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Análise: "Navillera" e a beleza da perseverança em nossos sonhos


Em Navillera*, encontramos uma história de força, resistência e amizade, que não se apoia nos discursos vazios sobre acreditar e seguir os próprios sonhos.

*Não contém spoilers!


Durante a jornada da vida, encontramos becos e curvas sinuosas que nos levam a outro caminho, nos dispersando do destino final. Isso não é algo ruim, uma vez que essas desavenças podem tornar nossa jornada ainda mais brilhante. Entretanto, no âmago, sempre estaremos flertando com o nosso maior objetivo, almejando encontrá-lo alguma vez na vida, de preferência o mais rápido possível.


Hoje gostaríamos de conversar sobre aquele sonho guardado no fundo do coração. Aquele que abdicamos esperando o “momento perfeito” ou que deixamos de lado por ser vergonhoso. “É tão tarde, não faria mais sentido”, "Não consigo fazer isso acontecer", pensamos.


É essa reflexão que o drama sul-coreano Navillera nos traz, discursando com realismo a importância de respeitar o desejo latente que plana no coração dos sonhadores, sem negar a realidade em que está inserido.


Neste enredo, acompanhamos a história do Sr. Sim Deok-Chul, um senhor que acabou de completar 70 anos e que tem o grande sonho de dançar ballet. Desde criança, após assistir um bailarino dançando o Lago dos Cisnes através da espreita da porta de um teatro, almeja em algum momento da sua vida dançar o famoso ballet de Tchaikovsky. O sonho de Sr. Sim permanece escondido durante grande parte da vida, mas desperta quando vê o jovem Lee Chae-rok ensaiando no estúdio de seu professor, uma vez que precisa treinar para um grande concurso de ballet que está chegando.


Song Kang como Lee Chae-Rok

Em uma sociedade que aprecia o amor das pessoas enquanto as julga por querer vivê-los, Navillera acredita nos sonhos sem atropelar a própria realidade.


É muito prático falar para alguém acreditar nos sonhos se nada for feito em relação a eles. Ao apenas acreditar, estaremos apenas alimentando um forte sentimento ou desejo. No entanto, se juntarmos vontades com ações, sejam elas pequenas ou grandes, tudo será diferente.


Sr. Sim tinha todas as razões para adiar a vontade de dançar ballet. A idade não “permitia”, a limitação física era evidente, a família não aprovava, entre outros. A partir do momento que as pessoas que amamos não acreditam em nosso sonho conosco, as forças que criamos internamente para correr atrás daquilo são abaladas fortemente. A resistência da família do Sr. Sim ao praticar ballet abalou seu sonho, mas esse não foi o fim.


Afinal, temos o hábito de associar a terceira idade a uma fase de extrema dependência e até fraqueza, cortando pela raiz qualquer oportunidade de desenvolver novas habilidades simplesmente por decretar que a vida está chegando ao fim. Isso é totalmente irônico, pois se estamos no fim da linha, devemos aproveitar o máximo que pudermos. Nessa lógica a sociedade, e por consequência, as famílias, constroem de forma injusta o destino dessas pessoas, não lhes permitindo ter suas próprias vontades. É o que o webtoon Like a Butterfly, que deu origem ao drama nos ensina, logo em suas primeiras páginas:


“Acostumar-se com a velhice significa aprender a aceitar tudo”.

Mesmo com todos esses problemas em curso, Sr. Sim sabia que apenas ele mesmo poderia realizá-lo, independentemente do que pensassem ou falassem, porque no final do dia alguém sempre terá alguma visão sobre o assunto. Nosso dever é não tomá-las como o único ponto de vista válido e seguir com a nossa vida. Cada um tem a sua jornada e devemos respeitar o caminho que o destino nos reserva.



O dorama também disseca outro parêntese importante sobre as convenções sociais que nos cercam diariamente, em específico aquela involuntária ânsia em cumprir com normas impostas pela sociedade, sem antes consultar a nós mesmos, nossas vontades e individualidades.


A jovem personagem Eun-Ho, neta do Sr. Sim, seguiu com todo o “cronograma”: entrou na faculdade assim que se formou no ensino médio e batalhou para conseguir um estágio para atuar em uma grande empresa, impossibilitando que a mesma parasse para encontrar um tempo para si e se perguntar: “É isso mesmo o que quero?”. O modo automático tende a entrar sorrateiramente dentro da nossa rotina, nos deixando cegos para enxergar o que está batendo à nossa porta, incluindo aquilo que é o melhor para nós.


Eun-Ho decide tomar as rédeas da própria vida ao se deparar com dilemas e situações que fogem dos seus planos, mesmo que tenha seguido com o script desde o começo. Tentar cumprir com as normas daquilo que a sociedade acredita ser o “sucesso” só provou para Eun-Ho como a única pessoa que ela precisa agradar é a ela mesma. E se a dúvida sobre qual será o seu caminho da vida pairar sobre a mente, não tem problema. Cada história é única e inspiradora pelo simples fato de ser diferente. Além de Eun-ho, um personagem relevante é Ho-beom, ex-amigo de escola de Chae-rok, que desistiu do sonho da sua vida após uma situação delicada que o desencorajou completamente. Dessa forma, Navillera nos mostra diferentes pontos de vista sobre como é essa busca pela felicidade, contemplando inclusive suas partes mais amargas e controversas.


Além disso, podemos refletir que talvez, no momento, o capítulo da nossa história não seja viver nossos sonhos, e sim, nos prepararmos para vivê-los no futuro. Exemplo disso é o próprio Chae-rok, que em determinado momento viveu uma situação que o fez pausar a própria preparação que levava para o concurso. O momento em que o bailarino parou acabou lhe dando uma nova perspectiva sobre seu amor pelo ballet através da visão do Sr. Sim. O senhor lhe dá uma perspectiva genuína e pura sobre a dança que tanto ama praticar, fazendo-o entender que por maior que seja o seu desejo, ele precisa ser forte para alcançá-lo e aproveitar as recompensas que vem junto disso. O antigo pensamento ganancioso que dizia que ganhar a competição era mais importante fazia com que Chae-rok não experienciasse a caminhada e não refletisse sobre a própria trajetória. Estar no começo do caminho também é estar no caminho, do mesmo jeito que pequenos atos precisam acontecer para grandes atos existirem.


Navillera serve também uma perspectiva muito completa da amizade e do companheirismo. Apesar do Sr. Sim ser a pessoa mais velha da história, ele não se sente mais inteligente ou sábio que os outros personagens. Para ele, todos estão em idade para aprender e ensinar alguma coisa, e é dessa forma que ele consegue aproximar-se de Chae-rok e evoluir tanto no ballet, e claro, não criar pontes intransponíveis no relacionamento dos dois apenas pela diferença de idade e do modo de vida. Sr. Sim se dispõe a “nascer de novo” no ballet, entendendo suas limitações e sua ignorância inicial em relação ao assunto.


A sensibilidade do ator Song Kang como Chae-rok provou que ele não é apenas um rostinho bonito na indústria, entregando um personagem com coragem e orgulho em seguir os próprios sonhos. Kang precisou ter aulas de ballet para o atuar como Chae-rok, o que mostra o nível de profissionalismo e comprometimento do ator com o personagem e com a obra em sua totalidade.


A vida que Park In-hwan traz para Deok-Chul representa toda a simpatia e carisma do dorama. Com sua atuação e domínio de expressões faciais e os movimentos corporais que o ballet exigia, nunca duvidamos da verdade existente no desejo do personagem pela dança.


Entre tantos ensinamentos, o mais importante é que o conceito de tempo é irrelevante quando se trata daquilo que queremos fazer. Nunca é tarde. Não foi tarde para Sr. Sim dançar Lago dos Cisnes, como também não foi tarde para Chae-rok começar no ballet e não foi tarde para Ho-beom e Eun-ho encontrarem os rumos de suas vidas. Adversidades, dificuldades, pensamentos negativos, sempre irão existir quando se trata dos nossos sonhos. Temos o péssimo hábito de acreditar piamente nos sonhos alheios, mas negligenciar e esconder os nossos, quando deveria ser totalmente diferente. Só temos essa vida para vivermos o que o mundo tem a oferecer a nós.


Ao contrário do que possa parecer, essa não é mais uma história clichê com uma lição de moral para perseguirmos nossos sonhos. É, na realidade, um singelo relato de coragem e da transformação que somos capazes de promover em nossa própria vida e na vida alheia quando acreditamos naquilo que existe dentro de nós.



NOTA: 10/10

FICHA TÉCNICA


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