LEIA TAMBÉM

  • Sidetrack

D-2: A distinta honestidade de Agust D

Escrito por Anna Clara Fonseca e Bárbara Bigas


Quando o diretor de cinema russo Andrei Tarkovsky disse uma vez nunca apresentar a ideia principal do filme, mas mostrar vida, para que assim a audiência pudesse tirar suas próprias conclusões, atribuo o mesmo pensamento a todas faculdades da arte, especialmente a música. Nosso contato quase que transcendental com a mesma se humaniza a ponto de entrar em sintonia com nossos corações. É exatamente o que sentimos quando o criador dessa mixtape pretende mostrar ao mundo sua forma de expressão favorita.


Capa da mixtape "D-2"

A arte tem o dom de interpretar os sentimentos mais intrínsecos que o ser humano pode carregar e os artistas são os intérpretes principais dessa transmissão. Min Yoongi (nome verdadeiro de Agust D) não teme a complexidade dos próprios sentimentos e os confronta regularmente em suas músicas, extraindo um rico e poderoso conteúdo lírico. No D-2 não é diferente. Convergindo entre hip-hop e R&B, o cantor entrega um leque de versatilidade sonora e contextual, flertando com perspectivas profundas e proeminentes sobre o que ele acredita. Agust D é o responsável por entrar em contato com aquele lado menos bonito, altamente inflamável, porém que precisa ser explorado e manifestado em algum momento da vida dele. É uma conversa severamente verdadeira que sempre termina com uma lição muito importante.


Pensada, produzida e composta por ele, é um trabalho que reflete muito seu crescimento pessoal e dentro da música desde sua primeira mixtape, lançada em 2016. Moonlight inicia com a lembrança desse fato. Ele não está preocupado com métricas ou quantidade de músicas que irão entrar no disco, apenas quer que sua voz seja ouvida. Seguindo quase o mesmo caminho do seu single solo Shadow, lançado no Map Of The Soul: 7, Moonlight analisa a própria vida até o momento atual. Questiona sobre a existência de pensamentos como “por que Ele me fez viver esse tipo de vida?”, “eu realmente amo a música?” e “pode parecer que as coisas que eu consegui foram fáceis de conseguir…”, mas logo rebateu duramente com “vão se foder, elas foram recompensas do meu sofrimento.” Ele também reflete até onde suas escolhas o levaram, não esconde os demônios que carrega dentro de si e apesar das mudanças serem relativamente constantes, a única coisa que permanece a mesma é a luz do luar sob ele.


Interligando elementos tradicionais da cultura coreana com hip hop, Daechwita é o carro-chefe do disco, uma vez que é responsável em ser o single de sua nova era e a faixa favorita de Yoongi. O nome “Daechwita” se refere ao gênero musical criado durante o final da dinastia Joseon. Era entoado em procissões de realeza e atualmente tocado em ocasiões especiais ou fins militares. Sem tempo para manter uma imagem imaculável, a música é uma resposta a todos as críticas sem fundamento e ofensivas em relação a influência do BTS e do próprio Yoongi, visto que o mesmo já foi alvo de críticas atravessadas por ser rapper em um grupo de pop. O clipe, que já ultrapassou 100 milhões de visualizações no Youtube, metaforiza todo conteúdo lírico em uma ambientação histórica, trazendo o próprio em dois personagens: o rei carrasco e o plebeu, exemplificando que ambos moram dentro dele. No fim, o plebeu mata o rei, refletindo nas entrelinhas para nós que suas raízes humildes sempre irão preservar dentro de si, apesar de tudo.



A música é uma forma de crítica influente há décadas. Se voltarmos na história, encontramos eventos cruciais na história do mundo onde ela foi a voz principal da população, disseminando o descontentamento em relação ao que estavam vivendo, sendo a intermediadora da situação. Por vezes, artistas, sobretudo rappers, utilizam falas daqueles que desejam criticar para rebater com o conteúdo lírico ou fazer vista grossa em relação tais atitudes, discursos e personalidades. Entretanto, o ato pode ser bem arriscado, uma vez que a intenção pode render más interpretações, resultando em perspectivas negativas sobre o artista. E foi o que aconteceu com Agust D em What Do You Think?. Quando a mixtape foi lançada, a faixa em questão iniciava com uma sample incomum. Era uma voz expressivamente violenta e efervescente. Mais tarde, veio a público que o dono da voz era do pastor americano e líder da seita Templos do Povo Jim Jones, responsável pelo assassinato/suicídio em massa de 918 pessoas em Jonestown em 1978. No dia 31 de maio, a Big Hit Entertainment lançou uma nota se desculpando com a utilização de irrefletida da sample. Eles alegaram não saber que estavam usando um conteúdo de teor indelicado e ofensivo, além de se tratar de uma figura odiosa que não merece ser citada. Foi o suficiente para a internet associar a imagem de Yoongi com a de Jim Jones, o acusando de racismo, fascismo, homofobia, quando em nenhum momento ele chega a citar Jones ou manifestar apoio às atitudes dele. Foi um acontecimento que gerou revolta de um lado, onde muitas pessoas acreditaram que o uso da sample foi feito de forma errada e infeliz, enquanto outros fãs declararam que entenderam a sample como uma maneira de tecer toda a crítica de Agust D na faixa. A letra confronta a inveja e perspectivas infundadas sobre quem ele realmente é. Ele prenuncia sua resposta a infeliz circunstância que viria acontecer no futuro.


© Big Hit Entertainment

Em Strange, a atmosfera do disco muda subitamente. Presenciamos um Agust D mais introspectivo e pensativo e isso se reflete em seu rap e em seus vocais, que são mais lentos e falados, sob a ambiência da melodia do piano. Nessa faixa, ele e o ilustre RM reúnem todas as suas opiniões sobre o mundo contemporâneo, sobre se sentirem estranhos, inadequados por terem tantas indignações. Indignações sobre nossa submissão a uma realidade de mentiras, superficial, limitadora e limitante. Segundo as reflexões dos mesmos, “vale a pena ver o final deste jogo interminável de soma zero”.


A percepção do que é crescer é questionado em 28, a idade atual de Agust D. A envolvência da melodia imersa no R&B entra em contraste com o eu lírico, convidando a analisar a vida adulta até então. Sempre estamos esperando por ela. Qual é o momento crucial que define isso? “Acho que estou lentamente me tornando um adulto / Não me lembro / O que eu queria?”. Aguardamos uma mudança instantânea assim que completamos mais um ano de vida, na esperança de tudo ser diferente, “Pensei que iria mudar depois de completar vinte anos / Pensei que iria mudar depois de me formar / Sim, então o que mudou pra mim?”. No refrão, ele reconhece a chegada da vida adulta, porém não sendo a salvadora da pátria como imaginava: “Eu respiro, mas parece que meu coração está quebrado / Sim, agora eu me tornei um adulto / Que acha difícil segurar o seu sonho.” A música conta também com a participação do cantor NiiHWA.


Burn It inicia com os vocais chorosos de MAX, cantor, dançarino e modelo americano, cuja parceria com Agust D não poderia ter dado mais certo. Essa faixa revela o potente confronto que o próprio enxerga em relação ao seu passado e presente. Manifestando até uma certa confusão, não sabendo onde um começa ou para de influenciar o outro, a sua sugestão para lidar com isso é queimar tudo, até que não exista mais nenhum rastro desta dúvida. O modo como ele projeta este sentimento nos itens sonoros da música é igualmente confrontador. O refrão marcado pela frase “Burn it” conta com um som de guitarra, que depois desaparece para dar destaque a um rap cru e direto. É possível perceber sua interpretação como uma verdadeira conversa consigo mesmo. A voz de MAX, trazendo agudos e vocais perfeitos para o gênero pop é também um traço desse contraste, e foi uma ótima sacada para a faixa.



A favorita de todos chegou e assim como Moonlight e 28, People é uma faixa que se difere um pouco do caráter de Agust D por ser uma saudação mais tranquila e leve às suas próprias reflexões.

Liricamente, é um retrato da observação do artista às pessoas ao seu redor, depois conduzida para ele mesmo. Depois de questionar sobre que tipo de pessoa ele é, ele está conformado com várias questões que lotam a cabeça de muitos, como as frustrações e decepções diversas do dia a dia. Ele fala sobre novas perspectivas, sobre pensar diferente para que essas coisas não se tornem um peso, e convenhamos: é algo que pessoas realmente precisar ouvir e levar a sério.

Sonoramente ela é igualmente relevante: temos o privilégio de escutar os vocais do rapper no refrão, além de um rap e beat acolhedores voltados a uma sonoridade mais soft e pop, visto que foi produzida junto da música First Love, solo de Yoongi no álbum Wings, do BTS. É um convite a enxergamos a volatilidade da vida, a entendermos que independentemente de reconhecimento, aplausos ou a falta deles, a trajetória de cada um continua e que devemos seguir esse fluxo.


A humanidade e normalidade sentimentalista de Honsool é notável desde seu título. Ele vem das palavras em coreano honja (sozinho/a) e sool (álcool), e a junção delas representa o ato de beber sozinho. Durante uma live sobre a mixtape, Agust D revelou que essa música surgiu de um momento em que se encontrava fazendo exatamente isso. Apesar da normalidade que esse momento possa representar, ele expressa nessa faixa o auge de seus pensamentos negativos, sua desilusão em relação à vida de fama e sucesso, onde todo o seu esforço e trabalho incessantes na verdade lhe causam um peso e um forte pessimismo que não o permitem pensar no futuro e nas realizações que tem pra si mesmo. O álcool é seu único e principal escape depois de mais um dia exaustivo. A intimidade deste significado conversa muito bem com os vocais distorcidos da intro, a velocidade arrastada do beat e o simples refrão, composto apenas de uma frase, cantada quase como um suspiro de alívio:“(...) Now I’m feelin’ like I’m flyin”


© Big Hit Entertainment

A paz que reverbera entre os vocais limpos com a sonoridade de Set Me Free conversa com sua composição redentora, clamando pela leveza que quer sentir em relação ao seus atos e a própria existência. Mesmo que não entenda algumas complexidades da vida, ele quer se libertar do descontentamento, que não está sob seu controle.


A maior faixa do álbum também conta com um vocal forte e presente, dessa vez do cantor Kim Jong Wan, abrilhantando o refrão de uma música repleta de emoções. Em Dear My Friend, Yoongi vasculha suas memórias de infância e faz dessa música uma carta ao um velho amigo, que separou-se dele após ser preso. O rapper abre seu coração falando sobre a saudade, culpa e também sobre o sentimento de fúria por ver que ambos mudaram abruptamente. O tom melodramático da canção simboliza o encerramento da mixtape, que mais uma vez escancara o questionamento de Yoongi para consigo mesmo, sobre suas escolhas, sobre as coisas que resolveu deixar para trás ao longo do tempo, se ele vem tomando as decisões certas para sua vida. E nos convida a fazer o mesmo depois de 10 faixas tão intensas.


Ouça aqui a mixtape:



Faixas favoritas: People e What do you think?



SIGA-NOS NO INSTAGRAM!

Estamos ouvindo!

  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone Spotify
  • Preto Ícone Twitter
  • Preto Ícone Pinterest
  • Preto Ícone Flickr

© Sidetrack Magazine