• Letícia Lucena

Greta Van Fleet retorna com o álbum “The Battle at Garden's Gate”: um grande potencial desperdiçado

Sim, Josh [Kiszka], já entendemos que o mundo pode não ser uma maravilha, mas às vezes a gente só quer se distrair com uma boa ficção.

© Alysse Gafkjen

Pouco menos de três anos separam as duas primeiras eras de uma das bandas mais faladas – por bem ou por mal – no cenário do rock atualmente. Neste intervalo, os irmãos Josh, Jake e Sam Kiszka, e o amigo da família e baterista Danny Wagner conseguiram sair da pequena Frankenmuth, no norte dos Estados Unidos, esgotar vários shows pelo mundo, incluindo no lendário anfiteatro Red Rocks, além de conquistarem 4 indicações ao Grammy, levando uma delas em 2019, a de Melhor Álbum de Rock. Entretanto, como o público do gênero é tão exigente quanto é saudosista, era impossível que a banda, que foi prometida por muitos como “a salvação do rock”, saísse ilesa de críticas.


As comparações com o lendário Led Zeppelin não são por acaso, e vão muito além da semelhança entre as vozes de Plant e Kiszka: as vestimentas, os arranjos, referências à J.R.R. Tolkien, e por vezes até os trejeitos dos gêmeos Josh e Jake em palco durante a turnê do álbum “Anthem of the Peaceful Army” flertam com o que Robert Plant, Jimmy Page e companhia faziam em sua época. É claro que se inspirar em um artista que revolucionou a indústria não é errado, mas é necessário atentar-se a linha tênue entre a referência e o caricatura. Em “The Battle at Garden's Gate”, anunciado em dezembro de 2020, a banda pareceu entender que, apesar de olharem bastante para os anos 1970, eles estão no século XXI, e como tal, investir na parte visual de um álbum é sim uma grande parte do projeto, e apresentam uma identidade muito mais sofisticada do que vimos em seus trabalhos anteriores ao substituírem as túnicas, penas e combinações estranhas por uma maior pluralidade de estilos e referências além dos donos de “Stairway to Heaven”, indo de Gram Parsons à Jared Leto e sua “seita”.


A primeira vista, tanto as vestimentas medievais, como o próprio título do álbum, de faixas como “Caravel” e “The Barbarians”, nos vende a ideia de um álbum conceitual inteiramente comprometido com storytelling, abordando cenários imaginários e lendas inspiradas em qualquer grande autor de obras fantásticas (para não mencionar Tolkien mais uma vez), o que seria um passo ousado e interessante para a banda, se não fosse pelos vícios de escrita de Josh Kiszka, que cai na mesmice ao insistir nas mesmas letras sobre crianças e mulheres no mato, a busca pela paz na Terra, e outras várias lamentações. Sim, Josh. Já entendemos que o mundo pode não ser uma maravilha, mas às vezes a gente só quer se distrair com uma boa ficção. Dito isto, o grande ato do disco é “Stardust Chords”, faixa que traz o título do álbum em seus primeiros versos, e nos transporta para uma aventura épica, que se extende por outras poucas faixas, mas que não conseguem atingir o mesmo impacto e nem fazem justiça à tamanha produção visual investida nesta estética.


Apesar das letras beirando o “fake deep” de Kurtis Conner, como “I've seen many people/There are so many people/Some are much younger people/And some are so old”, de “My Way Soon”, um riff um pouco semelhante demais com o de “Black Dog” em “Built By Nations”, instrumentalmente o Greta Van Fleet se mostra muito mais refinado e evoluído do que os ouvimos em seus projetos passados, seja pelo ganho de experiência ou o estúdio de gravação perceptivelmente mais caro, principalmente as guitarras de Jake Kiszka e a bateria de Wagner têm seus momentos de glória. O disco chega ao seu fim com “The Weight of Dreams”, uma faixa de quase 9 minutos cuja metade é tomado por um longo solo de guitarra ousado com toques de psicodelia, flertando com Pink Floyd de uma forma mais criativa e menos direta.


É inegável que “The Battle at Garden’s Gate” é uma evolução considerável da banda, que ainda caminha para encontrar sua própria identidade, entretanto, também aparenta ser um projeto que começou como algo bastante ambicioso que foi perdendo a força no meio do caminho, e preferiu optar pelo comodismo de uma composição com pouca substância, mascarada por uma linguagem rebuscada. No fim das contas, mesmo que ainda falte personalidade ao Greta Van Fleet, o segundo álbum do quarteto é de certa forma um progresso.


Nota: 5,9/10


Ouça ao álbum na íntegra abaixo:


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