• Anna Clara Fonseca

Electra Heart: uma mensagem à sua adolescência

Atualizado: Jun 27

Em um dos meus livros favoritos, O Grande Gatsby, há um momento que Daisy diz a seguinte frase: "Espero que ela seja uma tola. Essa é a melhor coisa que uma garota pode ser neste mundo: uma linda tolinha".


A beleza da adolescência está ligada furtivamente nessa tolice ingênua de que somos invencíveis e nada poderá nos deter naquele momento. Pois é: NAQUELE momento. E o amanhã?


Coloque um coração na bochecha e venha conhecer essa personagem altamente letal.


Eu devia estar nos meus 15 anos quando uma colega me indicou sua cantora favorita.


Já tinha visto algo sobre ela na TV. Sua música mais famosa passava todos os dias

nos canais de clipes, porém nunca tinha parado para ouvi-la de verdade, até um dia que fui conhecê-la. Minha vida nunca mais seria a mesma. Marina tinha algo a dizer, porém não queria dizer só para seus fãs. Queria dizer pra mim, pra você e a quem estaria apto a ouvir sua obra prima chamada Electra Heart.


A adolescência é reconhecida e tratada de diferentes formas em diversos países, até mesmo culturas. Em certas tribos, a fase jovem simplesmente não existe: basta pular de certa altura para se tornar adulto. Já na nossa realidade não é bem assim que funciona. Juventude costuma ser um assunto delicado para alguns, cansativo para outros e longo para todos. Ao mesmo tempo em que é curta, durando quatro, cinco anos da nossa vida, sua lentidão é excruciante, dura eras para se estabilizar (SE se estabilizar). Quando sentimos o equilíbrio, ela acaba. Dependendo o que ocorre nesse tempo, é um dos maiores responsáveis por fazer quem nós somos. Ela é letal, excruciante e quase suicida: isso é o que Marina tenta nos dizer nas letras fortes e sem rodeios. Temos alguns meses de descanso até chegar à crise dos 20, mas ai já é outro texto sobre outro disco da Marina também.


Hoje o assunto é sobre tortas de maça, comprimidos para dormir, rótulos com uma pitada de egocentrismo.

Capa do álbum Electra Heart

Segundo álbum de estúdio da cantora galesa Marina Diamandis foi lançado em Abril de 2012 e veio para fazer historia naquele ano. Seguindo caminho diferente do anterior The Family Jewels, ela decidiu explorar o quão longe poderia ir e criou uma personagem que seria a união de tudo o que queria exteriorizar. A mensagem mais forte que identificamos é o amor e o que ele pode fazer com alguém. Marina, nada boba, criou esse alguém (Electra Heart) e a dividiu em arquétipos: Homewrecker, Primadonna, Teen Idle, entre outras, já que a própria diz ser um pouco de cada uma.


Ela já havia recolhido algumas inspirações na internet como a própria rede social Tumblr, que coincidiu com o momento do seu ápice. Anexou também referências ao Sonho Americano, na típica mulher dos anos 60, no entanto, uma de suas maiores inspirações veio da obra O Vale das Bonecas, de Jacqueline Susann. Lançado em 1966, o livro se passa nos anos 40/50 e narra a vida de três mulheres reféns das garras do Show Business, Hollywood e pílulas para dormir. O livro se tornou um sucesso e acabou ganhando uma adaptação cinematográfica dirigida por Mark Robson, estrelada por Barbara Parkins, Patty Duke e Sharon Tate.


Vemos o dessecamento da quimera sobre o amor em cada letra do disco, como a sociedade vende a ideia da beldade quando, na verdade, essa beleza não pertence a todos. Nem todos vivem os romances oitentistas de John Hughes ou comedias românticas protagonizadas por Sam Clafin. Infelizmente, o mundo precisa começar a vender a imagem da dor do coração partido. Mesmo que outro amor nos salve, o que de fato ocorre, o conto desse tempo dolorido precisa ser enaltecido na mesma intensidade e no Electra Heart, Marina não tem medo algum de te mostrar esse lado.


Podemos dividi-lo em duas partes: a primeira nos contaria sobre o amor em uma visão ingênua, inocente e inofensivo. A segunda nos mostra seu lado explicito, cruel e fatal.

Bubblegum Bitch tem o maior ego do universo e não se importa em pontuar seus pontos fortes como sua cintura fina de boneca e como é o tipo perfeito para qualquer um. Sua procura por aprovação e adoração nos mostra como não mede esforços para conquista-la. Em algum momento, ela diz que encontrou um garoto, mas que se separaram: é o começo de tudo.


O single de sucesso do disco, Primadonna, contem a estonteante vida da nossa diva. O pop rock da canção mostra que quer o mundo aos seus pés, pois sabe que nasceu para ser a pessoa favorita de seus fãs. Podemos afirmar que é o momento que nossa autoestima está no auge e nada pode abalá-la.


Já a próxima é onde tudo desanda. O choque da realidade amorosa bate com coerção. Acredito que Lies têm uma das letras mais fortes do álbum. Mentiras dissimuladas, falso afeto e um coração partido é o principal plano de fundo da canção. A carga emocional é grande, sendo capaz de senti-la nessa parte: “Você só me toca no escuro. Apenas quando estamos bebendo você consegue enxergar o meu brilho”.


Em Homewrecker, a bicha se reergue e está pronta para destruir alguns lares e corações. Não se importa com o dano que causará, apenas quer preencher seu vazio com aquilo que não lhe importa mais. É egoísta, mimada como uma adolescente de 16 anos deve ser. O que acaba levando ao relacionamento tóxico em Staring Role. É visível quando entoa que o único momento que ele se abre é quando ficam sem roupas. Ela não aguenta mais ser a outra no coração de outro, usada e descartada quando necessário. Quer ser a protagonista da historia, ser o motivo de revolução, brigas, quer se sentir amada de verdade. Ao mesmo tempo em que deseja tudo isso, ela não se ama.


A vida rotineira e monótona em Living Dead nos diz o quão está cansada daquilo. Estão se tornando superficiais as expectativas para um dia melhor sempre acabam morrendo junto com seus sonhos. Não está vivendo, apenas existindo, basicamente.


Quer definir o álbum em alguma música? Chegamos nela. A favorita de todos, Teen Idle, trata sobre suicídio, depressão e a pressão de ser uma menina de 16 anos. Se fossemos definir essa música em uma cena de filme, seria de As Virgens Suicidas, onde o médico diz: “Você nem é velha o suficiente para saber o quanto a vida é difícil”, e a menina responde: “Claro, Doutor. Você nunca foi uma garota de 13 anos”.


Podemos materializar Teen Idle em nossa mente como a personificação da garota loira popular que todos querem ser, mas que ninguém sabe o que realmente passa. É necessária muita garra para continuar perfeita quando, na realidade, tudo está desmoronando no seu interior. Ressalta também sua ânsia em ser rainha do baile, que para um jovem estadunidense é um grande momento da vida escolar. Quase no fim da canção, Marina nos joga um questionamento: “Adolescência não fez sentido, uma pequena perda de inocência. Os horríveis anos sendo uma tola. A juventude não foi feita pra ser bela?”.


Valley Of The Dolls pode ser uma homenagem ao livro que serviu de inspiração para o disco e uma mensagem sobre como seu coração está partido após tantas decepções enquanto Fear and Loathing é a manifestação da sua determinação em acabar com a antiga “ela”. Algumas experiências ruins podem causar medos, traumas que tendem a ser irreversíveis. A mais pura verdade é que de nada adiantará se viver com medo, involuntariamente acabamos generalizando toda sociedade mesmo quando nem todos querem o acabar com você, como salienta na segunda estrofe.


O pico da adolescência está a chamando em Radioactive e a sensação é maravilhosa. Está vivendo, se sentindo invencível e não se preocupando na próxima rachadura de seu coração ao mesmo passo que em How To Be A Heartbreaker, ela nos presenteia com quatro dicas infalíveis de como quebrar um belo coração e ainda se sair livre e desimpedida.

A minha segunda favorita é Sex Yeah. O começo icônico revela do que iremos falar: sexo. Um dos maiores tabus do mundo é banalizado diariamente com anúncios de mulheres mostrando peitos, bundas, tudo para alimentar a ilusão que aquela é o “tipo ideal”, a única pronta para realizar o ato superestimado. A furtiva mensagem de como não somos reconhecidas sexualmente, o homem é o único que pode sentir, se estimular enquanto durante toda vida da mulher foi dito que era errado, perpetuando até os dias de hoje. Ela manda essa mensagem lindamente quando canta: “Se as mulheres fossem religiosamente reconhecidas sexualmente, nós não teríamos a necessidade de mostrar nossas bundas para nos sentirmos livres”.


Além dessas, temos State Of Dreaming, Hypocrates, Lonely Hearts Club, Buy The Stars, incluindo também as que não estão no álbum como E.V.O.L e a homônima Electra Heart.


Pode passar meses, anos, décadas e o Electra Heart ainda continuará tão atual quanto o dia que o ouviu pela primeira vez. Ela conta a historia sobre o assunto milenar da sociedade. Os sentimentos imutáveis que todos sentem são descritos da maneira mais sincera e metafórica, fazendo nos perguntar se ela estava vigiando nossos passos. A intensidade que ele carrega não se compara com outras obras da discografia: é a ode de Marina.


Nota: 8.5/10 ⭐


Ouça ao Electra Heart no link abaixo:



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