• Lukas Ramos

REVIEW: Novo álbum da Charli XCX, "Charli', é um reflexo da sua evolução artística



Desde o enjoativo punk chiclete do SUCKER, Charli XCX percorreu um longo caminho até conseguir lançar um álbum oficial. No decorrer dos últimos 5 anos, ela lançou alguns singles avulsos, como Boys, 5 in the Morning e Focus/No Angel, o EP Vroom Vroom e as mixtapes Number 1 Angel e Pop 2. Para nossa felicidade, foi ao longo desse tempo que a vimos crescer como artista, tornando-se ainda mais autêntica e, de certa forma, uma figura revolucionária da música pop.

Finalmente, depois de tantos embargos, Charli XCX conseguiu liberar seu terceiro álbum, que ganhou seu nome como título. O disco Charli tem 15 faixas, dentre elas 8 colaborações, que envolvem Christine and the Queens, Sky Ferreira, Kim Petras, Tommy Cash, HAIM, Lizzo, Big Freedia, CupcakKe, Brooke Candy, Pabllo Vittar, Clairo, Yaeji e Troye Sivan.


Charli pode ser entendido como um reflexo da evolução da carreira de XCX. O disco transparece esse grito de liberdade artística que Charli tanto esperava. A cantora alcançou um novo nível de confiança que expande a sonoridade das suas músicas e leva suas composições para além dos temas de festas e noitadas.


O disco começa com Next Level Charli, apresentando-nos a essa viagem pelo mundo do pop sintético exagerado e trazendo as composições sobre curtir sem limites. A faixa apresenta similaridades a Vroom Vroom (single que iniciou as experimentações de XCX na PC Music), além de fazer referências à músicas de sua discografia, como a própria VV, Roll With Me, Paradise e, surpreendentemente, Boom Clap. Mas o clima nostálgico não se sobressai, já que a música continua a soar como uma novidade e não uma tentativa de recriar antigos sucessos. Uma introdução perfeita para esse álbum, pois refresca a memória sobre seus trabalhos antigos e aquece os ouvidos (e o coração) para as novas emoções.


A segunda música do álbum é Gone, a parceria com Christine and the Queens, que foi lançada em 17 de julho. O segundo single do álbum é um resultado super positivo de todo o amadurecimento artístico de Charli. A música tem os synths de PC Music e a pegada futurística, mas nada que soe tão distante do mainstream. Além disso, ganha a adição do cool pop-funk de Christine, que a fez se destacar no último ano. O sintético pop perfection também tem força suficiente para sustentar a composição lírica, na qual Charli aborda temas ainda não tão trabalhados em suas letras. Apesar do cenário de festa, a música fala sobre raiva, frustração e um pouco de tristeza. Esses sentimentos estão expostos em versos que falam sobre decepção com as pessoas ao seu redor, como: “Eu só agora estou percebendo que eles não se importam / Eu tento muito, mas sou pega pelas minhas inseguranças” ou “Eu me sinto tão instável, odeio essas pessoas pra c*ralho / A forma como eles me fazem sentir ultimamente, eles me me deixam estranha”. Com certeza, Gone está entre as três melhores músicas da carreira de Charli.



Como ela anunciou na faixa 1, esse disco traz Charli em um novo nível e não se trata apenas da suas experiências rítmicas. Isso se reflete na faixa três, Cross You Out. A parceria com Sky Ferreira tem uma pegada mais sentimental, com uma sonoridade mais densa e fria, e novamente traz à tona o tema libertação, em que aqui ela fala sobre conseguir se livrar de uma pessoa tóxica. Mais uma prova do poder de Charli em abrir seu leque de composições ao apresentar-se mais vulnerável.


Após conseguir superar uma relação traumática, não tem nada melhor para fazer do que comemorar. E, é isso que ela faz na faixa quatro. 1999, colaboração com Troye Sivan, já era conhecida do público, desde seu lançamento em 2018. A música é um pop perfection do jeitinho que Charli sabe fazer, reunindo suas referências 90tistas de Britney Spears e Spice Girls e misturando com um pouco do seu estilo futurista.


Com uma discografia que conta com dezenas de participações, a quinta faixa do disco, Click It, é outro exemplo das propostas que Charli costuma trazer em seus trabalhos. Um dos pontos fortes das produções de XCX é incorporar novos estilos ou artistas de gêneros que conversam com o seu. A parceria com Kim Petras e Tommy Cash é uma dessas misturas que dão certo. As experimentações de Charli abrem espaço para essa ideia de "diversas músicas em uma". O que pode parecer caótico, na verdade é muito bem produzido e permite que todos os presentes brilhem à sua maneira, para no fim, obtermos um produto final que está longe de cair na mesmice. E, ainda sobre Click It, depois de todas as alternâncias no decorrer da música, a música encerra com um instrumental que é um show do malabarismo sonoro que só a PC MUSIC consegue passar!



Em seguida, temos três músicas que garantem a continuidade a boa audição do álbum ao mesmo tempo que "amenizam" a explosão deixada pelas duas antecessoras. A primeira é Warm, uma parceria com o trio HAIM, que traz aquela leveza da música das irmãs. Depois de uma sequência de feats, temos Charli cantando sozinha em Thoughts, em que o destaque fica para a letra sobre os devaneios e vulnerabilidades de XCX. Logo após, é a parceria com Lizzo, Blame It on Your Love. A música é uma versão pop de Track10, uma das faixas do Pop2, que ficou bem divertida e ainda tem pitadas do estilo da voz por trás de Truth Hurts, o que pode garantir espaço para Charli dentro do mercado do pop de playlist.


Passamos a metade do álbum e damos de cara com uma sonoridade inesperada. Um lado mais sensível e calmo desabrocha em White Mercedes, como se fosse algo relativo as acústicas no universo da PC Music. Não era o que esperávamos, mas é uma chegada muito bem vinda. Aqui nós vemos que Charli não se resume a potentes batidas ou músicas sobre festas, mas também há aquela garota que sofre e faz de drogas e festas um escape para suas dores. Isso ganha ainda mais força na música sequencial, a maravilhosa Silver Cross. A leveza do disco continua também em I Don't Wanna Know e Official.



O tom delicado passa quando o furacão Shake It chega. Os primeiros versos são uma longa repetição do título da faixa e ela faz um grande passeio nos efeitos sonoros, dando tudo aquilo que seus fãs merecem. E se não fosse bastante essa intro de 1 minuto, a música ainda nos reserva as participações de Big Freedia, CupcakKe, Brooke Candy e Pabllo Vittar. Seguindo os passos da ambiciosa mistura de I Got It, Shake It é outra mistura das boas. As participantes da faixa do Pop2 voltam ainda mais confiantes e seguem o flow de Freedia que inicia a música com força total. E, as gringas que lutem, mas a drag brasileira mais uma vez teve a melhor parte. (Rainha se escreve com dois L e dois T. xoxo).



Mais uma colaboração de sucesso é a penúltima faixa do disco, February 2017 (ft. Clairo e Yaeji). A parceria é um dream-pop que canaliza o melhor do estilo das três artistas: a singeleza de Clairo, que a destacou em seu álbum Immunity; os afáveis sintetizadores das produções de Yaeji, como as que tornam raingurl e one more duas delícias musicais: e, por fim, Charli coloca seu estilo que não deixa perder a coesão do álbum. O disco encerra com 2099, outra parceria com Troye Sivan. Enquanto em 1999, eles brincavam com o tom nostálgico, nessa música a proposta é nos levar ao que será o som do futuro. Se esse é realmente eu não sei dizer, mas é interessante entender que essa sonoridade sempre fez parte do imaginário robótico que por muito tempo foi idealizado.


Charli XCX é sempre muito brincalhona em colocar-se como uma supernova e revolucionária. Mas, lá no fundo essa brincadeira tem muita verdade, pois Charli se destaca por ser essa figura de música e estilo progressista e disposta a causar mudanças na música pop. Ao mesmo tempo, essa figura cheia de confiança permite-se mostrar vulnerável e torna seu disco uma obra de lindas composições e fáceis de se relacionar com seu público.

De fato, o tempo em que Charli lutava para conseguir seu terceiro álbum oficial a fez dela uma das melhores artistas da sua geração na música pop e seu crescimento artístico reflete nesse disco, em que, como diria o meme do @iampopzone: ela desconstrói o pop e avança direto ao futuro criando uma nova sonoridade.


NOTA: 86/100


Escute ao Charli na íntegra abaixo:


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