• Letícia Lucena

REVIEW: "Nothing Happens", de Wallows é um guia de sobrevivência para jovens adultos


Após dois anos de divulgação, turnês pelos Estados Unidos, lançamento de singles avulsos, como o debut Pleaser, de 2017, do Spring EP, de 2018, e mais alguns singles neste intervalo de tempo, finalmente o Wallows estreia oficialmente com o full-length Nothing Happens, lançado em abril de 2019.

Composto por Braeden Lemasters (voz/guitarra), Dylan Minnette (voz/guitarra), e Cole Preston (bateria), o trio de Los Angeles é uma das grandes promessas dessa nova leva de jovens artistas do cenário musical alternativo estadunidense, que conta com outros nomes como Clairo (que inclusive colabora em uma das faixas do Nothing Happens), King Princess, Rex Orange County, entre outros. Desde o debut em 2017, o Wallows vem se apresentando em diversos festivais ao redor do país, como o Lollapalloza Chicago em 2018 e o Coachella no início de 2019, que foram uma boa maneira de divulgar o trabalho da banda e aumentar a base de fãs enquanto o tão esperado álbum não chegava.

Nothing Happens é produzido pelo Grammy-winner John Congleton, que também assina outros trabalhos de renome na cena indie pop/rock, como o próprio Spring EP, o álbum autointitulado de St. Vincent e Antisocialites, segundo álbum do Alvvays, uma grande inspiração musical para Lemasters. O álbum é formado por 11 faixas, todas compostas pelo trio, e que retratam sem qualquer cerimônia, o turbilhão de sentimentos dentro de um jovem adulto em seus vinte e poucos anos: assim como As Vantagens de Ser Invisível está para o cinema, e os romances de John Green para a literatura, Nothing Happens é um coming-of-age para seus ouvidos.


Começando com um fade in e um riff de guitarra que se tornará familiar ao decorrer do material, Only Friend traz consigo uma letra melancólica, que aborda sentimentos de perda, solidão e isolamento. De uma certa maneira, é uma escolha sensata e corajosa para dar início ao álbum, uma vez que mostra que não há problema algum em se mostrar vulnerável logo de cara. Em Treacherous Doctor, canção seguinte, é passada a impressão de alguém desacreditado, contrastando com a batida acelerada, transmitindo uma quase sensação de revolta através dos instrumentos.


Da esquerda para a direita: Dylan Minnette, Braeden Lemasters e Cole Preston

Are You Bored Yet, parceria com Clairo, discute relacionamentos desgastados pelo tempo, apoiados apenas no comodismo. As notas no teclado flertam com sucessos oitentistas e nos faz visualizar um cenário vintage, e assim como as vozes de Dylan e Braeden se encaixam quando postas em conjunto, o tom suave de Clairo é uma adição bem-vinda à canção.


A irônica Scrawny, em contraponto à forma pela qual tudo o que foi apresentado anteriormente, escolhe tirar sarro dos perrengues da juventude, trazendo consigo um certo orgulho sarcástico ao entoar versos como"You don't like my clothes but you still like my smile, scrawny motherf***er with a cool hairstyle [...]". O refrão chiclete é bem-vindo, uma vez que ajuda a compor a atmosfera mais descontraída a qual a canção se propõe, no final, com a combinação de todos esses elementos, a faixa se torna um must-have em apresentações ao vivo, onde o público possa se sentir livre para gritar os versos o mais alto possível.


Outras canções também merecem destaque, como Ice Cold Pool e I'm Full, entretanto, Do Not Wait tem uma carga emocional ainda maior que as faixas anteriores, o que dá certo destaque à ela. A quase ausência de cordas em 3 dos mais de 6 minutos de duração da música nos transporta novamente a uma atmosfera muito íntima, mas dessa vez, mesmo se mostrando vulnerável como nas primeiras canções, o pessimismo é substituído por um choque de realidade (falado, não cantado, por Dylan), enquanto Braeden entoa o refrão que encerra a faixa como uma acolhida à esta nova fase da vida ao dizer repetidamente: Do not wait, I'll be there.


Confirmados para as próximas edições do Lollapalooza na América do Sul e já bem estabelecidos no cenário alternativo, a banda, como já era de se esperar após dois anos de trabalho árduo, apresenta uma grande evolução em relação à estreia do grupo, com o single Pleaser, é possível notar que o trio se lapidou junto com o processo de criação do Nothing Happens. Assim como acontece dentro do consciente de alguém de pouca idade, tudo ao seu redor é lidado de uma forma muito intensa (mesmo que a situação em si nem exija tanta intensidade), e é isso que o álbum se propõe trazer, ao mostrar com sinceridade todas as faces e fases de um jovem adulto em processo de amadurecimento.


NOTA: 89/100

Ouça ao debut de Wallows, Nothing Happens abaixo:


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