• Thais Ferraz

REVIEW: Lana del Rey sai da caixa de garota triste do pop e mete os pés na porta do sonho americano

Após dois discos mornos - Honeymoon e Lust for Life -, parece que Lana Del Rey encontrou novamente os eixos de sua arte e nos presenteou com o belíssimo e bem atrevido Norman Fucking Rockwell!. Norman Rockwell foi um famoso artista estadunidense que ganhou fama no século XX por ilustrar a cultura do sonho americano e foi usado por Lana para “ilustrar” um personagem de seu álbum. O sexto disco da rainha sofredora trouxe uma estética sonora que lembra os primeiros álbuns de sua carreira combinados, com vocais sensuais, às vezes falados, ao mesmo tempo em que a presença de violões, guitarras e pianos revelam influências do rock que só vimos no trabalho de Lana em Ultraviolence, produzido por Dan Auerbach - para os que desconhecem, ele é o vocalista da banda The Black Keys.


É seguro dizer que o sexto álbum, produzido por Jack Antonoff, mostra um amadurecimento na trajetória artística de Lana, cujo trabalho constantemente traz temas de desilusão amorosa e sofrimento. As faixas são coesas, contam histórias entre si e aparentemente fazem referência a todos os homens - reais ou fictícios - da vida da cantora. Aqui abrimos a tracklist com Norman Fucking Rockwell!, faixa-título, em que Lana canta com a boca suja “caramba, homem-criança, você me f**** tão bem que eu quase disse ‘eu te amo’”e reclama de um homem imaturo e infantil que se acha genial, como ela diz em “sua poesia é ruim e você põe a culpa no noticiário” e “você conversa com as paredes quando a festa fica entediada de você”.


Em seguida temos a melancólica e esperançosa Mariners Apartment Complex, em que Lana sofre por sua bondade ser confundida com fraqueza, mas ao mesmo tempo reforça que acredita que as pessoas podem mudar sim, tudo isso acompanhado de um piano, um violão acústico e uma bateria suave, mesclando com sua voz delicada. Lana dá um passo na psicodelia com a canção de nove minutos e meio Venice Bitch, uma balada que mistura um pouco de folk na sonoridade e entra de cabeça no que poderia ser uma produção de Kevin Parker, do Tame Impala, de tão confortável que a cantora soa no gênero.


Em Fuck It, I Love You, primeiro single liberado do álbum, Lana remonta à sua constante idealização da Califórnia, que agora é quebrada com a realização de que “onde quer que você vá, você se leva, isto não é uma mentira” e que a Califórnia “não é só um estado de espírito”. A música é cativante e rapidamente o ouvinte se pega cantarolando, imerso enquanto a cantora rasga seu coração e expõe toda a dor que sente. É possível perceber o tom mais politizado das letras e dá até para perceber que certas músicas foram indicadas para algumas personalidades mais diretamente, como The Greatest, em que Lana canta que “Kanye West está loiro e se foi”, em referência ao apoio do cantor (e ex-amigo de Lana, que cantou em seu casamento com Kim Kardashian) ao presidente estadunidense Donald Trump. A canção inteira é uma cápsula do ano de 2019 e a decadência dos EUA, com “estou encarando a maior perda de todas, a cultura é incrível e eu tive meu momento, acho que vou me aposentar depois de tudo”, e talvez seja a melhor música do disco, em quesitos de composição.

Bartender parece uma canção de ninar tocada no piano de maneira etérea, com referências líricas a Crosby, Stills & Nash tocando nas festas de uma época em que havia diversão, um garçom e um amor. A música inteira tem um tom nostálgico, inspirado, mais uma vez, na Califórnia, que, para os discos de Lana, funciona como uma espécie de terra prometida, onde tudo acontece, palco de todos os sonhos e decepções de seu imaginário americano. O estado é tão presente na musicografia da cantora que, neste disco, tem uma música toda para si, a canção de amor California, em que Lana toca nos pontos da saúde mental e de como é importante destruir a masculinidade tóxica que rejeita a vulnerabilidade, como no trecho “você não tem que ser mais forte do que realmente é” e “eu não deveria, mas li na sua carta, você disse a um amigo que desejava estar melhor”.


Outro destaque do disco é o cover da música Doin’ time, da banda Sublime, que até ganhou um clipe; e aparece como um intervalo entre o derramamento de todas as verdades incrivelmente bem escritas por Lana, que se consagra, neste álbum, como uma das maiores letristas da sua geração. Com Love Song, uma literal canção de amor, tocada num piano e com vocais suaves, quase sussurrados, é palpável como Lana sente muito, sente com intensidade e se mostra aberta a um amor, quando pede “seja meu amor da vida toda”, ao mesmo tempo em que se sente confortável em ser quem ela é, com o passado que ela tem.

O disco finaliza com Hope Is a Dangerous Thing For a Woman Like Me to Have - But I Have It, uma das melhores composições de Lana, e que funciona como um fechamento de ciclo que teve início quando a cantora se tornou simplesmente a “garota triste do pop”, reduzida a um estereótipo por Hollywood, e agora termina com uma mulher que rejeita os rótulos e rejeita o próprio passado como definidor do futuro. Ela afirma que a esperança é perigosa para uma mulher como ela, que tanto sabe sobre Hollywood, que é mulher, mas que sim, ela tem esperança. É uma canção de grande significado, tanto pela letra como pela própria musicalidade, pois é possível perceber que Lana canta com dificuldade, quase como se fosse muito difícil de acreditar nas próprias palavras; isto mostra o quão pessoal a música é e o quanto de Lana foi exposto, de maneira musicalmente minimalista, o que termina por ter um impacto muito maior no ouvinte, que percebe palavra por palavra.


Nota: 95/100

Ouça ao álbum Norman Fucking Rockwell na íntegra no Spotify:


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