• Anna Clara Fonseca

Brasil Hallyu Expo 2019 e a ascensão da cultura coreana

Atualizado: 10 de Set de 2019

Por Bárbara Bigas e Anna Clara Fonseca


Não é novidade para ninguém citar que a cultura asiática já faz parte do cotidiano dos brasileiros há bastante tempo. Animes, como Naruto e Dragon Ball Z, eram parte da programação de diversos canais abertos, fazendo com que a infância de diversas gerações fosse marcada fortemente pela apreciação dessas animações de origem japonesa.


Entretanto, esse não é o único exemplo. Atualmente, novos caminhos vêm sendo abertos e uma nova cultura começa a ascender fortemente. Diversas pessoas, de todos os tipos, características e gostos vêm se interessando e consumindo cada vez uma cultura rica e extremamente diversificada: estamos falando da cultura coreana, conhecida popularmente como hallyu.


Essa cultura, que tem em sua formação principalmente a música, o k-pop, principal motor da disseminação desse universo para pessoas de todas as idades, apresenta pontos fortíssimos como a culinária, que fornece a nossos paladares experiências incríveis com os tradicionais pratos que a compõem, como o bibimbap (비빔밥) jjajangmyeon (짜장면) e kimchi (김치). Também somos presenteados com a presença das artes marciais coreanas, o taekwondo (태권도) e o hapkido (합기도), com as suas tradições religiosas, sua admirável história e o idioma, que já vem sendo conhecido e identificado facilmente no cotidiano das pessoas.


É muito visível o quanto a presença dessa diversidade agrega culturalmente a nós e o quanto deve ser explorado. Pensando em difundir e abrir mais portas para esse novo cenário tão precioso e fabuloso, um evento especial chamado Brasil Hallyu Expo foi criado para ser este espaço onde qualquer pessoa pode conhecer e adentrar os costumes e a essência da cultura coreana.


O grupo sul-coreano NewKidd animando o público no sábado (06/07)

Este evento acontece anualmente na cidade de São Paulo e é organizado pelo Centro Cultural Coreano no Brasil, que se define como “uma organização cultural oficial do governo coreano no Brasil, de apoio ao intercâmbio cultural entre Brasil e Coreia.”.


A programação conta com apresentações de k-pop, jogos, brincadeiras, exposições de k-beauty (rotina de beleza usada pelas coreanas) e o melhor de tudo com certeza é a sua acessibilidade. Com entrada gratuita, ele se torna ainda mais atrativo, sendo evidente o quanto o público cresce a cada ano.



E nós, da Sidetrack Magazine, tivemos o privilégio de participar da edição de 2019 no dia 6 de julho, cujo ponto forte foi a apresentação do grupo de k-pop NewKidd, que debutou em 25 de abril de 2019, pela J-FLO Entertainment, abrilhantando esse dia de evento com seu show, na parte da tarde, e o fansign (comumente conhecido como sessão de autógrafos) + high touch (momento de contato entre fãs e ídolos) na parte da noite. No show ouvimos suas próprias músicas, como Left Hand e Shooting Star, que surpreenderam até os que não conheciam o grupo e covers magníficos, responsáveis por agitar fortemente o público, como o de Blood Sweat and Tears, Fire e DNA, do BTS e também Boomerang do Wanna One.


Uma circunstância interessante e quase universal é como o K-pop aprimora seus fãs a seguir seus sonhos, manter perspectivas no topo e fazer aquilo que te dá prazer. Esse foi um dos assuntos que conversamos com o rapper, cantor e compositor Kelwin Yu, o modelo, compositor e também cantor Shi Bessat e o produtor musical Jhow Jonas enquanto o evento acontecia. Vem conferir:


Eles fazem parte de um grupo de B-pop, porém não podem anunciar o nome ainda.


Shi bessat: Vocês conhecem o Vibe? Esse foi o primeiro grupo de b-pop do Brasil. A gente foi pra Coreia, gravou reality show na Coreia e também atuamos bastante aqui no Brasil. Fizemos turnê, voltamos, mas quando o grupo se separou por causa de questões da agência, que era coreana e nós brasileiros. Ai eu conheci o Kelwin quando ele era trainee ainda, fizemos amizade e depois conhecemos o Jonas que era do grupo b-boys. Quando o Jams acabou (deu disband), o Yago foi pro youtube. Eu comecei a fazer faculdade... Mas quando voltei, tive um maior contato com o Kelwin (ele tinha deixado a empresa anterior). Estava investindo na carreira solo, lançando singles, viajando muito pra China (risos) e nos encontramos novamente. O Jonas estava lançando um som também e decidimos fazer algo juntos.


Kelwin: Foi daí que a gente juntou mais membros e fomos para uma produtora, onde trabalhamos bastante o grupo. No momento estamos trabalhando bastante no nosso lançamento (debut) e tudo mais.


SDTK: Já tem data para esse lançamento?


Kelwin: A data não foi definida ainda.


SDTK: Agora digam pra gente: Vocês têm alguma mensagem para aqueles que não gostam ou não conhecem a música asiática? Já que rola todo um preconceito...


Kelwin: Olha, eu entendo. Isso é como todo gosto musical. Por exemplo: tem muita gente aqui no Brasil que gosta de sertanejo, mas não de funk. Acontece o mesmo com a música asiática em si. Tem músicas que são da cultura mesmo (chinesa, japonesa, coreana) e tem o que é mais diversificado: o pop, onde os artistas incrementam suas personalidades, como, por exemplo, no k-pop, onde eles também adicionam diversos estilos. Então não dá pra dizer simplesmente que não gosta da música asiática, porque na verdade, ela é um conjunto. Tem muita música asiática que é bastante parecida com Anitta. É uma coisa que se você não gosta de certo estilo que existe dentro da música asiática, aí tudo bem.


Shi bessat: Só complementando o que ele falou, acho que essas pessoas que dizem que não gostam muitas vezes não pararam pra ouvir. Quando elas param pra ouvir, é um caminho sem volta!


SDTK: Eu acho que a pessoa não ouviu a música certa, tem música pra todo mundo!


Shi bessat: Exatamente. Vemos isso no fenômeno que o BTS se tornou hoje em dia, que é muito diferente do que o PSY foi, porque o PSY estourou como viral. Já o BTS foi como uma febre. Você consegue ver a diferença: a galera via muito Gangnam Style, já com o BTS dizem “quem são esses caras?”. A galera tá abrindo mais a mente pra saber quem eles são e tal.


SDTK: O que vocês estão achando da recepção do Brasil à cultura asiática?


Shi bessat: Como eu disse na resposta anterior, o BTS abriu muitas portas pra isso. Antes a gente só via anime, o k-pop vinha um pouco ali, um pouco aqui, por exemplo, quando o Jams lançou (o grupo que eu fazia parte). Quando viemos pro Brasil, as pessoas se assustaram: “quem são esses meninos com jeito de coreano?”, mas se fosse agora, teria dado muito mais certo, na época o k-pop não era tão conhecido. A recepção que o Brasil tá tendo agora com a Coreia, especificamente, é muito legal e abre muitas portas tanto de lá para cá como daqui para lá: pra quem quer fazer intercâmbio, estudar, pra quem quer fazer música... Tem muito do Brasil indo pra lá e a gente vem abraçando muito essa cultura por aqui. Para os jovens, hoje em dia, é muito bom. Eu acho que a cultura asiática sendo abraçada pelo Brasil do jeito que tá, tem tirado muitos jovens de coisas erradas, da bebida, das drogas... A galera prefere ficar em casa aprendendo coreografia a sair pra zoeira! (risos)


SDTK: Muitos fãs de K-pop alegam ter suas vidas mudadas, até mesmo salvas após ter conhecido essa nova cultura. Vocês sentem essa mudança na vida de vocês também?


Jonas: Sim! Eu sou produtor musical e na minha vida o que influenciou bastante foi à qualidade da música. Eu cresci muito profissionalmente ouvindo o k-pop. Eu não sou do tipo que ouve a música em coreano e procura a tradução, mas eu faço hoje versões de k-pop e percebo que as letras são tocantes. Elas procuram ajudar de alguma forma. Na minha vida, acrescentou muito e tenho certeza que na vida de outras pessoas também.


Kelwin: Na minha vida também mudou bastante. Muita gente não deve conhecer o início do BTS, por exemplo, que a gente viveu mais. Como eu sou rapper, escrevo minhas próprias letras, eu tenho a mania de ler, ver a tradução, saber o que eles escrevem e como eles escrevem... Então, o BTS, desde a época de “No More Dream” me tocou bastante e eles me fizeram acreditar que eu, uma pessoa comum, consigo fazer o que eles estão fazendo. Eu não vou ser como eles, mas eu posso fazer meu sonho acontecer. O k-pop, principalmente o BTS, influenciou muito na minha carreira.


Shi bessat: O k-pop também abraçou muita gente que se sentia sozinha. Essa galera que estava meio perdida, isso é muito gratificante, pois estamos vivendo uma geração onde a galera tá muito “deprê”. O k-pop tira um pouco isso, ele traz um pouco de paz pra galera que ouve, dança, até porque você ocupa sua mente com as letras, coreografias, reacts, acompanhando seu ídolo. O k-pop faz isso quase como o One Direction na época que estourou (momento nostalgia na hora da conversa). Fui a dois shows do One Direction e me lembrou de muito. Eles também com suas letras, ajudavam muito quem tava deprê. O k-pop também faz isso.

Shi bessat (@shibessat), Jhow Jonas (@jhowjhonasoficial) e Kelwin (@kelwinyu).

Também tivemos o privilegio de conversar com um dos maiores influencers no youtube sobre cultura coreana do Brasil: Victor Han, mais conhecido como Jovem Han.


SDTK: Você foi um dos precursores da visibilidade da onda Hallyu no Brasil. O vem achando desse crescimento? Concorda que a tendência é crescer ainda mais?


Han: Com certeza! Vai crescer muito mais, até porque com o show do BTS que foi feito aqui e bombou! Isso só vai trazer mais atenção de mais gente aqui no Brasil. É uma evolução. A gente consegue perceber o tanto que está crescendo desde a 2º geração pra geração atual. Cresceu demais, cada vez tem mais gente.


SDTK: É sem precedentes, né? Esse mesmo evento no ano passado tinham só algumas pessoas, hoje tá lotado!


Han: Exatamente! Tá muito lotado, nem eu tô conseguindo acompanhar direito. Eu estou em choque também... Mas eu sei que é uma onda que tá crescendo mais e mais porque tem pessoas que nem sabem o que é k-pop, mas já escutaram falar. Pra mim, isso já é algo diferente.


SDTK: Qual grupo você gostaria de ver aqui no Brasil?


Han: Blackpink! (risos) [a resposta mais rápida do universo]


SDTK: Muitos fãs de K-pop alegam ter suas vidas mudadas, até mesmo salvas após ter conhecido essa nova cultura. Vocês sentem essa mudança na vida de vocês também?


Han: Quando eu morava no Canadá, eu escutava k-pop porque eu me sentia muito só. Eu acompanhava bastante show de variedades, gostava de acompanhar Girls Generation, isso me fazia bem, ocupava meu tempo e eu as admirava. Então, com certeza, eu entendo porque isso ajuda tantos jovens. Esses idols são ícones, referências.


SDTK: Você tem alguma mensagem para aqueles que não gostam/conhecem o k-pop?


Han: Dê uma chance, você não tem nada a perder. Pelo contrário, tenho certeza que você vai se viciar não só pela música, mas pela coreografia, o estilo, o visual... Tudo é muito viciante. E começa pela Blackpink! (mais risos)


Jovem Han (@jovemhan)

Entrevistamos também uma das colaboradoras do Kpopstation, um dos maiores promoters da cultura coreana, Bella Silva.


SDTK: O vem achando desse crescimento da onda Hallyu no Brasil?


Bella: Com certeza, eu acho que enquanto o BTS durar a onda vai continuar crescendo! Eu fico muito feliz porque é muito bom ver as histórias das pessoas que se salvaram de alguma coisa devido ao k-pop. Eu conheço pessoas que melhoraram a ansiedade, a depressão, pessoas que queriam se matar, mas que graças ao k-pop, estão vivíssimas, aproveitando os eventos... Então eu espero que a onda continue crescendo e salvando as pessoas.


SDTK: Qual grupo você gostaria de ver no BR?


Bella: Olha, o grupo que eu queria ver de verdade, infelizmente deu disband, o 2NE1. Porém agora eu gostaria de ver o BTS novamente e gostaria que viessem grupos mais novos. Eles são uns amorzinhos e sempre amam o Brasil!


SDTK: Qual foi o artista/grupo que te trouxe pra esse mundo?


Bella: Em 2013, foi o G-DRAGON com “Coup d’Etat”. Eu lembro que eu vi aquele clipe e eu fiquei tipo “o que?” e aí eu comecei a pesquisar, eu me apaixonei pelo estilo... Ele é um cara estranho, combina comigo e a gente vai se casar.


SDTK: Você tem alguma mensagem para aqueles que não gostam/conhecem o k-pop?


Bella: Eu acho que vocês estão perdendo tempo. Não precisa ter vergonha de assumir que você gosta de coreanos usando maquiagem. É uma coisa legal, você pode fazer amizades, você pode ficar feliz, descobrir habilidades, como no meu caso: eu era uma pessoa muito tímida. Eu não conseguia nem pedir um lanche ou atender um telefone. Graças ao k-pop, hoje estou apresentando eventos pra mais de 20 mil pessoas. Então, não perca seu tempo odiando uma coisa por puro preconceito!


Bella Silva (@bella.yeyo)

Com base na resposta dos nossos entrevistados e da juventude em relação à cultura coreana, podemos afirmar sem medo que a onda Hallyu veio pra ficar! É melhor já ir se acostumando.

SDTK
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