• Thais Ferraz

REVIEW: Entrando na pira do tempo com Tame Impala em seu novo álbum, The Slow Rush


Kevin Parker, mais conhecido como Tame Impala, entra na pira do tempo no seu novo álbum, The Slow Rush. Ele aborda o tempo em todas as suas vertentes: o passado, o presente, o futuro, o que não foi, o que seria, o que deixou de ser, o que quase foi algo e acabou sendo outro. O quarto álbum da banda de um homem só traz um Kevin ansioso, preocupado com o mundo e com a vida, ao mesmo tempo em que tenta sair da própria cabeça e colocar suas crias - as músicas e sua arte - no mundo, sem se afogar no perfeccionismo - embora tenha reajustado algumas partes do single Borderline para o lançamento final.

Sonoramente, o álbum é coeso com o estilo consagrado de Parker na psicodelia, apenas tomando uma direção mais pop e menos rock como nos dois primeiros discos, e também menos próximo do hip hop que marcou o último trabalho, Currents. Como ele mesmo afirma, uma das grandes lições dos últimos dez anos e de ter trabalhado com artistas grandes e tocado em diversos festivais foi não ter medo e meter a cara a tapa mesmo, se abrir e se rasgar por dentro, pois isso é o melhor que ele pode fazer pela sua música, e, convenhamos, errado ele não está, não é mesmo?

O álbum inteiro tem uma pegada mais próxima da psicodelia pop que consagrou Tame Impala no gênero, mas ele flerta também com o pop e até mesmo com a disco music dos anos 80, principalmente na faixa Glimmer. Mas começando do começo, como manda o figurino, o disco começa com a faixa One more year, corroborando aquela ideia sobre o tempo, sobre o que ele viveu - aqui ele fala em um we (nós) que parece remeter à sua vida de casado - e sobre não querer ter vivido de maneira diferente do que realmente as coisas aconteceram. A música é sonoramente uma clássica música de Tame Impala: sintetizadores, efeitos de voz, ecos; com uma diferença dos primeiros álbuns do artista, que seguia uma linha mais rock psicodélico com guitarras mais evidentes, enquanto agora se sente mais uma virada pop com foco nos beats.

Instant destiny segue com a abordagem sobre o tempo, mas agora menos niilista e introspectivo e mais, digamos, festivo e ousado, como diz no refrão “estou prestes a fazer algo louco, não adianta esperar, nenhum destino está longe demais, podemos conseguir uma casa em Miami, ir e casar, tatuar seu nome no meu braço” e “seremos amantes até o fim dos tempos, eu vejo agora”. Essa faixa já começa com o refrão e o ouvinte já é impactado pelo que Kevin tem a dizer de maneira contundente.

A terceira faixa do álbum é o single já lançado Borderline, que sofreu alguns ajustes para a versão do álbum, segundo Kevin, porque esta última era a maneira que a música tocava em sua cabeça quando ele escutava, e não a versão anterior. Basicamente, o homem é perfeccionista, como bem sabemos, então não é de se estranhar que ele revisitasse suas criações. A nova versão dessa faixa tem um baixo mais proeminente, como Kevin queria que tivesse, e combina mais com o groove geral do álbum, então não foi um reajuste ruim de modo algum (e poderia, sendo Tame Impala??). Borderline quase contradiz a faixa anterior do disco, ousada e festiva, começando logo com a frase “fui um pouco longe desta vez por algo, como eu poderia saber? Como eu poderia saber dessa emoção sombria? Estamos na beirada, apanhados entre as ondas de dor e êxtase”. É como se Kevin estivesse se debatendo dentro da própria cabeça entre ousar e se rasgar e se segurar e se preservar.

Posthumous Forgiveness é a primeira balada do disco, uma quebra dos ritmos mais frenéticos para falar de um tema que é a perda do pai, é uma das faixas mais pessoais do álbum e segundo Parker em entrevista ao programa de rádio Triple J, seus familiares ficaram emocionados ao ouvir a canção, e pudera, só o trecho “apenas um menino e um pai, o que eu não daria por outra chance?” já dá uma palpitação no coração e arranca umas lágrimas sim. Por ser uma canção mais lenta, é mais fácil ouvir as palavras e discernir melhor o que é cantado, no meio de tantos efeitos vocais que são característicos da obra de Tame Impala, o que faz o impacto do que é dito ser ainda maior e mais ressonante.

Breathe Deeper volta a ter o ritmo mais acelerado e festivo, e tem um dos melhores outros do álbum inteiro - valeria até ser uma música separada, pois são mais de dois minutos de uma melodia bem diferente e estruturada. Aqui Kevin mistura tecladinhos e até percussões que lembram conga com uma letra provocativa quando diz “se você acha que eu não poderia me segurar, acredite, eu posso (...), se você acha que eu não aguentaria, acredite, eu posso”.

Tomorrow’s Dust tem uma participação especialíssima da esposa de Kevin, ao final da faixa, falando ao telefone sobre - adivinhem - o tempo e o futuro. Absolutamente tudo nesse álbum foi pensado como uma abordagem do tempo e, nesse caso, do futuro e de suas incertezas. A sonoridade dessa música é um pouco diferente das demais porque tem um violão e uma bateria menos eletrônica e mais focada no kick e em percussão, principalmente no começo. É quase uma música minimalista, em termos de Tame Impala - que obviamente é zero minimalista -, até que começam as guitarras distorcidas, sintetizadores e o piano.

A faixa On Track é uma power ballad, com referências nos anos 70 e em Supertramp, como o próprio Parker afirma na mesma entrevista ao Triple J. Nessa música, vemos um Kevin mais pé no chão e quase otimista com o caminho trilhado até agora, quando ele diz “mas, estritamente falando, ainda estou no caminho certo (...), eu estou segurando, um outro pequeno revés (...), e todos os meus sonhos ainda estão à vista”.

Lost in Yesterday é a melhor música do álbum. Tudo nela é incrível: a linha de baixo, a batida, o groove, a referência - intencional ou não - a Leave me Alone, do ícone Michael Jackson. A letra é basicamente sobre estar mergulhado na nostalgia, como se esta fosse uma droga, e sobre superromantizar o passado e ao mesmo tempo o oposto, estar consumido em arrependimento e em “e se”. A essência da faixa pode ser sintetizada na frase icônica “em algum momento, as memórias que eram terríveis são transformadas em grandes recordações”.


Is It True é uma música de balada saída diretamente dos funks dos anos 80. Aqui temos pop, psicodelia, funk, disco e percussão conga. Tudo misturado, perfeito pra dançar, e, se o humor for mais introspectivo, perfeito pra refletir também. A letra mais uma vez fala de tempo, de incertezas do futuro e da certeza de que no presente existe o amor, em “veremos, veja como vai, até sabermos o que o futuro reserva”.

It Might Be Time traz na introdução uma pegada que lembra um pouco as distorções de Pink Floyd - guardadas as devidas proporções. Aqui existe a realização de uma crise com a qual praticamente toda a geração atual pode se identificar. É quase instantâneo pensar na vida, no que deu errado, no porquê de as coisas não terem saído conforme os planos da infância - aquele plano de “aos 30, estarei financeiramente estável e bem sucedido na carreira e no amor” que raramente se concretiza da forma como imaginamos. Parker então fala sobre reconhecer a crise e enfrentá-la.

Glimmer é definitivamente a faixa mais dançante - e mais curta - do álbum, parece ter saído também dos anos 80, com pitadas de Bee Gees e Giorgio Moroder e um pouco da música eletrônica dos anos 2000. A letra dessa música é bem simples e dá pra perceber que não é o foco da faixa, e sim a melodia e os arranjos, a letra diz apenas “eu só quero deixar tudo ir”, e, sinceramente, é bem fácil deixar tudo ir e entrar nessa melodia pra sair dançando pelo quarto sim.

O álbum finaliza com One More Hour, fechando o ciclo que começou com One More Year. Aqui Parker diz que fez tudo por amor e por diversão, também por fama, mas nunca por dinheiro. A música também aborda a noção de tempo - como não poderia deixar de ser - e também a expectativa dos outros sobre ele e sobre sua vida. O instrumental é mais agressivo e épico, condizente com o fechamento de um álbum, como se dissesse: estou aqui pra ficar.

E Tame Impala está aqui pra ficar mesmo. Sua trajetória de álbuns bem sucedidos, sua dedicação como músico, compositor, produtor, instrumentista consolida o nome de Kevin Parker como um dos grandes talentos desta geração, de modo que se ele tivesse nascido lá na época de Leonardo Da Vinci, em que ser multifacetado era uma qualidade estimadíssima, Kevin com toda certeza estaria entre os nomes gravados na história. Bom, ele não nasceu nessa época, mas no mundo atual, não há dúvidas de que ele está gravando seu nome nos anais da história musical com mais um trabalho impecável e coeso, extremamente coerente com o que ele pensa e sente - e não é isso que faz um grande artista?




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