• Letícia Lucena

Em “Blue Weekend”, Wolf Alice se encontra em uma deslumbrante jornada de auto conhecimento

Atualizado: Jul 3

Ao se mostrar mais vulnerável que nunca em seu terceiro álbum, a banda vencedora do Mercury Prize adiciona seu melhor trabalho à uma discografia praticamente impecável.

Para seu terceiro álbum, os londrinos do Wolf Alice tinham um grande desafio pela frente: conseguir manter o nível de seus dois lançamentos anteriores, principalmente do mais recente até então, o álbum vencedor do Mercury Prize de 2018, e que rendeu à banda um Top 2 nos charts britânicos “Visions of a Life”. Anunciado pela banda no programa de rádio Future Sounds with Annie Mac no fim de fevereiro, “Blue Weekend”, primeiro lançamento do grupo em quase quatro anos, não só mantém o nível dos lançamentos anteriores como também o supera de várias formas.


Neste novo projeto, que alcançou a posição número 1 em vendas no Reino Unido logo em sua primeira semana, o quarteto composto por Ellie Rowsell (vocais e guitarra), Theo Ellis (vocais e baixo), Joff Oddie (vocais e guitarra) e Joel Army (vocais e bateria) aposta em demonstrar diversos sentimentos conflitantes, da estranheza ao coração partido, da raiva à superação e a melancolia, combinados com uma incrível mistura de sons e ritmos que dão ainda mais consistência à ambientação que o disco busca estabelecer.

© Jordan Hemingway

Um fator determinante na construção deste trabalho que ajudou a transmitir a intensidade da composição do grupo foi a escolha de fazer o “Blue Weekend” um álbum visual, onde a explosão de cores saturadas em tela, uso de sombras e direção de filmagem trazendo closes próximos dos personagens ajudam a complementar a individualidade de cada um dos capítulos, onde cada um é representado por uma faixa do disco.


O primeiro gosto para o público do novo passo na carreira do Wolf Alice foi a faixa “Last Man on Earth”, escolhida como lead single do álbum, é uma graciosa balada ao piano com um que de rock clássico, onde é possível notar uma certa semelhança com algumas canções dos Beatles, posteriormente “No Hard Feelings” e “Smile” foram adicionadas à lista de singles do álbum, dando um pequeno gosto da capacidade da banda de transitar por diversos gêneros, oferecendo traços de shoegaze e indie rock.


Uma coisa é certa: nada que a banda lançou precisamente poderia ter nos preparando para a montanha russa de emoções que é Blue Weekend, onde acompanhamos Ellie em uma jornada de uma única noite pelas ruas da capital inglesa em busca de auto realização. “The Beach” é a faixa escolhida para dar início à história, trazendo delicadeza e acordes minimalistas, dando passagem para o próximo capítulo ter seu destaque: “Delicious Things” é sem dúvida não só uma das melhores faixas do álbum, como também de toda a discografia do Wolf Alice, uma canção sobre questionamentos, inseguranças e querer estar em um lugar distante. A atmosfera sonhadora da faixa enaltece através do subconsciente da protagonista o glamour da cidade dos anjos, citando ícones do local como Hollywood Hills, Marilyn Monroe, e o estilo de vida convidativo em uma tentativa de escape de sua atual situação, e este tema em específico se mantém em outros partes do álbum visual, como também é possível observar no capítulo seguinte, “Lipstick on the Glass”.



Em "Safe From Heartbreak (if you never fall in love)", a banda opta por desacelerar ainda mais o ritmo, trazendo uma faixa acústica de arranjos simples e aura intimista, dando espaço para sua composição ganhar destaque. Se mostrando extremamente melancólica e vulnerável, o quinto capítulo da narrativa retrata a amargura de um termino recente, e o processo de negação que a personagem se coloca ao refletir a situação. Para quem já está familiarizado com a discografia do Wolf Alice, uma faixa para gritar a plenos pulmões não é apenas esperada como também desejada. Em total contraste com os capítulos anteriores, “Play the Greatest Hits” lida com a situação de forma furiosa, e é incrível ver como a banda consegue transitar através de diversos gêneros ao trazer de volta a agressividade que ouvimos em “Yuk Foo”, lead single do álbum anterior, com seus refrãos gritados e distorções, e que mesmo que seja totalmente distinta do restante do álbum, a faixa consegue se estabelecer de forma coesa.


© Jordan Hemingway para NME

O ponto de virada da narrativa se inicia em “Feeling Myself”, onde a personagem aos poucos começa a se desprender do passado e dá os primeiros passos para seguir em frente, que são mais explorados nas faixas seguintes, os singles “The Last Man on Earth” e “No Hard Feelings”. Sonoramente falando, “Feeling Myself” é uma das faixas mais interessantes de todo o disco. Traz elementos que flertam com shoegaze como sintetizadores exagerados, sem deixar a sensibilidade de lado. O ciclo se encerra em “The Beach II”, representando o fim da jornada de autodescoberta da personagem, anunciando o nascer do sol e um novo ciclo sem ressentimentos do passado.


Ao fim, “Blue Weekend” é uma reflexão sobre todos os tipos de relacionamento: os de romance, de amizades de longa data e com quem acabamos de conhecer, com pessoas que não gostamos mas somos obrigados a conviver, com quem gostaríamos de ser, e por último, mas não menos importante, com quem somos. Ao se mostrar mais vulnerável que nunca em seu terceiro álbum, o Wolf Alice adiciona seu melhor trabalho à uma discografia praticamente impecável.

NOTA: 10/10

Acesse ao álbum “Blue Weekend” na íntegra abaixo:




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