• Anna Clara Fonseca

[oldie goldie] A Wizard, A True Star, o criador da psicodélia moderna


Houve um tempo onde o gênero psicodélico tomava conta da cena musical. A exploração dos limites sonoros e brincadeiras com sintetizadores criaram uma gama de possibilidades curiosamente interessantes com ideias nada frívolas e prontas para deixar sua marca na mente das pessoas. Algumas bandas de renome iniciaram suas carreiras com o gênero como Pink Floyd no álbum de estreia The Piper at the Gates Of Dawn em 1967, o que faz todo sentido se tratando do ano em que foi lançado. O auge do gênero alucinógeno pairou entre os anos 60 e 70 com o advento do LSD, que muitos músicos afirmam terem tido contato com a droga de maneira recreativa para auxiliar em composições e melodias. O século XXI também tem representantes responsáveis em trazer suas contribuições excêntricas como Ariel Pink, Tame Impala, Temples e MGMT. Contudo, para que fosse possível tais bandas exporem suas criações e serem recebidas positivamente, alguém chamado Todd Rundgren precisou correr para que pudessem andar.


Capa do álbum A Wizard, A True Star feita por Arthur Wood.

O quarto projeto de Rundgren viria ao mundo em março de 1972. O disco pisciano A Wizard, A True Star celebra o rompimento do pop simples, contando com apostas mais ousadas em termos sonoros e composições mais adversas, captando a ideia que os jovens estavam interessados na época em sentir os efeitos da droga acompanhada da música e desenvolveu o que gosto de chamar ‘albúm-experiência’. Muito mais que apenas um compilado de músicas, vai além entre criar uma atmosfera capaz de transportar o ouvinte numa frequência de entretenimento único. Todo desenvolvimento se deve a experimentação de Rundgren com as drogas psicodélicas, permitindo que fosse ousado o suficiente em apresentar ‘como era a música e som que ressoava no seu interior e como era diferente do que ele estava fazendo’.

Um dos maiores sucessos da carreira de Todd veio com o álbum pop Something/Anything. O single principal I Saw The Light alcançou a 16º posição na Billboard 200 e Hello It 's Me chegou na 5º posição. Ambas canções se distanciam claramente do que viria a seguir e essa distância é clara desde o primeiro momento com a inauguração do álbum com Internacional Feel, abusando dos sintetizadores e deixando sua presença em todos os lugares. O space-pop palpitante e envolvente nos leva para conhecer a faixa seguinte, Never Never Land, uma adaptação diferenciada e orquestrada do número de Peter Pan da Broadway. A personalidade de Peter Pan não era difícil de adaptar em shows de Todd, com ele tipicamente atuando com cabelo multicolorido, maquiagem pesada, penas e insetos coloridos.

Todd Rundgren na NBC'S The Midnight Special em dezembro de 1973 | Lynn Goldsmith.

A mudança que Tic Tic Tic It Wears Off traz está ao lado do ritmo frenético de You Need Your Hear discursando sobre basicamente não explorarmos a criatividade que reside em nossas mentes, nos limitando apenas nos sentidos primários e se esquecendo que podemos ir mais além se ‘usássemos a nossa cabeça’, como cita repetidamente. Rock and Roll Pussy é uma homenagem aos músicos que cantam sobre mudar o mundo, mas que não fazem nada a respeito. Em determinado momento o trecho “get up and see / Revolution on the tv” (levante e veja a revolução pela tv, em tradução livre) seria uma referência a John Lennon e sua música Revolution. Em setembro de 1973, Rundgren deu uma entrevista para a revista musical britânica Melody Maker, onde disse: "John Lennon não é nenhum revolucionário. Gritando sobre revolução e agindo como um idiota. Isso só faz as pessoas se sentirem desconfortáveis. Tudo o que ele realmente quer fazer é chamar a atenção para si mesmo, e se a revolução conseguir essa atenção, ele vai conseguir atenção por meio da revolução.” Mais tarde, ele disse que a música não era especificamente para Lennon, e sim, a ideia de conversa versus ação, podendo se encaixar para qualquer pessoa.

O interlúdio Dogfight Giggle mistura sons distintos de cachorros rosnando até alcançar You Don’t Have To Camp Around refletindo sobre inocência e proteção materna. A pluralidade de sons em Flamingo consegue ser uma loucura sem perder seu charme enquanto a poesia de Zen Archer transmite metáforas fantasiosas com a junção perspicaz do instrumental atraente muito elogiado pela crítica, considerada por Ron Ross, de A Phonograph Record, como “a conquista mais linda de Todd até agora”. O humor ácido de Just Another Onionhead/Dada Dali brinca com a imaginação ao criticar o senso comum parafraseando o comediante estadunidense Groucho Marx em ‘you’re just another onionhead’ (você é mais uma cabeça de cebola, em tradução livre). O icônico início de When The Shit Hits The Fan/Sunset Blvd cria um cenário sobre voltar para o lugar de onde veio quando ‘a merda bater no ventilador’ e Le Feel Internacional finaliza a primeira parte do disco.

Todd Rundgren na NBC'S The Midnight Special em dezembro de 1973 | Lynn Goldsmith.

Os vocais limpos de Rundgren abre a segunda parte com Sometimes I Don't Know What To Feel para compartilhar a guerra de estar apático às situações em sua volta e não poder fazer nada sobre isso. A questão levantada em Does Anybody Love You? discute sobre amor e comunicar seus sentimentos de forma genuína, reflexão que permeia o medley de canções soul como I’m So Proud de Curtis Mayfield, Ooh Baby Baby de Smokey Robinson e Pete Moore, La La Means I Love You de William Hart e Thom Bell e Cool Jerk de Donald Storball. Ele explica o motivo do medley: “É como abrir um buraco na sua memória e de repente essas memórias - discos de alma que você amou, digamos - começam a vazar sabe-se lá de onde. Esse é outro aspecto das drogas psicodélicas. Às vezes, ouvir e ver coisas que não seriam familiares para você se você não fosse tão psicodélico. De repente, você os vê de forma diferente e eles transmitem um significado diferente. " O jazz de Hungry For Love cresce no refrão colocando em evidência a presença marcante do piano e bateria. I Don’t Wanna To Tie You Down abre mão do amor que sente para deixar a pessoa viver, não quer prender ninguém e reconhece a injustiça que isso seria. Em It Is My Name? A força instrumental mostra seus lados mais fortes e os leva a outro nível acompanhado do vocal forte e robusto de Todd, que segue limpo na última canção do disco, Just One Victory, agora em tom celebrativo cantando sobre cada um tem seu momento de vitória e que chega para todos. Mesmo com contratempos, somos uma estrela com um brilho incandescente. Uma bela forma para finalizar um disco tão autêntico como esse.

A capa do álbum foi feita por Arthur Wood. Ele incluiu símbolos crípticos que quando decifradas, temos as seguintes mensagens: “Eu, Arthur Wood, pintou isso“, “Seja fiel às suas palavras, e suas palavras serão verdadeiras para você”, “Seja fiel a si mesmo e ao seu trabalho“, “Eu serei tão verdadeiro para você quanto eu puder” e “A ternura é o segredo do amor, tanto quanto posso ver. – Todd Rundgren“.

A ousada criatividade de A Wizard, A True Star agradou a crítica e músicos da época, menos as vendas. Sua fama foi ofuscada pelo single ‘Hello It' s Me’, que só ganhou notoriedade no final de 1973 quando as rádios começaram a tocar nas rádios. A Wizard, A True Star era mais desafiadora que o single tocada repetidamente na rádio, menos acessível por não ter singles únicos. Mas isso nunca foi o propósito de Rundgren sobre um disco que contribuiu na sua evolução musical de inúmeras formas, colocando a perspectiva comercial em segundo plano. Com 19 músicas e com quase 56 minutos de execução, se tornou um dos discos mais longos até hoje. Em 2006 o álbum foi incluído no livro 1001 Álbuns que você deve ouvir antes de morrer.

Toda produção do disco foi comandada por Todd. Desde a criação técnica até nos últimos processos de finalização. Sua alma está em cada riff, em cada toque no teclado e em cada sentimento exposto. A coragem que teve em colocar no mundo aquilo que estava dentro dele por tanto tempo foi crucial para a existência de álbuns como Pom Pom de Ariel Pink. A interligação entre uma faixa e outra cria uma narrativa inovadora e entrega uma pluralidade musical em vários níveis. O quão visionário ele foi em abrir a mente de uma década onde a tradicionalidade ainda era requisitada, ao mesmo tempo onde muitas ideias nasciam. A Wizard A True Star quebrou paradigmas sonoros em desenvolver uma áurea mágica, alcançando o fantástico de uma forma que só uma mente como Todd Rundgren poderia criar.




















Fontes: 1 | 2



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