• Anna Clara Fonseca

L.A Woman, o último grande trabalho do The Doors

Atualizado: Mai 3

A frase Swan Song é uma metáfora ao grande último trabalho de um artista. O esforço final contempla a conclusão da carreira através de inúmeras contribuições em nome da arte ao longo dos anos. O artista entrega o suspiro final ao mundo. Assim como De Olhos Bem Fechados de Stanley Kubrick e Requiem de Mozart, L.A Woman é o swan song do The Doors.

A curta carreira da banda norte-americana não impediu que fizessem história nos anos 60 e posteriormente no mundo da música. Los Angeles ficou pequeno para comportar o tanto de talento que os teclados de Ray Manzarek conduzia com autenticidade, que os riffs expressivos de Robby Krieger encontrava, com a icônica bateria de John Densmore se comunicava e com os versos poéticos que Jim Morrison entoava com uma emoção genuína. O instrumental enérgico se colidia com o tom barítono de Jim, que até entrar na banda não sabia que poderia cantar. Em uma carta enviada pelo pai, George pede que seu filho desista da música, uma vez que Jim não tinha ideia do que estava fazendo. O pedido nada encarecido não desanimou um dos maiores frontmans do rock e continuou dando tudo de si até seus últimos dias.

Jim Morrison, Ray Manzarek, John Densmore e Robby Krieger.

Foi em 1967 que The Doors deu o primeiro passo ao próprio legado com propostas sonoras diferentes o suficiente para o público estranhar de primeiro momento, mas não os excluindo totalmente. Os lendários acordes de Light My Fire e Break On Through (To The Other Side) trouxe novas perspectivas aos ouvintes da época, preparando para o que viria a seguir com Strange Days lançado no mesmo ano trazendo singles como a homônima Strange Days e People Are Strange. Waiting For The Sun chegou em 1968 com Hello, I Love You e Love Street, escrita para a namorada de Jim, Pamela Courson. Em 1969 foi a vez do álbum experimental The Soft Parade com Touch Me e então alcançamos The Morrison Hotel, o lampejo da volta da banda ao blues, que nos primórdios era o som primordial da banda. A oficialização da volta aconteceu em 1971 no último álbum L.A Woman. Muitos conhecedores sobre música afirmam sem medo de errar que The Doors contêm uma discografia perfeita.


Ray e John são grandes apreciadores do jazz, fato que compôs a base sonora das canções revolucionando ainda mais a mensagem que desejavam transmitir, deixando-a completa em todos os níveis. O blues de L.A Woman se responsabilizou em concluir o legado do The Doors na geração da contracultura, sempre apadrinhados através das letras virtuosas de Morrison, que viria a falecer três meses após a comercialização do álbum.

Eles deixaram o melhor para o final.


O álbum é inaugurado com The Changeling, a primeira música gravada do disco. A canção fala sobre transformações e mudanças, majoritariamente protagonizadas por Morrison. Jim acreditava que se sua mudança acontecer internamente, isso mudará o mundo. Além das questões e decisões que o cantor estava lidando, mudanças também ocorriam a todo momento nos Estados Unidos. Lutas raciais pelo país estavam no auge, a invasão em Camboja, a morte de Martin Luther King, afins. É uma reflexão as transformações em perspectiva, colocando a sua também no jogo. Quando finalizou sua contribuição ao álbum, ele foi embora para Paris com Pam. Como canta nos refrão a pleno pulmões.

Os fins dos shows de Duke Ellington eram marcados pelo mesmo agradecendo a plateia com “we love you madly”. O agradecimento de Ellington se tornou referência a Robby escrever o single do disco, Love Her Madly. A melodia veio enquanto dedilhava uma guitarra de doze cordas, nascendo uma balada romântica contemporânea com riffs de guitarra corpulentos e fortes, fazendo-o lembrar de quando discutia com sua namorada e ela saia batendo a porta no verso “Você não a ama enquanto ela sai por aquela porta?”.

O sistema jurídico não apreciava The Doors, cuja banda representava a revolução aos jovens dos anos 60. Cantavam sobre debater com líderes governamentais e questionar atos feitos pela sociedade, o que acabou rendendo críticas duras dos conservadores da época sobre a índole da banda e do próprio líder. Been Down So Long reflete sobre as vezes que o vocalista precisou lidar com esse público mais difícil. Alguns atos controversos de Jim comprometeram a oportunidade da banda realizar shows em grandes casas de shows nos Estados Unidos.

Se L.A Woman fosse um filme, seria do tipo Noir dos anos 40 protagonizado por Humphrey Bogart e Marlon Brando. A composição apresenta Los Angeles como uma mulher brilhante e irresistivelmente sexy. Ao cantar “Are you a lucky little lady in the City of Light?” (Tradução livre: Você é uma senhorita sortuda na cidade da luz?) faz uma referência ao romance City Of Night, de John Rechy, complementando ainda mais o intuito de tornar a essência da canção sensualmente adulta. Mr. Mojo Risin é um anagrama do nome do próprio Jim Morrison. Mojo é um termo para sexualidade no blues, explica John Desmond no documentário Mr. Mojo Risin – The Story Of L.A Woman. Acrescenta que durante a criação, ele teve uma ideia: “E se eu aumentar lentamente o andamento? Como um orgasmo”.

Não era segredo para ninguém que blues era o gênero musical que a banda se inspirava. A junção do blues e do jazz desde sempre foi um casamento dos deuses e The Doors bebeu da fonte, introduzindo o rock ao lado. Crawling King Snake é uma música do cantor de blues norte-americano John Lee Hooker e a oitava faixa do disco. As voltas às raízes ao gênero que começaram no inicio da carreira encontram-se quando vemos eles nos convidando a conhecer esse lado mais verdadeiro sobre eles.

O talento de Jim Morrison ultrapassa a definição de mero cantor. As composições escritas por ele são vivas, pulsando a cada verso com metáforas intrigantes e complexas. Morrison era um poeta. Provava essa identidade a cada faixa. Uma delas – a mais importante – é a poesia psicodélica The WASP. A história contada cria um cenário regado de referências históricas colidindo sempre com o instrumental expressivo anexado ao baixo icônico de Krieger e a bateria peculiar de Densmore.

A solidão de Hyacinth House confessa o cansaço de relações tóxicas, superficiais a ponto de apenas sugar a vitalidade daqueles que apenas querem encontrar a paz de espírito. O brilho de Morrison era incandescente, atraia todos os tipos de pessoas, incluindo aquelas que queriam usá-lo para benefício próprio. A solitude é finalizada com Riders On The Storm, a última canção do disco e uma das mais importantes da carreira da banda até os dias de hoje. A ideia nasceu da música Ghost Riders In The Sky de Vaugh Monroe. O jazz sombrio acrescentado a barulhos de chuva incorpora uma ambientação torrencial capaz de levar o ouvinte a conhecer os sentimentos de Morrison através de sua voz carregada. O elegante teclado de Manzarek se mantem presente do começo ao fim, unindo-se ao vocal e o tornando sua base. Se forçarmos os ouvidos, conseguimos ouvir Jim sussurrando “riders on the storm” entre os trovões quase no fim da canção. Era a deixa de Jim Morrison do mundo.

L.A Woman representa toda essência do The Doors. A genuinidade da composição de Morrison e o instrumental legítimo conquistou com uma sonoridade extremamente única para qualquer década que L.A Woman ressoar, mesmo após 50 anos do lançamento. Continuará sendo um disco essencial para os apreciadores de música. A competência em fechar o ciclo de uma banda tão incrível como The Doors e seus membros é feita com maestria. Ray cita no documentário que os antigos egípcios diziam que se você diz o nome de um homem, ele está vivo. Então…

The Doors.




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