O protagonista Dong-Hoon é o típico bom moço, que resolve (quase) tudo na bondade e na calma. A primeira coisa que deve ser exposta nesse texto sobre ele é o seu caráter, responsável pelo rumo de grande parte dos acontecimentos. Ele é uma pessoa cheia de princípios e qualidades admiráveis que fazem dele um personagem muito amável. No entanto, muitas são as vezes que vemos Dong-Hoon sendo influenciado a mudar suas convicções pela ação nem sempre simpática ou conveniente dos outros.


Lee Sun-Kyun, conhecido principalmente por atuar em 'Parasita', vencedor do Oscar 2019, dá vida a Park Dong-Hoon

Para combater isso, podemos notar sua busca pelo desenvolvimento de uma postura mais resiliente e firme. Porém, o seu comportamento convicto não funciona muito bem na prática, já que sua coragem é completamente desgastada. Suas reações e atitudes na maioria das vezes são passivas, contribuindo para que aconteça no drama um amontoado de tragédias que, apesar de ficarem piores a cada episódio, dão espaço para introduzir novos personagens e histórias.


O enredo então se ramifica perfeitamente, descentralizando dos protagonistas todo o drama e desenvolvendo empatia pelas múltiplas situações apresentadas, tanto para quem assiste, quanto para quem vive aquela ficção, e assim Dong-Hoon vai aos poucos refletindo sobre sua condição e entendendo como agir.

A outra protagonista, Lee Ji-An, marcada por seus traumas e segredos, apresenta uma construção fascinante. Seus problemas financeiros e familiares parecem defini-la, a ponto de ela ser odiável num episódio ou outro. Mas, à medida que seu caminho vai se cruzando com o de Dong-Hoon, floresce uma personagem totalmente sensível e altruísta. Não, não estou dizendo que por causa de um homem que cruzou seu caminho ela se tornou uma nova mulher, e sim que esse encontro fez com que ela pudesse enxergar que existem pessoas boas como ela, mesmo que estejam escondidas atrás de seus erros.

A cantora IU, super versátil e talentosa, leva às telas a história sofrida de Lee Ji-An


OS PRINCIPAIS ENSINAMENTOS DO DRAMA


Uma coisa interessante sobre essa relação é que Ji-an e Dong-Hoon não são opostos se atraindo para se completarem, e sim, duas pessoas se identificando entre si na busca por suas sobrevivências. Mesmo encarando as situações de modos muito distintos, no fundo ambos esperam ver sua resistência a realidades tão difíceis sendo abastecida dia após dia, até que eles encontrem uma paz. E claro, nada melhor do que encontrar essa paz apoiando um ao outro.


Só não ache que... será uma relação fácil. Eles também têm seus próprios desentendimentos e divergências, e o drama vai abordar isso com maturidade e fidelidade às personalidades, dores e fragilidades de cada personagem.


Enquanto vemos Dong-Hoon e Ji-An resistindo a esse caos com tudo de si e com a força compartilhada entre eles, somos introduzidos aos problemas dos demais personagens, estes que vão de icônicos e divertidos até péssimos miseráveis, com destinos praticamente opostos.


Nesse sentido, o drama abre portas para percebermos que, não importa o modo como você leva a sua vida ou quem você seja, tudo que você um dia almejou e construiu pode simplesmente ruir ou perder o sentido: os relacionamentos, o emprego, as realizações pessoais. E na única opção que lhes resta - de encararem seus destinos - os personagens do drama vivem como parece ser mais conveniente, seja bebendo todas as noites e se divertindo sem ocasião específica ou passando por cima de outros para garantir suas conquistas. E é aí que está a parte humana do enredo, ao escancarar as fraquezas e os medos de cada um. A história mostra numa demorada relação de causa e efeito como e porque cada personagem vai amadurecer até o final, e isso é claro: todos eles o fazem, por bem ou por mal.


Eles também são a prova de que adultos se sentem, da forma mais doentia possível, na responsabilidade de viver a vida de maneira intensa (e às vezes até sufocante) e talvez por isso você precise de uma boa xícara de chá para guiar seu momento de reflexão depois de assisti-lo. São situações extremamente reais que mostram a sutileza da solidão e que te fazem enxergar o erro que lutar incansavelmente por uma vida perfeita pode ser.

AVALIAÇÃO FINAL


O drama deixa algumas pontas soltas, como por exemplo a história de Gwang-il, que tem importância e muito potencial, mas não se desenvolve completamente. No entanto, isso não invalida a qualidade da história, pois essa continua te prendendo do início ao fim e sendo extremamente relevante por todos os motivos citados anteriormente.


Além disso, é impossível não se encantar com a química e o envolvimento real entre os atores principais e o modo como incorporaram perfeitamente em seus gestos e falas as personalidades designadas aos seus papéis. Também as atuações de Oh Na-ra (Jeong-Hui), Jang Ki-Yong (Gwang-il) e Song Sae-Byeok (Park Gi-Hoon) merecem destaque pela intensidade e qualidade.


E para finalizar, devo esclarecer que esse não é um drama de romance proibido entre uma garota de 20 anos e um homem na casa dos 40, apesar de parecer isso. Na verdade, ele apresenta um recorte específico das infinitas possibilidades que uma relação à dois pode ter e mostra também as suas profundezas, sem anular as individualidades e problemas dos seres humanos que fazem parte dela.


Nesse contato, ambos estão curiosos para se entenderem, descobrirem um ao outro. Não sei vocês, mas esse tipo de interesse me fascina, e num cenário intimista e doloroso como o de My Mister, isso com certeza será uma fonte de esperança para os dois e para todos aqueles que os rodeiam, incluindo nós, seus espectadores.


Nota: 4/5


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