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  • Thais Ferraz

[ENTREVISTA] Um bate papo com Carlos Filho, do grupo Estesia


© Thaís Ferraz

Quando Carlos Filho, carinhosamente chamado de Carlinhos, chegou ao café onde havíamos marcado nossa conversa, eu estava olhando para minha pauta e pensando em como conduziria a entrevista, porque basicamente, eu não queria que fosse uma entrevista no sentido mais comum da palavra, no formato usual de perguntas e respostas. Por que isso? Porque Estesia, o grupo de Carlinhos, não se encaixa no formato usual de banda, ou grupo, ou qualquer outra denominação artística que exista por aí. Concordamos em chamar de banda ou grupo, por propósitos de facilitação de conversa, mas aviso logo que Estesia é muito mais do que isso.


É um espetáculo sensorial, que mistura som e luz, num ato único, sem intervalos, em que os quatro integrantes, Carlinhos, Miguel, Tomás e Cleison (este é o iluminador cênico, que inusitadamente ocupa o mesmo espaço no palco com os músicos), envolvem a plateia. Aliás, minto. O espetáculo Estesia não tem plateia, porque todo mundo participa junto, seja em cima do palco, seja mexendo nas luzes e nos equipamentos, seja se pintando e pintando os outros com tinta neon durante a última música, além de cantar em uníssono com Carlinhos, que dá voz às interpretações musicais do grupo.


Mas voltando ao começo, quem é Estesia? Por que Estesia? Carlinhos, que tem um background musical de cerca de dez anos (sua antiga banda se chamava Bandavoou), queria sair da zona de conforto e enveredar por novos caminhos no ramo da música após um ano “sabático” trabalhando em outras áreas.

A IDEIA


“Estesia é uma palavra que existe na Língua Portuguesa, mas a gente só usa a negação dela: anestesia; sendo que ela tem muito a ver com o que a gente ouvia das pessoas que iam nos nossos shows, elas diziam que era uma experiência sensorial. Então adotamos o nome pra significar exatamente isso, essa capacidade de se permitir sentir as coisas”.


© Thaís Ferraz

“Eu pensei em montar um espetáculo que juntasse coisas que eu tinha interesse em pesquisar, mas que nunca tinha executado. E principalmente quando você já está inserido no mercado, ele tem regras: isso pode, isso não pode. Então, por exemplo, Cleison, o iluminador, com quem eu trabalho há muitos anos, eu sempre achei Cleison tão artista quanto qualquer cantor e sempre quis que ele estivesse no palco, porque ele é muito criativo no processo de pensar a luz”.

“Tomás e Miguel já estavam fazendo trilhas para teatro, e eles começaram a querer pesquisar música eletrônica de um modo diferente do ‘tuntz tuntz’ (sic) a que as pessoas estão acostumadas. Daí começamos a estudar um software para fazer os 'beats' e ver como seria isso ao vivo e na produção musical. Então, eu falei pros meninos que queria fazer outro tipo de som que não voz e violão, e que a gente explorasse isso ao vivo. Uma coisa que me incomodava nas gravações de voz e violão era que tudo era muito limpo, muito silencioso, e a gente vive num ambiente muito ruidoso.”, conta Carlinhos.


O NOME


Uma das minhas primeiras perguntas em mente para o músico era se o nome seria uma derivação de sinestesia, fenômeno que significa “sensações ou percepções simultâneas” e que faria total sentido com a proposta do grupo de misturar som e luz numa experiência sensorial única a cada apresentação. Ele me respondeu que “estesia é uma palavra que existe na língua portuguesa, mas a gente só usa a negação dela: anestesia; sendo que ela tem muito a ver com o que a gente ouvia das pessoas que iam nos nossos shows, elas diziam que era uma experiência sensorial. Então adotamos o nome pra significar exatamente isso, essa capacidade de se permitir sentir as coisas”.

© Thaís Ferraz

Carlinhos também contou que além do intuito de fazer as pessoas se permitirem sentir as coisas, o nome ainda sugere uma reflexão sobre o porquê de usarmos sempre sua negação, como se estivéssemos o tempo inteiro suprimindo nossos sentimentos, seja porque dói, seja por motivos de sobrevivência, e que a apresentação seria um momento para abstrair dessa supressão.


ESTESIA CONVIDA

© Thaís Ferraz

Conforme conversamos, Carlinhos confirmou o que já era uma aparência do Estesia: o grupo não se encaixava nos padrões usuais de banda e suas apresentações não se encaixavam nos padrões usuais de shows. Assim, os membros, que já estavam envolvidos com teatro, pensaram nas apresentações como um ato único, num evento formatado para acontecer por temporadas, em que outros artistas, de diversos ramos da arte, pudessem participar e estabelecer um diálogo. Assim nasceu o Estesia Convida, um evento pensado para durar dois meses, com a presença de convidados de diversas vertentes das artes para estabelecer o que eu acho que é o grande diferencial do grupo: o diálogo entre arte, produção e tecnologia, além da própria apresentação. Foi (e é) através do diálogo que os meninos descobriram demandas culturais até então escondidas.


Para iniciar o Estesia Convida, Carlinhos contou que durante o tempo que passou sem trabalhar com música, ele estabeleceu um bom relacionamento com o Porto Digital, um dos recanto de desenvolvimento tecnológico mais promissores do Brasil, onde o grupo ficou “incubado” para testar novas tecnologias para a música, para, como na lógica de uma startup, desenvolver um produto e ver se ele daria certo.


“A ideia era mostrar quem era o Estesia, não importando se estava certo ou errado, mas sem vergonha alguma de mostrar o que a gente tava fazendo e o que a gente pretendia fazer. Às vezes a gente apanhava, às vezes não, gerava uma curiosidade nas pessoas e se a intenção era sair da zona de conforto, ela foi totalmente realizada.” A primeira temporada foi um sucesso, garantindo mais um ano de Estesia Convida, com viagens e nesse meio tempo uma residência no Sesc de São Paulo, cada vez mais tentando encontrar uma identidade que diminuísse a formalidade e estimulasse sempre o diálogo da forma mais fluida possível.


A INCLUSÃO DA PLATEIA

© Thaís Ferraz

Nos dois anos de Estesia Convida e viagens e experiências, o grupo entendeu que, para atingir o ideal de diálogo que era a intenção de seus eventos e apresentações, era preciso acabar com a ideia romantizada de que quem produz música e arte ocupa um patamar inalcançável e cheio de glamour. As temporadas de Estesia Convida provaram que o formato que mais funcionava era o de um “grande happy hour” de ideias e que era necessário quebrar o formato de apresentação em que havia sujeitos ativo (o artista) e passivo (o público).


Assim, o espetáculo do Estesia inclui todo mundo: os músicos, o iluminador cênico, a plateia. Todo mundo recebe luz e fumaça, todo mundo fica no palco, todo mundo interage, todo mundo é inserido no ato, sendo a apresentação um grande diálogo entre os sujeitos, todos ativos, compartilhando sensações de um show muito diferente do usual e, teimo em dizer, inédito no cenário nacional.


RESSIGNIFICANDO AFETIVAMENTE OS ESPAÇOS


Outro traço interessante do Estesia é que, como sua proposta é diferente do formato de show e isso inclui mudanças na logística que afetam os locais em que o grupo se apresenta, os meninos criaram o “conceito espiritual” de ressignificar afetivamente os espaços, ou seja, levar o espetáculo para qualquer lugar - “a gente tocou de corredor de museu a estacionamento do Museu do Estado”, montando a estrutura de luz e som onde quer que fosse, mesmo que isso significasse ter um público menor. Como disse Carlinhos, “é melhor ter 30 pessoas que saiam apaixonadas do que 100 que só achem que viram um show legal”.


APRENDER ENQUANTO FAZ E ACEITAR A IMPREVISIBILIDADE


© Thaís Ferraz

Uma das coisas mais ricas desse papo com Carlinhos foi perceber que, ao contrário do que muitos pensam e do que nossas ansiedades teimam em nos falar, não é esperando as condições ideais aparecerem que o sucesso vem. Muito pelo contrário, é pegar aquilo que se tem e ir colocando em prática mesmo sem saber, experimentando e testando a recepção do público.


“Seria muito bonito dizer que foi tudo pensado e planejado, mas não foi. A gente foi aprendendo enquanto fazia. É muito diferente você ir ao teatro e ficar sentado passivamente vendo uma peça, do que você estar ali no meio, as pessoas interagindo com você de uma maneira imprevisível. No final do espetáculo, é um momento em que o show sai do palco e a gente começa a pintar as pessoas com tinta neon, e aí é quando tudo sai do controle mais ainda, as pessoas dançam, se beijam, se esfregam, é tudo imprevisível”.


Nessa conjuntura foi possível perceber que as pessoas gostam e querem participar, interagir e ocupar os espaços, e mais uma vez a temática do diálogo vem à tona. É um grau de exposição maior, mas proporcional é o grau de participação de quem está ali na “plateia”, que interfere ativamente nas performances e garante que cada espetáculo seja realmente único.


O conceito de interação atinge inclusive os próprios membros, que não se definem como músicos de determinados instrumentos. “Eu mexo em coisas de Miguel, que mexe em coisas minhas, tudo é misturado e pode ficar meio confuso, porque tem que cortar algumas coisas do ego, mas funciona”. Além disso, o grupo utiliza um software no celular que permite que Carlinhos controle efeitos com movimentos dos braços e também permite que a plateia, conectada por uma rede Wi-Fi, também controle efeitos. “Tem dia que sai tudo lindo, tem dia que é desastroso sonoramente, mas é uma maneira que a gente arranjou de comunicar pras pessoas participarem”.


DO ESTESIA CONTEMPLATIVO AO ESTESIA FESTIVO

© Thaís Ferraz

O grupo, mesmo tão novo, já passou por uma mudança de tom, dadas as condições políticas sempre se modificando no cenário nacional e mundial, de forma que os membros passaram a buscar um tom mais festivo, em contraponto ao tom contemplativo que vinha sendo construído desde o início. As mudanças começaram com pequenos passos: tirar as cadeiras, mudar para outros locais, implementar o elemento cerveja. Daí surgiu a ideia brilhante de levar o Estesia para um bar e tentar estabelecer uma conexão público-artista que também funcionasse. Funcionou.


Mais uma vez, com tentativas e erros e improvisos, o Estesia se mostrou atento às necessidades culturais mais sutis e com sensibilidade e diálogo (sim, de novo), conseguiu se sobressair num ambiente tão vasto culturalmente que é o Recife e engajar um número cada vez maior de amigos e fãs que entendem o projeto e entendem a importância de ocupar espaços e conversar entre si.


ESTUDANDO O BREGA E FUTURO

Capa do álbum

O álbum novo do grupo, saído fresquinho do forno no dia 26 de janeiro de 2020, se chama Estudando o Brega. Pode haver uma estranheza para quem está acostumado ao som meio trap meio trip hop do Estesia, mas obviamente existe uma explicação: Tomás, um dos integrantes do grupo, o “homem dos beats”, estava completando o mestrado em música durante os anos em que o Estesia se formou e o tema do mestrado era justamente o bregafunk e naturalmente o “momento bregafunk” foi inserido nas apresentações do grupo. Esse momento, apelidado de “o encontro de Radiohead com ritmo de bregafunk” por Carlinhos, causou catarse geral no público e rapidamente os meninos perceberam ali um campo a ser explorado de maneira nova, incluindo os nomes conhecidos do bregafunk recifense como MC Draak, MC Fantxma e o produtor Marley No Beat, que integram a produção do álbum de 5 faixas.

Para o futuro, Carlinhos contou que no final de 2019, o grupo foi aprovado no edital do FUNCULTURA, recebendo, assim, pela primeira vez, patrocínio governamental para uma nova temporada do Estesia Convida. Além disso, o grupo vai passar uma breve temporada em São Paulo, no Sesc Carmo, dos dias 11 a 14 de fevereiro de 2020 (leitores de São Paulo, essa chance é imperdível!), divulgando sempre a cultura recifense e pernambucana e ocupando cada vez mais espaços com sua arte única.


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