• Anna Clara Fonseca

[My 00's] O Castelo Animado e a beleza que não vemos

Atualizado: Nov 21


“Howl, você acha que está numa pior? Pois eu nunca fui bonita em toda minha vida.”


Essa é uma das frases ditas em plenos pulmões com lágrimas nos olhos por Sophie, a protagonista de O Castelo Animado. A bondade enraizada em soma com sua determinação involuntária flertava com sentimentos singelos de um coração extremamente poderoso. Entretanto, nem toda beleza do mundo a deixava enxergar todas qualidades que listei acima sobre ela. Hoje, infelizmente, existem muitas Sophie’s ai chorando em negar ou desconhecer a singularidade encantadora que emana do coração delas.


A adaptação do romance de Diana Wynne Jones ficou responsável pelo estúdio de animação japonês Ghibli, sendo produzido e dirigido por Hayao Miyazaki e lançado em novembro de 2004. Conta a história de Sophie, uma jovem tranquila e pacata que cuida da chapelaria da família e não tem muitas expectativas sobre si mesma. Sua vida toma um rumo totalmente diferente quando a Bruxa das Terras Abandonadas joga um feitiço sobre ela, envelhecendo-a como uma senhora de 90 anos. Como não quer que ninguém a veja daquele jeito, ela encontra refúgio no castelo mágico do temido mago Howl.


Não precisamos de análises completas do Médium para entender a mensagem central do filme. O amor é o tema que percorre a história fascinante dos personagens, o encontrando com eles em momentos cruciais de suas vidas. É difícil encontrar alguém que tenha assistido e não tenha se apaixonado pelo romance entre os protagonistas, Howl e Sophie, que ultrapassa preconceitos de uma sociedade que acha que sabe tudo sobre todo mundo ou o amor verdadeiro que ambos carregam um pelo outro. De fato, a animação entrega sem rodeios o que o sentimento pode fazer na vida de alguém e tiramos uma lição valiosa dele, como qualquer outra animação do Ghibli.


Porém, e se eu te dissesse que o filme concede outra lição? Esta mensagem, mais subliminar e furtiva, é responsável em manifestar os sentimentos e ações revolucionárias da protagonista em relação a circunstância extraordinária a sua frente.


Muito além do amor romântico, a animação reflete a caminhada vasta e sinuosa do amor próprio.


Sophie é uma das minhas personagens favoritas. Parando para pensar acima desse fato atualmente, uma das razões pelas quais gosto tanto dela é porque me vejo nela. Compartilhamos dos mesmos complexos com autoestima e falta de confiança, por mais que atos e sinais digam ao contrário. A visão de Sophie está muito embaçada com a cortina de insegurança que cobre seus olhos. Volta e meia, anuncia furtivamente a visão nada simpática que tem sobre ela, desde aparência até percepções do mundo. Quando a Bruxa das Terras Abandonadas lança o feitiço contra Sophie, deixando-a com a aparência de uma idosa de 90 anos, nos deparamos como Sophie se enxerga. O feitiço nada mais é do que uma metáfora a exteriorização de como a própria se vê diante ao mundo.


Trazendo esta discussão para o nosso mundo, quem tem muito a dizer sobre auto imagem é a criadora de conteúdo Jout Jout, dona de um arsenal de vídeos necessários. Em um deles onde dá dicas sobre amor próprio; aquilo que todos obrigam a termos, mas que ninguém instrui como faz. Uma das primeiras se consiste em se rodear de pessoas que te elevam ou que dão a mesma importância para coisas do mesmo jeito que você dá. Isso me faz lembrar de uma frase dita por Freud: “Antes de diagnosticar a si mesmo com baixa autoestima, primeiro tenha certeza de que você não está, de fato, cercado por idiotas.”


Pensando através dessa ótica e trazendo para a realidade de Sophie, sua vida solitária torna a presença dela quase invisível a sociedade. A mãe e a irmã caçula estão sempre ocupadas, apressadas com preocupações externas e deixando-a sozinha na chapelaria. A solitude de Sophie coexiste ao lado de pessoas que não dão abertura para a própria se sentir amada e confiante para ser quem quiser. Ela não conhece a força e peso que tem no seu próprio mundo.


Agora a história é outra quando estamos ao lado daqueles que emprestam a visão deles para enxergar as qualidades nunca vistas, muito menos reconhecidas. Cuidado e importância são sentimentos primordiais em qualquer relação, é o que preenche o coração e luta contra os pensamentos negativos nos momentos de fraqueza. Foi assim que Sophie começou a sentir quando começou a morar no castelo.


Sua metamorfose ocorre aos poucos, sem deixar de ser extremamente efetiva. Agora ela está ao lado de pessoas (e demônios?) que se importam e gostam dela de verdade. Eles acreditam e valorizam as qualidades, reconhecendo o impacto revolucionário da presença dela no castelo. Calcifer e Marco realmente enxergam ela de verdade, não sendo apenas a irmã mais velha ou uma chapeleira que trabalha arduamente. A estadia no Castelo promove comportamentos mais confiantes e atos corajosos. Por exemplo, quando vai até a primeira ministra a pedido do Howl se passando como sua mãe ou quando leva sua maior inimiga para casa.


Todas essas pequenas experiências leva nossa protagonista/heroína salvar Howl, seu verdadeiro amor e o precursor do processo. Ele representa a porta de entrada para encontrar a visão mais gentil dela mesma, fazendo-a enxergar aquele lado totalmente ignorado por ela. Até porque encontrar o amor próprio não tem haver só sobre nós, mas também a visão que temos sobre o mundo.



Uma coisa interessante sobre Howl em relação ao olhar dele para Sophie. Algumas vezes, ao olhar para ela, ele não enxerga o feitiço. Ele enxerga a verdadeira Sophie. Howl conhece o coração dela e não há feitiço algum que o faça olhar diferente. A aparência envelhecida deixa de ser o menor dos problemas quando está ao lado daqueles que a ama. O que nos leva a pensar que o feitiço existe sim. Mas provavelmente exista muito mais para Sophie do que para aqueles que conhecem ela de fato.


Conforme o filme vai chegando ao fim, o feitiço também vai caindo por terra, voltando a sua verdadeira aparência. Sophie salvou a todos, incluindo o coração de Howl, quando acreditou e confiou nela mesma, percebendo que é mais forte do que poderia imaginar. Faltava apenas alguém para mostrar isso para ela. Quando passamos a reconhecer e entender nossas maiores forças, podemos salvar não só a nós mesmos, como também aqueles que estão ao nosso redor.



O Castelo Animado reflete sobre o amor. Além do belo romance principal, a película discursa a dimensão inovadora do amor próprio e que não estamos sozinhos com nossos demônios. Estar ao lado daqueles que nos faça se sentir amados e importante influência na visão que desenvolvemos sobre nós mesmos. Sophie morava em uma casa grande em uma bela cidade com paisagens lindas, mas foi em um pequeno castelo andante caindo aos pedaços que conheceu sua verdadeira beleza e como esse conhecimento mudou sua vida para sempre.


“O coração é um fardo pesado”.


Disponivel: Netflix

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