• Anna Clara Fonseca

[oldie goldie] Moondance e a elegância de se reinventar

A nuvem criativa que paira sobre os artistas consegue extrair o melhor deles, seja apresentando desafios ou lidando com o autoconhecimento e no final tudo se torna arte. Algumas vezes o artista deseja seguir o próprio instinto, trabalhando em projetos mais artísticos e complexos, e era assim que Van Morrison se sentia sobre seu segundo álbum Astral Weeks lançado em novembro de 1968. Composto por Morrison e produzido por Lewis Merenstein, Astral Weeks teve um lançamento tímido e não teve grande sucesso no início com o público e críticos - apesar de Bob Dylan gostar bastante do álbum -, só depois de algum tempo que começou a ganhar o devido reconhecimento e hoje é sempre lembrada em listas de álbuns mais importantes de todos os tempos. A experiência fez com que Van pensasse de forma diferente na produção do próximo. Se chamaria Moondance.

Como desejava que dessa vez fosse diferente, Van e sua esposa, Janet Planet, se mudaram para perto de Woodstock em Nova York, numa casa no topo da montanha em Catskill, um vilarejo no interior da cidade com uma comunidade artística. Morrison queria se tornar amigo de Dylan, confessa Janet. “Cada vez que passávamos pela casa de Dylan, Van apenas olhava melancolicamente pela janela para a estrada de cascalho que conduzia à casa de Dylan. Ele pensava que Dylan era o único contemporâneo digno de sua atenção."

Capa do álbum Moondance

Morrison começou a escrever Moondance em julho de 1969 com o intuito de explorar algo mais atraente para o público. O abstrato folk jazz predominante no álbum anterior não trouxe o retorno que esperava. Ele diz: “Eu faço discos principalmente para vendê-los e se eu for muito longe, muitas pessoas não conseguem se identificar com isso. Tive de esquecer a coisa artística porque não fazia sentido do ponto de vista prático. É preciso viver.” Sua musicalidade tomou direções mais simplistas nas composições (todas compostas por ele) expressando sua visão sobre romance, natureza, renovação, auto-afirmação e renovação espiritual. Sonoramente, conseguimos encontrar uma bela junção entre soul, rock, jazz, pop e até folk irlandês, país de origem do cantor. Lewis Merenstein – o mesmo de Astral Weeks – e próprio Van Morrison foram os produtores do álbum. Entraram no estúdio em Nova York, A & R Studios, com os músicos selecionados por ele e por lá passou quase todo o segundo semestre de 1969.

O sentimento de ecstasy em testemunhar a magia da natureza é retratado em And It Stoned Me. Em sua biografia “Too Late To Stop Now”, ele explica que o significado da letra é baseado numa situação que viveu quando criança. "Acho que tinha uns 12 anos. Costumávamos ir a um lugar chamado Ballystockart para pescar. Paramos na aldeia no caminho até este. Fui a uma casinha de pedra e lá estava um velho com a pele escura e castigada pelo tempo, e perguntamos se ele tinha água e ele nos deu um pouco de água que disse ter tirado do riacho. Bebemos um pouco e tudo pareceu parar para mim. O tempo parou. Por cinco minutos tudo ficou muito quieto e eu estava nesta 'outra dimensão'. É sobre isso que a música fala. "

O suingue sensual iniciado com icônicas notas no piano Jeff Labes em Moondance comanda um ritmo envolvente com uma letra romântica convidando para passar mais uma dança com ele. Conseguimos sentir o jazz facilmente com a grande presença do saxofone de Jack Schoer e da flauta de Collin Tilton. O baixo corpudo de John Klingberg rege uma elegância durante toda canção, concedendo um background intrigante e eletrizante. Muito diferente dos acordes espirituosos de Crazy In Love. Apoiado por um coro feminino atrás, sua voz está em falsete sendo cantada bem próximo do microfone podendo ser possível ouvir os movimentos ocorridos dentro de sua boca.


Janet Planet e Van Morrison em 1969 por Elliot Landy

Um dos assuntos favoritos de Van é sobre a vida dos ciganos e decidiu explorar a temática em Caravan e Into The Mystic. O tom de celebração é sentido nos vocais como se estivesse sentindo o momento da sua vida ao incorporar o coro no final de Caravan. O folk com belos acordes da guitarra completa perfeitamente os acordes do órgão de Jeff Labes, deixando a vibe espiritual ainda mais palpável para o público. O ritmo muda drasticamente em Come Running, descrita por Morrison como uma canção mais leve, apenas uma música de boa sorte. A presença do saxofone na virtuosa These Dreams Of You é inegável, contando com uma composição sobre simultaneamente usar um tom acusatório e reconfortante. A ideia para Brand New Day veio após ouvir The Weight da banda folk norte-americana The Band tocando na rádio. “Eu olhei para o céu e o sol começou a brilhar e tudo de um de repente, a música simplesmente veio à minha cabeça. Comecei a escrevê-la, desde 'Quando todas as nuvens negras rolarem”. Everyone e Glad Tidings são responsáveis em concluir um disco espirituoso com melodias mais espirituosas ainda em nome da celebração da vida e da esperança.


Van Morrison por Elliot Landy.

A reação imediata da crítica em relação a Moondance foi imediata. O jornalista e crítico musical Greil Marcus e Lester Bangs saudaram o disco como uma obra de "invenção musical e confiança lírica”, para a revista Rolling Stone. Conquistou espaço no top 30 da para de álbuns nos Estados Unidos e o top 40 do Reino Unido, ganhando a devida visibilidade e se estabelecendo com sucesso como um cantor e compositor jovem comercialmente bem sucedido, além de conseguir a redenção que desejava com o público. Morrison nos mostrou com elegância e sofisticação que a arte pode ser simples, e ainda sim, tocava nos pontos mais profundos dos nossos corações. Moondance honra com esmero o ditado de que menos é mais.



Fontes: 1 | 2

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