• Maria Eduarda Ferraz

Redescobrindo o passado: U2


Foto: Patrick Brocklebank

Antes de chegar aqui tive umas três tentativas distintas de começo. Às vezes considero bastante difícil escrever sobre algo que me é muito caro. Ouvi o U2 pela primeira vez quando ainda era muito pequena. Isso quer dizer que há mais de 20 anos a banda está em minha vida, diretamente ou indiretamente. Minha mãe não poupou esforços para me apresentar as coisas que gostava de escutar e, em conjunto com ela, minha avó se certificou de falar sempre a respeito, e foi assim que, desde muito cedo, soube reconhecer sua sonoridade, podendo identificá-la em meio a outros sons que tocavam lá em casa ou pelas ruas onde passei.


Formada em Dublin, em meados da década de 70, por Larry Mullen Jr., Adam Clayton, Bono Vox (Paul Hewson) e The Edge (David Evans), o grupo tem hoje mais de 40 anos de carreira e a estrada até aqui rendeu, até o momento, 14 álbuns de estúdio, premiações importantíssimas, ao longo dos anos, e o coração de uma legião de fãs. Para sentir um pouco do que é esse fenômeno que o grupo segue sendo, em 2020, vamos voltar ao passado, pelas gélidas ruas da cidade onde tudo começou, para encontrar aqueles quatro garotos de antes.


Entre 1980 e 1983, o U2 lançou em sequência 3 álbuns: Boy, October e War, todos eles produzidos por Steve Lillywhite. Este último disco veio com grandes hits da carreira, como New year’s day e Sunday bloody Sunday, tendo alcançado a primeira posição nas paradas de sucesso britânicas. The Unforgettable Fire, onde podemos ouvir canções como Pride e Bad, veio logo em seguida, no ano de 1984, dando início a parceria com os músicos e produtores Brian Eno e Daniel Lanois.



Naquele ponto, a banda começava a se consagrar fora do continente europeu, atingindo o mercado fonográfico norte-americano, que já era bastante desejado por artistas mundo a fora. Mas é dando um salto para 1987, que chegamos ao importantíssimo The Joshua Tree, que aparecia nas lojas de discos, onde quer que fosse, tendo rendido aos rapazes mais de 20 milhões de cópias vendidas. Foi esse álbum que fez tudo ser ampliado.


É tocando o The Joshua Tree em bares, carros e até mesmo dentro de casa, que músicas icônicas, como I still haven’t found what I’m looking for, Where the streets have no name e With or without you ecoam no rádio, fazendo com que muitos de nós que, às vezes, nem sonhávamos em nascer quando tudo começou, as cantemos em voz alta e cheios de emoção. São versos como I have climbed the highest mountains, I have run through the fields only to be with you, only to be with you [...] but I still haven’t found what I’m looking for, que se emaranharam no imaginário coletivo de pessoas de todo o mundo e de idades variadas, que podem nem mesmo saber de onde aquilo vem, mas reconhecem de imediato.



E assim, continuamente, o U2 prosseguiu com seu trabalho, pois em outubro do ano que se sucedeu, era a vez de Rattle and Hum dar o ar da graça, sendo seguido, já no início da década de 90, por Achtung Baby, que trouxe ao público hits como One e Mysterious Ways e foi um grande sucesso. Não muito tempo depois, em 1993, temos um U2 mais experimental, com o disco Zooropa vindo a público e, em 1997, Pop chegava aos ouvintes.


Até aí já podemos pensar que o grupo tinha dado a mim e a meio mundo, material suficiente para as rodinhas de música, entre amigos, e para passar vergonha a vontade nos karaokês da vida, tentando entoar as canções como o Bono. Já havia sido produzido, talvez, o bastante para ficarem para sempre na nossa memória, consolidados como uma das grandes bandas, não só dentro de seu gênero, mas do mundo. Sem embargo, havia muito mais pela frente.


É importante ressaltar que nesse meio tempo também houve o lançamento do trabalho Original Soundtracks Vol. 1, que veio como uma parceria da banda com Brian Eno, sob o pseudônimo de Passengers, sendo este um projeto paralelo, onde podemos encontrar Miss Sarajevo, colaboração icônica do grupo com o cantor e intérprete italiano, Luciano Pavarotti, falecido em 2007.


A canção faz referência a Guerra da Bósnia e a Inela Nogic, campeã de um concurso de beleza acontecido no país, naquele período, onde o espaço foi usado para protestar sobre os acontecimentos e o medo que se instalou na região. Na ocasião foi estendida uma faixa, pelas jovens concorrentes, contendo os dizeres: “Não deixem que eles nos matem”. Inela tinha apenas 17 anos e o ato ganhou as manchetes de todo o mundo. É possível visualizar algumas cenas reais daquele dia no videoclipe oficial.



Já nos anos 2000, era a vez de All that you can’t leave behind chegar ao mercado, nos agraciando com grandes sucessos, como Stuck in a moment you can’t get out of, que julgo ser um excelente tapa para nos levantar nos momentos de crise, Beautiful day e Elevation, presente no filme Lara Croft: Thomb Raider, de 2001, com Angelina Jolie. Também faço menção a Walk on e In a little while.


2004 foi o ano de How to dismantle an atomic bomb, que trouxe em si Vertigo, a emocionante Sometimes you can’t make it on your own, sobre os dilemas de pai e filho, além da queridinha City of blinding lights, presente em O diabo veste Prada, de 2006, para fazer referência a cidade de Paris. Neste álbum também gostaria de fazer menção a A man and a woman, que foi ouvida uma centena de vezes em muitos dos meus dias de estudante de ensino médio.



Em 2009 veio a tona No line on the horizon e, junto a ele, canções como a homônima No line on the horizon, Magnificent, Moment of surrender e I’ll go crazy if I don’t go crazy tonight. Alguns anos mais tarde, em 2013, produzidos por outro nome importante, Danger Mouse (do ótimo álbum Rome, com Daniele Luppi, Norah Jones e Jack White; e membro das duplas Broken Bells e Gnarls Barkley), a banda lançou Ordinary Love, para o filme Mandela: Longo caminho para a liberdade, com Idris Elba e Naomie Harris.


A canção entraria, posteriormente, no Álbum Songs of Experience, mas antes de falarmos nele, temos ainda o Songs of Innocence, lançado em 2014, que gerou polêmica após entrar automaticamente na biblioteca musical de milhões de clientes da Apple, dividindo opiniões. Na época, Bono disse, em uma live no Facebook, que "o papel da arte é ser divisiva". Considero que o trabalho traz uma das mais belas capas de disco, com o baterista Larry Mullen abraçando seu filho, em sinal de proteção - na época Aaron Mullen tinha 18 anos de idade.


Fazendo um top três de fotografias de capa, entre a discografia da própria banda, o colocaria junto a Boy e War, que também têm como figura principal imagens extremamente expressivas. O álbum veio com canções como Song for someone, The miracle (of Joey Ramone) e Every breaking wave que, diga-se de passagem, tem uma versão ao vivo poderosíssima.



Chegamos, finalmente, a Songs of Experience, onde podemos ouvir 16 faixas, entre elas You’re the best thing about me, a já comentada Ordinary love, e The Blackout, tendo sido este o último disco da banda, até o momento. Em todos esses anos de carreira, o grupo esteve sempre muito ativo, produzindo álbuns, coletâneas The Best Of e tours gigantescas. Ao todo somam-se mais de 20 Grammys recebidos, entre outras premiações. Mas o mais chamativo, dentro de todo esse tempo de estrada, é uma outra coisa.


O U2 parece ter uma enorme e elegante capacidade de união. Algo em suas canções, aparentemente, tem o poder de transportar as pessoas para os lugares em que as histórias contadas foram vividas. Quase como se o sujeito que escuta, fosse personagem também do momento em questão, ainda que como um transeunte, observando de longe.


A parte mais interessante é a mágica de conseguir tornar-se enorme e reconhecido entre pessoas de idades diversas; ter o carinho e admiração de jovens, adultos e idosos; cativar grupos que vivenciaram épocas distintas. Só em minha família, por exemplo, o U2 já atinge 3 gerações. Isso quer dizer que foram muitos momentos caseiros, em que seus CDs eram trilha sonora. Muitos almoços, bebidas e conversas ao redor da mesa. Leitor, meu caro amigo, eu não sei como é para você, e pode soar até romântico me ver dizendo essas coisas, mas isso é grandeza.


Músicas bem produzidas e executadas, melodias marcantes, energia contagiante para se distribuir, e uma ligação e compreensão tão antiga e poderosa que, diferente do que já vimos acontecer - muitas e muitas vezes, com diversos grupos - não foi embora por ego ou ganância, na verdade, segue bem firme. São mais de 40 anos de carreira e não sei até quando vamos ter o prazer de experienciar tudo isso; até quando toda essa água vai rolar, mas vejo potencial e energia para muito mais tempo e, sinceramente, assim espero!



Gostou de relembrar a trajetória do U2? Então fique ligado, que a coluna Redescobrindo o passado ainda vai trazer muitas novas-velhas bandas para você redescobrir. Até a próxima!



  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone Spotify
  • Preto Ícone Twitter
  • Preto Ícone Pinterest
  • Preto Ícone Flickr

© Sidetrack Magazine