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  • Anna Clara Fonseca

Porgy and Bess: o cristal do jazz

Atualizado: Jun 27

Quando decidi escrever sobre o álbum de hoje, a palavra “genialidade” brilhava como luzes de neon. A meu ver, ele era o termo ideal para decifrar com exatidão a principal essência que permeia o disco desde sua abertura até o fim, encarando a iminente conclusão entre um dos maiores duos que passaram pelo mundo da música: o jazzista e trompetista Louis Armstrong e a primeira dama e rainha do jazz Ella Fitzgerald.


Louis Armstrong e Ella Fitzgerald

Quando duas almas artísticas se encontram em nome da arte, não tenha dúvidas que será memorável. Em um lado, conhecida e aclamada como uma das maiores vozes da história, Ella Fitzgerald emociona com a transparência de sua voz e expressivas interpretações, contendo uma elegância suave ao mesmo tempo em que o domínio incrível em seu tom impressiona automaticamente. Além de ser conhecida por ser a melhor cantora de “scat” (estilo de improvisações vocais sem palavras), Ella era apaixonante em todos os sentidos. A timidez não a impediu de ser amiga de Marilyn Monroe, compartilhar palco com Frank Sinatra e Nat King Cole, cantar com Billie Holiday e Sarah Vaughan, deixando uma carreira com feitos intocáveis. Do outro lado, reverenciamos aquele que influenciou de forma pioneira no jazz e na música popular no geral. Estamos falando de Louis Armstrong. O trompetista é considerado uma figura muito importante na cultura dos Estados Unidos. As invenções vanguardistas do músico trouxeram uma roupagem totalmente diferente no jeito de fazer música na época. Em 1956 quando o rock estava dando os primeiros passos e o jazz era agraciado com álbuns icônicos do Chet Baker e do quinteto estrondoso de Miles Davis, nascia uma união que o crítico musical David Rickert nomeou de "A match made in heaven". (tradução livre: um casamento feito no paraíso).


A parceria entre Ella Fitzgerald e Louis Armstrong começou com o disco Ella and Louis, gravado em agosto de 1956 quando estavam no alto da crista da carreira deles. “Minha ideia era gravar os dois o máximo possível,” disse Norman Granz, produtor e o empresário de Ella na época, “porque eu tinha todos os tipos de ideias de utilizar Louie com Ella.” Em outubro de 1957, a continuação do álbum anterior recebeu o nome de Ella and Louis Again. A presença legítima do trompete de Armstrong entra em perfeito contato com a brandura da voz de Fitzgerald, desenvolvendo uma comunicação quase que espiritual, que logo é concedida ao ouvinte. O terceiro e último trabalho da dupla ganhou vida em 1958. Ele se chamava Porgy and Bess.


Capa do álbum

Porgy and Bess é uma ópera norte-americana escrita por George Gershwin. A história é baseada no romance Porgy, de DuBose Heyward. Acompanhamos o protagonista Porgy, um morador de rua deficiente físico que vive nas favelas de Charleston na Carolina do Sul na década de 20. O tema principal é em torno da sua tentativa de livrar Bess, sua amada, do amante violento Crown e do traficante de drogas Sportin’ Life. Porgy and Bess utiliza a música tradicional afro-americana como inspiração para contar a história do casal. A ópera ganhou notoriedade no mundo da música, principalmente no Jazz,  quando Miles Davis lançou sua versão em 1959. É considerado um verdadeiro clássico.


O álbum inicia com a Overture marcada por corpulentos instrumentais que irão ser responsáveis em nos contar essa história através de pequenas demonstrações harmônicas de cada faixa do álbum. Lentamente ela vai diminuindo, apresentando a primeira canção e assim por diante, seguindo com as mudanças da musicalidade da obra, porém sem perder sua consonância. A coesão da orquestra de Russell Garcia impressiona instantaneamente com o nível de elegância depositada nos arranjos, captando com clareza o sentimento representado. Ele transforma a abertura em uma belíssima experiência regida por diversas ambientações sonoras autênticas e envolventes, conquistando a atenção para seguir até ao começo de tudo, Summertime.


O trompete de Armstrong inaugura a idealização de dias perfeitos descrito quase melancolicamente em Summertime. Uma imaginação inicial do que deseja naquele momento, porém quase beirando a utopia. “É verão e a vida é fácil / Os peixes estão pulando e o algodão está grande / Oh, seu pai é rico e sua mãe é linda / Então acalme-se pequeno, não chore”. Bess vulgo Ella abre o coração em I Want To Stay Here, narrando seu amor por Porgy. “Eu quero ficar aqui, mas não sou digna. / Você é muito decente para entender.”. Mesmo o amando, sabe que não pode ficar com ele. A possessão do amante Crown e do vigarista Sportin Life, que sempre gostou dela, a mantém em relações tóxicas, dizendo que quando ele chamar, precisará ir e será como a morte. Entretanto, Porgy a conforta dizendo para não se preocupar, que ela irá ofuscar todos com sua força e quando Crown voltar, lembrar do amor que sentem um pelo outro. Mesmo mantendo o sentimento em perspectiva, ela sabe que o único lugar onde sente paz é no amor que Porgy sente por ela. “Eu te amo, Porgy, não deixe eles me pegarem. / Não deixe que eles cuidem de mim e me enlouqueça.”. Os violinos abrem para My Man’s Gone Now e o sofrimento de Bess em relação a perda de seu marido. A procura conjunta em busca de uma vida melhor, marchando para Terra Prometida, é uma das lembranças que vem a tona. A voz de Ella interpreta os sentimentos de Bess com excepcionalidade, tornando possível sentirmos em nossos corações ou até mesmo simpatizamos em alguns momentos.


A rouquidão incomparável de Armstrong se faz presente em I Got Plenty O’ Nuttin acompanhado do inseparável trompete. Nela, ele conta que não tem nada e que não há nada para ele. Porgy não precisa de muito, ele tem o suficiente: sua garota, sua música e beleza gratuita das estrelas do céu. O romantismo ganha vida em Bess, You Is My Woman Now quando assumem o amor que sentem um pelo outro ao mundo. A envolvência jazzista em It Ain’t Necessarily So encanta sem demora com seu ar místico e sensual, entrando em contraste com o suave primor na voz de Ella enquanto Louis continua com o raro grave em sua voz. Bess acaba sendo seduzida por Sportin Life com a promessa de uma vida melhor em Nova York com devido tratamento de como uma mulher deve ter e também utilizando a droga com “Happy Dust” (pó da felicidade) e acredita nas palavras dele. A história e o disco chega ao fim em Oh Lawd, I’m On My Way com Porgy determinado em trazer sua mulher de volta para seus braços..


A história de Porgy e sua amada Bess foi e continua sendo contada de várias maneiras pela arte. Recebeu várias regravações de músicos talentosos com a de Lena Horne e Harry Belafonte. Várias interpretações teatrais e óperas ao redor do mundo. Contudo, será difícil encontrar algo que se assemelhe a beleza incontestável que Louis e Ella criaram juntos. A magia que Armstrong manejava em fazer uma simples nota se tornar diferente e a frente do seu tempo casava perfeitamente com a valiosa presença vocal de Fitzgerald, sempre entregando uma obra memorável o suficiente para ser enaltecida depois de anos do seu lançamento. Porgy & Bess foi a Swan Song (último grande trabalho) deste duo que desde o começo juntos, nos mostrou o que o amor e talento é capaz de criar: obra de arte. Eles honram o nome com louvor.



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