• Maria Eduarda Ferraz

Redescobrindo o passado: Jeff Buckley


Foto via Rolling Stone Brasil.

Na última semana a Sidetrack deu início a um especial que revisita a história e a sonoridade de artistas e grupos, que começaram sua jornada em um passado não tão distante assim. No primeiro post deste nosso caminho a ser percorrido, trouxe para a roda o The Stone Roses, grupo cujo trabalho é considerado essencial para o Britpop dos anos 80 e 90, e que possui ressonâncias até os dias atuais.


Para este segundo momento, entretanto, trago um outro nome. Desta vez um cara que desde a primeira vez em que ouvi, até hoje, me provoca arrepios na espinha. Um cara que, penso eu, ficará eternamente no top 10 de muita gente, como uma das grandes vozes que o mundo já teve o prazer de conhecer, mesmo que brevemente: Jeff Buckley.


Em 1993 Buckley lançava seu primeiro EP, Live at Sin-é, com apenas 4 canções dele, acompanhado de uma guitarra, gravadas em um café no East Village, em Nova York. Foi somente no ano seguinte que o visceral Grace (que em 2019 completou 25 anos), primeiro e único álbum completo a ser lançado por ele, em vida, dava o ar da graça, trazendo um jovem de voz potente, com uma certa carga de dor no seu jeito de cantar e no seu olhar


Pessoalmente, considero este um dos melhores álbuns de todos os tempos. Forte em sentidos diversos, dolorido, expressivo, belo em mil maneiras tão específicas que não saberia mencionar todas elas de uma só vez. Pesado, extremamente pessoal e com um efeito novo, mas sempre brutal, a cada vez que o play é dado e Mojo Pin, primeira canção vinda nele, se inicia.


Em Lover, you should’ve come over, o músico traz a angústia já vivida por todo o mundo, referente a sofrer por um amor que se foi e não mais está presente. Também conta sobre ser jovem demais para esperar e, ao mesmo tempo, velho demais para se libertar daquilo e correr. Noto que, muitas vezes, não é nem ao menos preciso falar a mesma língua de um determinado artista, para sentir que algo está acontecendo ali.


Quando as pessoas se permitem, de verdade, absorver uma melodia, um determinado tom de voz, podem ser capazes de perceber algo acontecendo por dentro delas. São sentimentos que se afloram, uma espécie de emoção genuína que surge, ainda que não se esteja passando por uma situação similar ao que quer que esteja sendo cantado no momento. Como se você pudesse entender o que sente aquele que ali canta.


Em outra faixa, Last goodbye, Jeff discorre sobre o último adeus dado entre duas pessoas, sobre o amor uma vez existente entre eles ter morrido e a sensação de não conhecer alguém de verdade. A sinceridade é tão presente em seu trabalho e estes são sentimentos tão humanos, tão passíveis de serem vividos, que trazem a sensação de identificação vinda a partir de todos os lados, lugares e estilos possíveis. Ninguém passa pela vida sem sentir algum tipo de dor.


Uma vez perguntado, pela Columbia Records, sobre suas influências musicais, Jeff respondeu:


“Love, anger, depression, joy and dreams. And Zepellin. Tottaly. When I was a kid, there was that post-Dylan acoustic magic: Crosby, Stills and Nash. Joni Mitchell. Lots of Joni. Lots and lots and lots of Joni. Lots of it. You! You influence me everyday. And I love you for it”.


Em tradução literal para o português:


“Amor, raiva, depressão, alegria e sonhos. E Zepellin (Led Zepellin). Completamente. Quando eu era criança, havia aquela mágica acústica pós-Dylan: Crosby, Stills and Nash. Joni Mitchell. Muito de Joni. Muito e muito e muito de Joni. Muito dela. Você! Você me influencia todos os dias. E eu te amo por isso”.


Apesar de ter partido prematuramente, em um afogamento que o vitimou aos 30 anos de idade, em 1997, logo após ter se reunido em estúdio para a gravação do que viria a ser o seu segundo álbum, Jeff deixou um legado enorme e fortíssimo para todos os que são apreciadores de um som verdadeiro e repleto de alma.


O músico Davi Pery, por exemplo, nasceu no mesmo ano em que Grace foi lançado, e conta:


“O que me chamou muito de cara a gostar do som do Jeff Buckley foi a criatividade ao usar compassos em tercina, o que dá um movimento que me atrai muito na música. Junto a isso veio uma voz macia e melancólica, com brilhantes melodias cantadas e tocadas na guitarra (...) amo Jeff e é uma pena só ter conhecido seu trabalho após sua morte, pois sei que se estivesse vivo, acompanharia toda a sua carreira como artista”.


Ao ser questionado sobre quais músicas consideraria como suas preferidas, ele apontou So real e Grace como as escolhidas. Outro apreciador do trabalho de Buckley é o jornalista Thassio Borges. Aos 24 anos, ainda não tinha nascido quando o artista lançou seu primeiro álbum de estúdio. Ele aponta I know we could be so happy baby, Everybody here wants you e Lover you should’ve come over como suas favoritas, e diz que:


“As letras e toda a carga emocional que ele transmite nas músicas, fazem com que a gente sinta a nossa dor e a dor dele em conjunto. Pessoalmente me traz nostalgia também, de quando eu acreditava no amor (risos)”.


Foto de divulgação do álbum Grace.

Pesquisando por aí, você, que até o dia de hoje pensou nunca ter ouvido falar sobre o artista, poderá se deparar com a versão marcante que ele fez para Hallelujah, clássica canção do músico e poeta canadense Leonard Cohen, falecido em 2016. Ela tornou-se uma das releituras mais tocadas no mundo, mesmo quando diversos outros artistas a representaram em outras maneiras.


Postumamente, algumas outras coisas também foram lançadas, por exemplo, Sketches For My Sweetheart The Drunk, de 1998. Mas foi no ano de 2016 que a coletânea You and I chegou ao público, com uma enorme carga afetiva, já que veio com gravações nunca lançadas até então, de suas primeiras idas a Columbia Records. No álbum encontramos a canção inédita Dream of you and I, além de covers de nomes importantes, como The Smiths, Bob Dylan e Led Zepellin.


Em sua sinceridade, Jeff deixou grandes fãs ao redor do mundo. Pessoas que o adoram, mas que, infelizmente, nunca poderão vê-lo ao vivo, apresentando o seu trabalho. Falar sobre Jeff Buckley é falar sobre talento, saudade e verdade. Por isso, em 2019, ainda temos fascínio a respeito do artista e de sua obra, e mais, ouso dizer que o fascínio continuará existindo por muito mais tempo, pois quando algo é verdadeiramente bom, torna-se imortal.


Se você gostou desta lembrança, continue acompanhando o nosso site. A série redescobrindo o passado está só começando. Muita coisa ainda aparecerá por aqui. Falando nisso, alguma sugestão?



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