• Anna Clara Fonseca

[oldie goldie] Breakfast In America e a desilusão hollywoodiana

A década setentista colocou em perspectiva o brilhantismo de vários artistas com hits singles que funcionam extremamente bem até os dias atuais. Entretanto, algumas vezes acontece das pessoas não conectarem a música popular com a banda específica. Tenho certeza que todo mundo já ouviu Supertramp alguma vez na vida. O grande hit do tiktok 'Cupid's Chokehold / Breakfast In America’ da banda Gym Class Heroes usa a sample de uma das músicas mais famosas dos anos 70. Então, sim. Se você é assíduo nas redes sociais, sem dúvidas, já ouviu eles.


Supertramp em maio de 1977 | Michael Putland/Getty Images

Sob o nome de Daddy e formada em 1969, a banda era a esperança do milionário holandês Stanley ‘Sam’ August Miesegaes. Ele estava desapontado com o fracasso da banda que financiava, a The Joint, e decidiu cancelá-la, dando a oportunidade para o tecladista Rick Davies montar a sua própria banda.


Após colocar um anúncio na revista Melody Maker, um dos jornais mais importantes sobre música do Reino Unido na época, Davies reuniu três integrantes para compor a banda, entre eles Roger Hodgson. Três novos membros foram recrutados em 1973. Dougie Thomson, Bob Siebenberg e John Helliwell eram os que faltavam para desenvolver as asas. O voo iria vir daqui alguns anos. Agora a banda se chamava Supertramp. Eles renunciaram para não ter conflitos com outra banda Daddy Longleg. A ideia para o novo nome veio da obra de William Henry Davies, The Autobiography of a Super-Tramp.

A notoriedade os atingiu em 1974 com o disco Crime of the Century. Alcançou a quarta posição no Reino Unido, Nº 38 nos EUA e 1º no Canadá. O Crisis? What Crisis? foi lançado em 1975 e precisou ser gravado em poucos meses entre duas turnês programadas, reciclando algumas canções não utilizadas no álbum anterior. Algum tempo atrás, eles assumiram que não consideram o disco como o momento favorito deles. Even in the Quietest Moments veio em 1977, junto com o hit Give A Little Bit atingindo a posição 15º nos EUA e 29º no Reino Unido.

Capa do disco Breakfast In America

Eles bateram asas ao estrelato com o inesquecível Breakfast In America. Lançado em março de 1979, ele atingiu a 3º posição no Reino Unido e a primeira nos EUA e Canadá. As faixas como The Logical Song, Goodbye Stranger, Take the Long Way Home e a homônima foram um sucesso estrondoso.


A atmosfera que inicia o álbum em Gone Hollywood se encontra flertando com saxofone e bateria, tornando a experiência marcante desde o começo. Rick Davies foi o compositor, ele e Hodgson comandam os vocais principais. A junção do saxofone, guitarra, teclado e bateria cria uma sonoridade incrível. Uma das marcas da banda é esse elo entre os instrumentos dando uma originalidade no som. A desilusão frustrante ao chegar em Hollywood e ver que tudo aquilo não era nada demais é um dos principais temas da canção, assunto desenvolvido até o fim do disco.

Os acordes iniciais de The Logical Song seguidos do baixo a torna inesquecível, se sustenta sem esforço algum abusando daquilo que sabe fazer de melhor, entregando uma das músicas mais completas daquela década. Roger reconhece a popularidade do single: “É consistentemente uma das canções mais populares no set e uma onda de alegria atinge a plateia quando ouvem os primeiros acordes. Eu nunca poderia ter imaginado quando escrevi esta canção aos 19 anos que estaria ganhando popularidade, se isso é mesmo possível, mais de 40 anos mais tarde. É a qualidade lúdica, divertida e eufórica que as pessoas gostam de ouvir e cantar junto.” .

Goodbye Stranger é sempre lembrada com carinho por participar de trilhas sonoras de filmes ou séries, como foi em The Office quando Michael Scott dedica a Toby na festa no estacionamento da Dunder Mifflin (com algumas mudanças pessoais). A metafórica composição combina muito bem com o instrumental criativo e corpulento, com grande presença do piano elétrico e da bateria trazendo vocais finos de Davies, diferente da proposta que a canção seguinte tem a dizer. Breakfast in America, um dos carro-chefe do álbum e da carreira da banda, diz muito com sua sonoridade inesquecivelmente irresistível, sendo possível escutar a junção de tantos instrumentos coexistindo tão bem entre eles.

Oh Darling e Just Another Nervous Wreck seguem com a sonoridade mais alegre com vocais fortes e trincando com a força dos instrumentos enquanto Take The Long Way Home e Lord Is Mine lidam com o épico, informando histórias não convencionais da maneira mais Supertramp que existe com a presença mais forte, agora, do piano e da gaita. Casual Conversations cantada pela voz melódica de Davies tenta manter uma conversa sincera com o ouvinte, tentando fazer entender seu lado quando o outro lado não se importa com o que tem a dizer.


Rex | The Independent

Child Of Vision fecha o álbum de um jeito que conseguiu englobar em apenas uma música toda ideia do disco. O distinto piano elétrico é o instrumento principal, junto com solos de piano e saxofone ao fim da letra. O refrão eleva o som com vocais de Hodgson, Davies e John Helliwell, se encaminhando para um solo de piano poderoso. Roger diz que a música foi escrita para ser um olhar distante ao modo de vida dos estadunidenses, mesmo que conhecesse apenas a superfície sobre o mesmo. Apesar de muitos interpretarem o disco como uma sátira à cultura estadunidense, os integrantes da banda assumem que foi mera coincidência e que não há sátira alguma.

O significativo legado do Supertramp é o que os mantém relevantes e atuais. Eles trouxeram o futuro para o presente daquela década, elevando o padrão sonoro e lírico em níveis astronômicos, tornando possível a junção entre instrumentos distintos e criar uma arte inesquecível a partir disso. Supertramp se tornou referência para muitas bandas que ouvimos atualmente pelo fato de enxergar a música como uma possibilidade de mudar a realidade que os cercavam, e foi isso que eles fizeram.



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