• Anna Clara Fonseca

[oldie goldie] Tumbleweed Connection e a coexistência da compaixão

Hermann Hesse diz em sua obra Demian que quem quiser nascer tem que destruir um mundo. Tudo muda quando entendemos que esses mundos podem ser a zona de conforto que impede de vivermos a vida que sonhamos. É necessário muita coragem para enfrentar tudo e todos para viver o que desejamos, uma vez que o sonho não coexiste com a realidade. O mundo pode mudar para sempre com uma simples ação. Para o jovem britânico natural de Pinner conhecido como Reginald Dwight, o primeiro mundo que seria destruído por ele para começar sua revolução pessoal seria a mudança de seu nome. Não poderia ser um músico de renome com um nome daquele, era simples e cafona. Queria algo que chamasse atenção e ficasse na mente das pessoas. Começou a pensar nos integrantes da banda que participava, a Bluesology, e se lembrou do saxofonista Elton Dean e do líder da banda, além de grande amigo, Long John Baldry. Elton John. Soava bem, original e notável. A partir daquele momentos, os anos seguintes não seriam mais o mesmo e o mundo da música mudaria para sempre com a presença de um dos artistas mais importantes do século XX até hoje.


Bernie e Elton para o álbum 'Tumbleweed Connection'.

Após deixar a grupo de blues que participou durante boa parte de sua adolescência como pianista e tendo a oportunidade de trabalhar com artistas como Major Lance e Patti LaBelle and the Bluebelles, foi em 1967 que Elton respondeu o anúncio na revista britânica New Musical Express colocado por Ray Williams, gerente de A&R da Liberty Records. No primeiro encontro com Ray resultou Elton levando um envelope de outra pessoa que respondeu o mesmo anúncio. Com Bernie Taupin escrito no remetente, Elton viria a conhecer o letrista suas músicas, uma parceria que perdurou por mais de 40 anos. A conexão imediata entre eles transbordou para todos os lados, completando um ao outro musicalmente no que careciam de atenção. Respeitavam a visão que tinham sobre o mesmo assunto, transformavam para ser uma criação de ambos, tornando o público a conhecer letras marcantes e belas composições capazes de atingir o ponto mais íntimo dos nossos corações. Mais do que apenas trabalho, Bernie se tornou o melhor amigo de Elton, o irmão que nunca teve. A parceria-amizade entre eles continua viva e forte até hoje. Bernie é uma figura fundamental na carreira de Elton enquanto Elton é o principal porta-voz da arte de Bernie.


O primeiro álbum, 'Empty Sky', lançado em 1969, não teve um lançamento expressivo. A tímida promoção impossibilitou a atenção do público e não alcançou notoriedade imediata, sendo reconhecido pela crítica como o álbum sem “pedras preciosas perdidas mas apresentando o potencial de Elton”. Esse potencial seria explorado num nível superior no ano seguinte, em abril de 1970, quando foi a vez do aclamado álbum 'Elton John' tentar a chance, e para a surpresa de todos - incluindo dos próprios criadores -, acertaram em cheio. O disco trabalha com um instrumental autêntico, ora orquestrado, ora carregado de guitarra e baterias, a todo tempo sendo o prelúdio do que encontramos no som de Elton no futuro: acentuado e singular.


Elton John para 'Tumbleweed Connection'.

A natureza precisa da arte de Elton e Bernie seguiu afiada na produção do terceiro álbum, Tumbleweed Connection. Foi gravado em março de 1970 e lançado em outubro daquele ano. Elton compartilhou em sua biografia, 'Eu', como a gravação do disco foi rápida. “É como se fazia na época. Ninguém levava três anos para gravar um álbum. Gravava-se rápido, lançava-se logo, aproveitava a maré favorável trazendo sempre alguma novidade. A mim caia bem. Odeio perder tempo no estúdio. Creio se tratar de herança da época de músico contratado ou daquelas gravações de demos na calada da noite na DJM, estávamos sempre trabalhando contra o relógio”.


A promoção do disco aconteceria para grandes públicos, uma vez que entrariam em turnê com algumas bandas, sendo a atração de abertura tocando com Leon Russell, The Byrds, The Kinks, entre outros. A estratégia do agente de shows da época, Howard Rose, era atrair o público com a abertura, deixando nas pessoas o gostinho de voltar e assistir a um show completo. Com um repertório de peso como o do Tumbleweed Connection, não foi surpresa quando o disco conseguiu o status de “Disco de Ouro” sem single algum nos Estados Unidos.


Se Empty Sky ficou conhecido por não ter nenhuma faixa memorável, Tumbleweed Connection pode ser considerado o baú de tesouros da discografia de Elton. A virtuosidade está não apenas nas letras, como também se revela na pluralidade sonora entre uma faixa e outra composta por melodias robustas e consistentes ao conteúdo lírico, concedendo uma experiência diferente dos dois últimos álbuns. Mesmo que o rock seja o gênero predominante durante os 46:56 minutos de duração do disco, se apresenta com ramificações como country, roots, soft, pop e americana.


Capa do álbum 'Tumbleweed Connection' lançado em outubro de 1970.

O início de Ballad Of A Well-Known Gun é responsável em ambientalizar o ouvinte, preparando o terreno para encontrar uma vivência sonora com direito a um instrumental de respeito e vocais ornando perfeitamente. Escrita por Bernie, Come Down In Time foi gravada para estar no disco anterior porém decidiram deixar de fora, o que não foi nenhum problema. A música combinaria em ambos contextos. A introdução vem atrás dos acordes delicados da harpa crescendo com acordes de guitarra. Paul Buckmaster, condutor da orquestra, traz o oboé e cordas criando um estado lamurioso e sensível, casando com maestria com a letra que relata um encontro entre um homem e sua amante. Enquanto o homem vai até o ponto de encontro, se pergunta se ela estará lá ou será deixado sozinho para contar as estrelas. A discussão e morte entre dois homens que não seguem a regra de ouro debatida na frenética Son Of Your Father é acompanhada com a gaita de Ian Duck, fazendo com que sua presença não seja esquecida. Segundo John, My Father 's Gun era uma das músicas favoritas de Bob Dylan quando se conheceram em 1970. Conta sobre um jovem cujo pai foi morto durante a Guerra Civil Americana. Após enterrá-lo, a arma de seu pai o acompanha ao se juntar à luta, esperando pelo futuro que foi tirado de seu pai.


Bernie diz que o álbum foi escrito e gravado antes de estarem nos Estados Unidos. Foi totalmente inspirado no álbum ‘Music From Big Pink’ da banda The Band e nas letras de Robbie Robertson, compositor e guitarrista da The Band. "Liricamente e melodicamente, esse é provavelmente um dos nossos álbuns mais perfeitos. Não acho que haja nenhuma música lá que não se encaixe melodicamente na letra." diz Elton.


Talvez a canção que consegue definir a fala de John com maestria seja a espirituosa Where To Now St. Peter. Responsável por uma das composições mais lindas de todas, o piano alcança a voz de Elton com espontaneidade, transmitindo algo até que épico e colidindo com a letra genuína de Bernie, questionando qual caminho a seguir no destino final sobre céu ou inferno contada através do ponto de vista de um soldado moribundo. Conforme vai crescendo, sua forma vai se tornando grandiosa com vocais de fundo e riffs de guitarra de Caleb Quaye. Love Song é a única música do disco que não foi escrita e composta por Bernie e Elton, e sim por Lesley Duncan. O acústico refletindo sobre a motivação do amor na vida do ser humano segue rumo diferente de Amoreena, que anseia poder ver um ente querido distante. O rock country lidera a atmosfera desde o início, permitindo encontrar o refrão escrachado e diminuir a intensidade até voltar com sua força para finalizar. Um fato interessante é saber que o da filha de Ray Williams se chama Amoreena por causa da música.


Elton e o baterista Nigel Olsson e o baixista Dee Murray em 1970.

Influenciada pelo compositor David Ackles, Talking Old Soldiers disseca assuntos como solidão e luto após ver tantos companheiros mortos em nome da guerra. A conclusão do disco está em Burn Down The Mission onde conta a história sobre uma comunidade oprimida por uma força rica e poderosa, fazendo com que o nosso narrador, motivado por alguma verdade, decide agir a fim de remediar a situação. Porém ele acaba sendo levado embora para cumprir seu destino e justifica suas ações como uma tentativa de defender sua família. A música é refletida enquanto a narrativa está acontecendo. Apresentando o personagem e sua realidade com acordes de piano e conforme vai seguindo seu progresso, a música também vai crescendo. Quando é levado e sendo obrigado a ficar longe da família, volta ao estado discreto refletindo na situação do personagem.


Em 2012 o álbum entrou para lista de 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos pela revista Rolling Stone, e não é por acaso, como boa parte da discografia do Elton. Tumbleweed Connection manifesta o intelecto do repertório a partir de uma história contada a cada canção, refletindo sobre humanidade e amor num contexto onde ambos são praticamente inexistentes. Foi ali que a parceria Elton-Bernie apresentou o melhor que existe entre eles. As letras metafóricas usam compaixão para compor o jogo de palavras tão bem elaborado com a composição sofisticada e criativa sendo corajosa o suficiente para colocar instrumentos além dos tradicionais e criar história a partir dali. O calibre de um bom disco não está na sua popularidade ou no montante de singles nas rádios. Está no conjunto da obra como um todo e o que você irá levar contigo quando tudo acabar.



Fontes: 1








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