• Bárbara Bigas

Análise faixa a faixa: Healer, de Grouplove

Atualizado: Out 8

Healer (do inglês, "curador"), lançado na última sexta-feira, 13, é um disco um tanto quanto curioso. No auge de preocupantes acontecimentos, doenças desesperadoras, economia frágil, cotidianos se tornando cada dia mais estacionados, a banda Grouplove traz ao mundo uma verdadeira fonte de cura através das 11 faixas que o compõem.


O nome do disco não veio à toa: ele faz menção a um acontecimento conturbado na vida da vocalista Hannah Hooper, que precisou operar seu cérebro. Nesse período, a banda diminuiu suas atividades, mas isso não significou o abandono da música. Hooper, em entrevista a Galore declarou que “Saber que eu tinha que fazer uma cirurgia no cérebro tornava a música ainda mais catártica. Eu usei isso para escapar da minha realidade e acho que isso também me deu a capacidade de curar.”


A persistência da banda mesmo em meio a essa dificuldade provou todo o brilhantismo da personalidade do Grouplove e a valorização de sua própria arte.



Grouplove durante as gravações do clipe de Deleter

A preparação para o recebimento de Healer começou com o lançamento da faixa Deleter, junto de seu clipe. É uma faixa rebelde, ruidosa. No clipe vemos os integrantes dançando com todo vigor, regidos pela viva sonoridade da música e um conjunto de luzes instáveis que os circundam num cenário branco, vazio.



A letra pode ser interpretada como uma crítica à hipocrisia e ao favoritismo que a sociedade naturalmente tem com aqueles que sempre mostram ter mais e melhor.


Sim, sua lavagem de carros e seus aviões

E as estradas, estamos aqui há muito tempo

Por muito tempo

Estou ansioso ou apenas martirizado?

Toda essa escuridão está acontecendo há muito tempo


Vemos isso em nossas relações, no ambiente de trabalho, de estudos e principalmente na internet, ao escolhermos "inspirações"que não exercem de fato uma boa influência sobre seus seguidores:


Todo esse tempo eu achava que você era um líder

Acontece que você é apenas um deletador


E ao longo das verdades que a letra joga em nossa cara, o cenário branco vai dando lugar a um colorido, pintado pela própria banda, se expandindo também para os seus corpos, dando as boas-vindas à mensagem principal da música: a de ser seu próprio curador.


Todo esse tempo estamos queimando com a febre

Acontece que eu sempre fui um curador


Inside Out é nada mais, nada menos do que um relato simples porém sincero de como o ser humano lida com sua individualidade. Para falar de um assunto sério e tão importante, a sonoridade da música traz uma atmosfera nova em relação à música anterior, com os instrumentos fazendo o mais leve dos acompanhamentos e a melodia tomando centro com o som do teclado de Hooper.


Sim, acho que sei o que sempre deixei de ver

Que nada neste mundo chega até você de graça

Mas como você vai contar todos os seus uns e dois?

Porque todos nós precisamos de algo para fazer


Seguimos com Expectations, uma faixa com roupagem mais despojada e que carrega junto com Youth a atmosfera synth do álbum. Fugindo um pouco de olhar para si mesmo, Expectations fala de vidas, pessoas ou momentos que são adequados, perfeitamente encaixados num status quo. No entanto ela também fala sobre quebrar as expectativas, sobre como muitas vezes isso é tudo queremos ou precisamos fazer:


Você tem movimentos, você tem estilo

Você tem tempo, você tem muitas expectativas

(…)

Toda vez que eu cair, você não vai me deixar entrar

Você só quer uma estrela

Algo está sempre errado, você não vai fazer isso direito

Vamos apenas ceder


The Great Unknown carrega um potencial imenso. Seu instrumental mais genérico não ofusca o poder que sua mensagem tem: ela fala sobre simplicidade, sobre como coisas rotineiras são incríveis, mas infelizmente não são vistas e muitas vezes são até ignoradas por nós. “O grande desconhecido” representa justamente isso: é o que temos quando não estamos desejando o inalcançável.


Abençoe o fazendeiro plantando suas sementes

Afaste a hera venenosa

Eu cavo o dia todo para fazer uma clareira

O problema desaparece, as nuvens estão desaparecendo

Estou tão alerta, o único lado da terra

Mais um dia de trabalho honesto


Youth, já citada anteriormente, tem ritmo dançante e o espírito de uma melodia synth que nós amamos: ela descreve as confraternizações da juventude trazendo um sentimento de identificação àqueles que a vivem e deixando saudade àqueles que já a ultrapassaram.


Você é tão sério, sempre na sua cabeça, apenas fazendo planos

Eu estou em uma pista, você está em um avião que nunca pousa

(...)

A noite é tão jovem, vamos atear fogo



Places é acompanhada apenas de uma melodia simpática no violão e no final, a entrada das cordas aproxima sentimentalmente os ouvintes da faixa, cuja letra fala sobre os lugares para onde queremos ir, sobre o que queremos para a nossa vida, por mais confusa que essas decisões sejam.


Há um lugar de onde todos nós estamos fugindo

Mas não sabemos como chegar lá


Promises é o momento militante do disco. A música traz um recado de forte cunho político, falando sobre promessas não-cumpridas e atitudes retrógradas, ilustrando a crítica com a menção ao Uncle Sam, um símbolo do governo estadunidense criado no século 20.


Ninguém cumpriu suas promessas

É melhor alguém cumprir suas promessas


Ahead of Myself é quando os vocais de Hannah brilham, revelando um sentimento de desistência que todos nós temos em algum momento da vida. Lidamos com ele fazendo muitas perguntas, deixando as dúvidas entrarem. As respostas parecem não aparecer e então, permitimos que uma falsa liberdade guie nossas atitudes:


Devo reconsiderar todos os efeitos colaterais antes de me antecipar a mim mesmo?

Eu sei que meu fígado deve estar com raiva de mim porque apenas negligencio minha saúde, negligencio minha saúde


Hail to the Queen tem uma guitarra acelerada e frenética que marca essa música de bastante agitação, gratidão e esperança: seu eu lírico se apresenta completamente confiante em realizar diversas coisas por algo (ou alguém) e busca levar o sentimento a outras pessoas:


Não acredito na minha sorte

Eu tenho outra chance

Eu vou saudar a rainha dos corações

(…)

Juntos, podemos navegar sob a lua

Não precisa ficar estressado ou ficar de fora, estamos com você

É sempre melhor juntos, estamos com você


Burial é uma canção sobre livramento. Seu instrumental é sujo, contrastando em alguns momentos com partes mais calmas, de uma expressão mais lenta e arrastada, porém clamorosa. A letra é como um desabafo sobre algo deixado para trás mesmo depois de muito esforço e resistência.


Enterro

Estou quebrado, mas você não pode me quebrar

Enterro

Oh, eles me colocaram no chão com as folhas mortas, sim


O fim veio com This is Everything e ele não poderia ser mais simbólico. O título sugestivo de final se encaixa perfeitamente com o tom tranquilo que se tranquiliza completamente depois de 10 canções com os mais diversos ritmos. O recado de superar expectativas talvez se refira ao próprio processo de criação do Healer, que mesmo com as limitações de Hannah e a dúvida sobre como continuar produzindo, tudo acabou fluindo:


Oh, isso é ainda mais do que eu pedi

Isso é ainda mais do que eu planejava

Isso é ainda mais do que eu precisava


Edição: Letícia Lucena

O ponto-chave desse álbum foi, sem dúvidas, o caráter humano e sensível que suas músicas deixaram no mundo. Elas estão ali para que, a qualquer momento, tenhamos a certeza do que precisamos procurar para vencermos a nós mesmos, nossos medos e falhas. Mais uma vez, Grouplove se destaca no cenário alternativo com suas composições divinamente singulares e cura o coração de muitos por aí. <3


Favoritas: Burial e The Great Unknown


Nota: 90/100



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