• Bárbara Bigas

CONHEÇA + ENTREVISTA: Pedro Rhuas alia uma experiência sonora e visual à criticidade

Atualizado: Nov 20

Arte e ficção são modos de questionar a realidade palpável sem obviedade.
- Pedro Rhuas

O definhamento político que o Brasil vive não é de hoje. No entanto, em meio a uma pandemia que levou o país a mergulhar de cabeça na indiferença com a saúde e integridade humanas, essa realidade bate à nossa porta com uma força ainda maior. Diante desse "novo normal", a arte se faz essencial para ser o lampejo de esperança na consciência coletiva, abrindo os horizontes do pensamento e da crítica como a forma de protesto acessível e universal que é.

Pedro Rhuas, cantor e compositor nordestino, vem com tudo mostrar o seu talento musical aliado a um storytelling envolvente: Lançado em 23 de outubro, o clipe do single "Máquina do Tempo" retratou o Brasil como uma distopia fascista e Pedro como um rebelde foragido que comunica ao povo suas indignações com os problemas sociais à sua volta. A produção caseira foi contemplada pelo edital Sesc Cultura ConVIDA.


Foto: Acervo pessoal do artista

A letra da canção reúne questionamentos diversos a "falsos messias", ataques à democracia e ao terraplanismo crescente no país e o clipe a caracteriza muito bem com recortes de gravações de protestos e movimentos civis, mostrando a ambiência caótica de um Brasil governado por um ditador, o "Grande Messias".

Segundo Rhuas, a ideia era "dialogar com o público jovem e trazer uma música que, dançante, não perdesse seu apelo político". O diretor do videoclipe, Diógenes Nóbrega, complementa o raciocínio: "O clipe priorizou a busca por um discurso coerente, político e afiado. Passamos um longo período fazendo curadoria das imagens que entraram no corte final, trazendo cenas de protestos, abuso policial, desastres ambientais".


Os vocais falados e diretos de Pedro não deixam escapar a mensagem crucial de que devemos encarar essa realidade dura e degradante como responsabilidade coletiva para que a superemos de verdade. É um desconforto necessário acompanhado por um som original e dançante, que contou com o beat do músico potiguar Antonio Bê, mixagem do pernambucano DogMan e suporte da produtora Frika Records. O single "Máquina do Tempo" foi disponibilizada nas plataformas digitais em julho, com quase 10 mil streams no Spotify e foi um dos projetos de Rhuas em 2020, que também lançou o livro "Enquanto eu não te encontro" e covers para faixas como "Canção de Esperança" e "Como Vai Você".



Batemos um papo com Pedro Rhuas sobre seu estilo sonoro e a expectativa para trabalhos futuros. CONFIRA:


SDTK: Diante dessa era de streaming e músicas altamente comerciais, para você qual a importância de se diferenciar trazendo músicas de teor crítico e analítico em relação à realidade?


Pedro: A gente vive em um contexto onde a perspectiva capitalista da produção de massa dita o ambiente musical. Apesar de haver um aumento expressivo do número de pessoas produzindo independentemente, por exemplo, eu percebo que, para se encaixar na lógica de mercado, muitos artistas tentam ao máximo se adequar ao que é mais tragável pela indústria. Quando faço músicas que são provocadoras à realidade que vivemos, não quero negar o meio onde as produzo, mas trazer para dentro dele essas questões. É como uma espécie de “Cavalo de Troia”: proponho uma roupagem que soe comercial o suficiente, mas envolvo minha letra com uma abordagem distinta, “subversiva” até. Para mim, é uma constante balança entre me apropriar do mainstream e questionar os padrões dele. Como o ser político que sou, minha música é um reflexo disso. Apesar de cantar também sobre outros assuntos, eu seria menos eu se, em 2020, em pleno governo fascista, minha produção artística ignorasse essa realidade histórica que, infelizmente, é concreta e é nossa. Se canto sobre temas nem tão convencionais no pop, é porque julgo pessoalmente importante disputar essa narrativa.


SDTK: Qual a sua parte favorita de “Máquina do Tempo”? Um verso, uma reflexão que você fez e que considera muito importante para que o recado da música seja transmitido?


Pedro: “Máquina do Tempo” é uma música que brinca o tempo todo com essa oposição do presente se voltando ao passado; da gente ver o que parecia ter sido superado (fascismo, preconceitos, ditadura, etc) voltando às nossas ruas como os “dinossauros” pré-históricos que são. Mas minha frase favorita é “eras de ódio decretado é ousadia amar”, porque é verdade, não é? A gente precisa compreender que o tipo de comunicação pautada pelo bolsonarismo é uma comunicação de ódio. O ódio é a base do bolsonarismo porque é ele que nos suga, enfraquece e separa... Cria inimigos e busca a divisão social, rupturas mesmo. Enquanto uma pessoa LGBTQIA+, eu sinto o quanto nossa comunidade foi utilizada como instrumento para a ascensão do fascismo no Brasil. Bolsonaro começa a aparecer na mídia com sua LGBTfobia doente. Se o ódio deles é o X do ultraconservadorismo, minha resposta é amar. É lutar, é se expressar, mas, acima de tudo, se amar e amar quem se ama. É ter a ousadia de ser mais quem se é num contexto que o tempo todo diz para não sermos quem somos plenamente.

SDTK: Como foi a identificação do público com o último single? Você sente que músicas como “Máquina do Tempo” podem ajudar em seu crescimento como cantor?


Pedro: A recepção do single foi bastante positiva. É o meu segundo material solo lançado e achei um desafio tremendo trazer isso nesse ambiente corrosivo. Por incrível que pareça, quando pensei em definir meu público, sempre imaginei uma galera mais jovem me acompanhando. E embora esse seja o perfil de quem eu quero atingir, “Máquina do Tempo” foi uma música que me abriu para outros espaços. Recebi feedbacks muito legais de pessoas nos seus 40, 50, 60 anos de idade. Pessoas que não curtem muito o pop farofa, mas que se identificaram e acharam bacana o fato de eu estar utilizando uma sonoridade dançante para trazer uma letra engajada. E como artista pop, eu me vejo fazendo muitas coisas diferentes: quero misturar gêneros e ritmos, cantar sobre amor e coração partido, mas com certeza “Máquina do Tempo” e outras composições mais políticas só têm a somar. Aquela mesma ótica capitalista que a gente conversou antes, que pede um fluxo de produção frenético, ela também reflete em quem consome e em quem cria artisticamente... Eu não quero que meu público me consuma com voracidade. E, se eu faço uma música com um prazo de validade menos deteriorável, já é um bom caminho.

SDTK: Vimos que a sua proposta artística dialoga bem com a sua região de origem: o Nordeste. Sendo assim, como a cultura e costumes nordestinos influenciam sua música? Existe algum traço cultural único do seu estado ou cidade que aparece em suas canções?


Pedro: Sim, posso dizer que encho a boca pra dizer que sou nordestino; cantor nordestino, escritor nordestino, viado nordestino (haha)... Diria que minha nordestinidade é uma marca definidora do meu trabalho, da maneira com que me comunico e como me entendo no mundo. Um aspecto de influência super forte é a questão da oralidade. No interior, a gente tem muito o costume de histórias orais, contos, causos... Isso acabou se cristalizando demais nas minhas letras. Gosto de utilizar storytelling nas minhas composições, sempre trazendo uma contação para ir costurando as narrativas. Fora o misturado do sotaque na minha voz: quero utilizar esse sotaque para cantar música eletrônica e outros ritmos que as pessoas não costumam ligar a um fazer nordestino. Representatividade, afinal, é ocupar todos os espaços.

SDTK: E agora para descontrair: que tipo de música você gosta de escutar? Tem alguma música favorita no momento?


Pedro: Meu Deus, eu AMO essas perguntas, Sidetrack! Muita gente vai me julgar, mas após 11 anos na fanbase já me acostumei: sou katycat, então tô ouvindo muito o “Smile” (‘Tucked’, o Grammy de Canção do Ano vai pra você!). Recentemente, também viciei HORRORES no álbum “What’s Your Pleasure”, da Jessie Ware, um hinário maravilhoso. E uma música nova que conheci foi “Estamos Bem”, da Luiza Nobel, uma cantora lindona do Ceará!

SDTK: Deixe aqui um recado/mensagem para os que ainda não te conhecem.


Pedro: Olá, leitores do Sidetrack! Obrigado por terem acompanhado essa entrevista! Se está lendo essa mensagem, é porque você foi contactado por forças misteriosas e deve correr agora no meu Spotify pra ouvir minhas músicas!

Ah, próximo ano tô lançando álbum (muito pop, muito house, muito divertido) e um livro. “Enquanto eu não te encontro” vai sair no primeiro semestre pela Editora Seguinte e é um romance jovem-adulto com temática LGBTQIA+. É isso! Gratidão pelo carinho <3


Nós é que agradecemos ao Pedro por esse bate-papo tão divertido e reflexivo!

Ouça "Máquina do Tempo" agora mesmo:


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