• Heloísa Cipriano

Em “Enquanto a Orquestra Não Vem", a banda Soprü estreia destacando intimismo e bossa progressiva

O grupo tocantinense lança neste domingo (18) seu primeiro álbum, reunindo faixas que já são queridas entre os fãs, como a canção "Julia".

colaboração de Letícia Lucena


A busca por readaptação é constante no período que vivenciamos. E sabemos que não é fácil manter a motivação para prosseguir com projetos, já que mesmo com a chegada da vacina, parece que não saímos da mesma sensação de impotência que o vírus da Covid-19 causa a todos nós. Precisamos seguir com as normas de isolamento social ao máximo, para evitar novos casos e mortes, que aumentaram neste último mês. Sim, temos esperança e vencemos uma batalha; mas não a guerra.


Acredito que subestimamos muito a nossa capacidade de nos reinventarmos. Afinal, “quebrar a cara” e perder é uma condição natural da vida, faz parte. Os artistas que o digam! No universo da música, então, todo o dia é um teste de paciência e concentração para compor letras, produzir sons… e fazer acontecer.


© Thaylon Reis

No Tocantins, a banda Soprü começou suas atividades em 2018, a princípio apenas com a intenção de gravar um álbum - daí vem o nome Soprü, como algo passageiro. Como informado pelos integrantes, algumas de suas composições são mais antigas, devido aos trabalhos anteriores de alguns membros, como do vocalista Samuel Carvalho. Ele chamou Caio Paiva (guitarrista), para tocar; logo conheceram artistas da cena palmense e receberam apoio de músicos já experientes para produzir seu primeiro álbum de estúdio.


Agora, tem novidade pra quem já conhece o trabalho incrível desses amigos: eles lançam neste próximo domingo (18) seu primeiro álbum de estúdio, intitulado Enquanto a Orquestra Não Vem. A Sidetrack teve acesso exclusivo ao álbum (concedido gentilmente por Samuel Carvalho) e traz a seguir o que podem esperar de cada uma das oito faixas. Confiram!


© Maria Eduarda Ferraz

Segundo a Soprü, Enquanto a Orquestra Não Vem tem a finalidade de funcionar como uma playlist. Vários estilos e ritmos musicais podem ser sentidos, já que também é possível perceber que empregam uma diversidade de influências musicais para expressar a contestação subjetiva das composições, carregadas de significados. Não há um gênero apenas que defina a Soprü: eles se intitulam como rock nortista, carregados de várias influências, já que há participantes de cantos diferentes do Brasil. Além disso, a própria banda compreende a importância de sua representatividade, já que o Tocantins é diverso em estilos musicais. Segundo a Soprü, eles buscam acrescentar um toque de psicodelia, tristeza e gingado. Enquanto a Orquestra Não Vem é um compilado de ritmos brasileiros, como: rock indie, jazz e funky.


Faixa a faixa


1. Desconforto: conhecem aquela sensação de que tudo parece estar no seu devido lugar? É assim que a primeira faixa já nos introduz ao álbum. Sabemos que nossos leitores são chegados numa fanfic, então lá vai uma que bolei para essa primeira faixa. Se fosse para lançar um clipe, imaginaria que o ambiente seria numa padaria (bem estilo cidade do interior); seria um dia chuvoso. O primeiro take começaria com um homem passando pela rua movimentada, estaria garoando; ele logo abriria a porta da padaria (com aquele sininho característico que ouvimos em filmes) e pediria um café. O moço, todo atrapalhado, olharia pela janela e quando se virasse para pegar a xícara de café, ouviria a voz da garçonete dizendo “aqui está, senhor” e os dois ficariam fascinados um pelo outro.


Foi tudo isso que pensei logo nas primeiras notas, com o clarinete com sua característica suavidade sonora sendo o instrumento em destaque. É aquele tipo de música que nos faz criar várias ideias na cabeça. Mas não se enganem com essa fanfic que criei: apesar da sonoridade ser romântica, a letra não é sobre isso. Segundo a Soprü, a composição é do vocalista Samuel Carvalho, foi rearmonizada pelo guitarrista Caio Paiva e ganhou uns retoques de Daniel Kowalski (teclados e synths). A sonoridade é voltada ao indie rock, com toques gospel. A letra é sobre a ansiedade e acredito que alguns trechos podem ser bem aplicados ao momento em que vivemos. É ansiedade que não se acaba nessa pandemia.


2. Júlia: para quem já conhece o trabalho da Soprü por meio de festivais regionais, como Som do Formigueiro e Bem Ali, a canção "Júlia" é uma das que mais chamam a atenção do público. Segundo a banda, Júlia já circula há cinco anos na cena musical palmense e faz parte do repertório da antiga banda que Samuel Carvalho participou, a Laçônico. A primeira versão era diferente da atual: a harmonia era composta por dois acordes, e agora a Soprü trouxe novas nuances e notas na composição desta love song. A equipe de Palmas da Sidetrack já conferiu de perto essa canção, na cobertura do PMW Rock Festival, no qual a Soprü se apresentou, e é claro que nos emocionamos com a oportunidade para a banda, que dividiu o mesmo palco com grandes artistas, como Duda Beat e a banda Detonautas. É possível ouvir a primeira versão no vídeo abaixo.



3. Derrete: uma das mais queridinhas da equipe Sidetrack! Diferente das duas primeiras faixas, já começa com um som mais agitado. Tentei pensar em algum artista ou banda que remetesse ao som da Soprü; grandes cantores da MPB como Gilberto Gil e Caetano Veloso com certeza são influências para a banda, mas seu estilo é muito próprio, o que acredito que os fazem ser tão talentosos. Especificamente "Derrete" é o que inspirou pensamentos nesse sentido. Nela, é possível sentir tons psicodélicos misturados com sua característica bossa. Na ideia conceitual do álbum, a banda informou que a canção fazia parte do repertório nos shows e é uma composição antiga do vocalista, de cerca de três anos.


4. Somália: a história da composição de "Somália" é curiosa. De acordo com a Soprü, o guitarrista Wellis Raik fez os primeiros versos e a harmonia se inspirou em um clássico do jazz. A coincidência é que o início da música se encaixou perfeitamente com versos que Samuel Carvalho escreveu. O estilo atualmente é o que condiz mais com as ambições da banda. Cantar e tocar Somália é desafiador: a música é cheia de firulas, passa por vários tons de voz (inicialmente bem agudo e se tornando gradativamente grave) e os integrantes devem ficar bem atentos para as mudanças bruscas nas passagens de um instrumento para o outro. Adoramos essa proposta de uma certa “bagunça organizada” que essa faixa confere ao público!


© Letícia Lucena

5. Enquanto a Orquestra Não Vem: acredito que a Soprü acertou demais em colocar essa canção como a que dá nome ao álbum; é sem dúvidas a que mais me encantou. Sabe aquelas músicas que parecem que a batida segue exatamente a mesma do coração? Foi assim que me senti quando ouvi pela primeira vez "Enquanto a Orquestra Não Vem". O comecinho tem traços de reggae; mas no geral, a sonoridade remete a tudo que há de mais brasileiro. Definiria como uma balada bem produzida, com clarinete de fundo e guitarra conferindo um tom de bossa nova. Músicas que nos transportam para um lugar que nos traz bons sentimentos, como felicidade nostálgica e paz, são com certeza as mais especiais… é a arte mostrando sua finalidade: representação social. Até mesmo porque a letra tem um apelo político, composta pelo baixista Lothar Matheus. A ideia, segundo a Soprü, surgiu numa conversa, quando foi sugerido o nome do álbum.


6. Água Gelada: é um funky com pitadas de regionalidade no som e na letra, com referências a cachoeira (em Palmas, as cachoeiras do distrito de Taquaruçu são um dos principais atrativos turísticos) e ao calor de 40 graus da Capital mais quente do país. Foi feita em conjunto com toda a banda e representa a energia que pretendem levar aos shows. A melancolia é um estilo presente na Soprü; mas em "Água Gelada", querem fazer também o público sorrir e dançar.


7. Bossa Progressiva: nos dez segundos iniciais somos pegos de surpresa com um som voltado ao grunge dos anos 90. Quando ouvi pela primeira vez, pensei “ué, eu tô ouvindo a Soprü mesmo?”. Mas logo depois aparecem o contrabaixo, os synths, o clarinete, os teclados e as guitarras, e é isso que faz a faixa ser a mais diferente de todas as outras. É como a própria banda afirmou: é uma tentativa de não seguir muitas regras e fazer o que der na telha. "Bossa Progressiva" fala de flerte, conquista e de bossa. Em alguns momentos, podemos sentir também novamente um estilo psicodélico, na voz de Samuel Carvalho.


8. Welton: a última faixa do álbum fecha com reflexão sobre processos de criação, o que parece ser um bom desfecho para um álbum. É importante lembrar que geralmente, quando artistas produzem um álbum, eles pensam exatamente nesse processo de início, desenvolvimento e conclusão. Para exemplificar, podemos citar aqui álbuns como After Hours (2020) de The Weeknd: cada faixa seria um capítulo da história do artista Abel Tesfaye, num relacionamento que não deu certo e que, por desilusão, ele tenta escapar da dor por meio de vícios. Em Welton, há um feat de Daniel Kowalski, que também trabalhou na produção do álbum. Tem um certo clima de faroeste no início, um ar de mistério na sonoridade. Para quem gosta desse estilo, provavelmente se identificará mais com essa faixa. De acordo com a Soprü, a ideia é que nos shows a canção seja tocada de uma forma diferente do que é apresentado na gravação.


© Letícia Lucena

O que eu - como toda a equipe Sidetrack - fico mais fascinada com a Soprü é, além de sua sonoridade, sua humildade em reconhecer que estão iniciando na indústria musical. Como informaram, sentem que são músicos inexperientes com “muita vontade de aprender”. Acredito que essa verdade em crescer em etapas é transmitida igualmente em seu som, algo genuíno. O primeiro álbum de estúdio da banda preza por um teor infantil - a identidade visual da capa é uma arte de Gabriela Kowalski, de 10 anos.


Eles finalizam afirmando que querem “transparecer uma ideia de algo que está em formação em crescimento. Algo que surge e que pode ou não ser algo maior no futuro. Isso depende da nossa dedicação nos próximos anos”. Vamos combinar, acreditamos que vocês vão longe, Soprü!


Até o momento, eles tocaram nos principais festivais do Tocantins. Quando a oportunidade de tocar em outros locais do Brasil surgiu, com convites já feitos, a pandemia da Covid-19 interrompeu as atividades. Enquanto a pandemia não termina - e a Orquestra Não Vem (sim, eles foram cirúrgicos na escolha do nome!) - estão trabalhando em gravar todas as composições (até o momento contam com mais de 20). Desse total, oito estão quentinhas para serem aproveitadas nesse primeiro álbum. E não para por aí: a Soprü já tem planos de soltar um EP até o final de 2021.


Acesse o perfil do Instagram da banda, que ainda dá tempo de fazer o pré-save do álbum, que nada mais é que um mecanismo de engajamento de público disponibilizado por plataformas de streaming de música, como uma campanha de lançamento. A loja digital disponibiliza um link prévio para que o usuário já possa incluir a faixa, EP ou álbum na sua biblioteca antes mesmo da data de lançamento, ouvindo o produto automaticamente quando estiver no ar. Com essa ação, você faz com que o trabalho da Soprü chegue até mesmo no Ponto Nemo! O link do pré-save está na bio do perfil @bandasopru.

Nota: 9.5/10



Ficha técnica Enquanto a Orquestra Não Vem (2021)


Vocal: Samuel Carvalho

Backing Vocal: Soprü, Fred Garibalde e Diego Vicente

Guitarras: Wellis Raik e Caio Paiva

Clarinete: Lucas de Jesus

Contra Baixo e Synths: Iury Grooveman

Teclados e Synths: Daniel Kowalski

Bateria: Adriano Alves

Direção de voz e Timbragem: Fred Garibalde

Suporte técnico de gravação: Fred Garibalde

Captação de Áudio e estúdio: Denner Duarte

Produção: Daniel Kowalski

Capa do Álbum: Gabriela Kowalski e Wellis Raik

Mix e Master: Humberto Dantas

Estamos ouvindo!

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