• Anna Clara Fonseca

REVIEW: O amo(r) de Bring Me the Horizon

Atualizado: Jun 27


O amor se apresenta de várias formas para cada ser humano. É uma das questões mais pessoais do mundo. Todos tem sua própria perspectiva sobre o assunto, assim como cada um possui sua própria experiência. Acredito que seja isso que faça do amor ser uma temática puramente subjetiva.


Para algumas pessoas, ele é como uma sereia: enfeitiça-te e o corrompe pra sempre, causando traumas e dores irreversíveis. Ou então você pode simplesmente ter a sorte de não passar por essa dor no começo, mas em algum momento da vida, ela aparece. A verdade é: o amor é doloroso como um machucado desagradável e assim como queremos que ele sare logo, devemos nos perguntar: como nós tratamos o amor na nossa vida?


Oliver Sykes nos convida para essa reflexão pouco convencional e de extrema importância para alma.


Formada em 2004, Bring Me The Horizon vem causando mudanças significativas para o metal/heavy metal, trazendo novas roupagens para o que estamos acostumados: eles estão aptos a mostrar algo novo. A banda teve três formações, porém a original e a que se mantém até hoje é Oliver Sykes no vocal, Jordan Fish no teclado, Matt Nicholls na bateria, Matt Kean no baixo e Lee Malia na guitarra. O nome da banda veio da sétima arte com Piratas do Caribe: Maldição do Pérola Negra, onde Jack Sparrow grita: “Now… Bring me that horizon!”.


Tudo começou com o EP, “This Is What the Edge of Your Seat Was Made For” de 2004. A partir dai, temos o primeiro contato da banda com o mundo mostrando seu gênero: deathcore. Em 2006, eles lançam o primeiro álbum “Count Your Blessings” onde o metalcore entra em ação, encarnando em cada faixa. O screamo de Oliver passa a ser marca registada, sendo capaz de reconhecê-los por isso. O “Suicide Season” chega em 2008, com promessas do próprio vocalista que seria “100% diferente” do primeiro álbum. Porém a notoriedade veio em 2010 com o “There Is A Hell, Believe Me I’ve Seen It. There Is A Heaven, Let’s Keep It A Secret”. Conhecido pela sua experimentação e vocais limpos, a crítica positiva fez com que o público olhasse com mais carinho para o trabalho dos caras.


O death e metalcore eram os gêneros que eles eram reconhecidos; tudo isso mudou em 2013 com o álbum “Sempiternal”, um divisor de águas na carreira deles. O metal alternativo passa a fazer parte dos gêneros, coincidindo com a época que Sykes decidiu cantar, não apenas berrar. Além disso, no processo de criação, o próprio passava pelo pior momento da sua vida: o livramento do seu vicio em Ketamina. A profundidade que as letras carregam nos apresenta um pedido de socorro, ao mesmo tempo, o sofrimento latente daquele que queria se libertar dos seus antigos hábitos. Em 2015, as 11 faixas do “That’s The Spirit” trata do assunto do século: a romantização da depressão. Ao mesmo tempo, acabou se tornando o maior sucesso comercial deles, alcançando recordes e posições que nem os próprios imaginavam. É nele que reside os maiores sucessos como Happy Song, Drown, Follow You e Throne.


O sexto álbum “amo” chegou começo desse ano. Ele era diferente, inovador, completamente alternativo de tudo o que eles já haviam feito. Literalmente. Não era o deathcore afiado e gritado, muito menos o metal pronto para explodir tímpanos. O rock não havia os deixado de maneira alguma, todavia, um dos gêneros evidenciado era o pop. Sim, é isso mesmo que vocês leram. A conceitualidade experimental era uma das vontades de Oliver, ele já havia dito que gostaria de fazer algo como Twenty One Pilots e os usaria como inspiração. A crítica aprovou a pluralidade sonora da obra, conquistando a atenção até mesmo de outras áreas musicais.


O assunto do disco fala por si só: amor. Entretanto, o amor que estamos tratando aqui é mais intenso e profundo, conseguindo alcançar o lado nocivo da sensação. Sykes explora várias vertentes do sentimento: amor próprio, abusivo, tóxico, mantras, etc. Casado com uma brasileira, o vocalista decidiu intitular o nome em português, e não será a ultima vez que veremos isso acontecer.


A primeira música é na verdade um interlúdio. “i apologize if you feel something” nos apresenta efeitos sintetizados, já nos dando aquela pincelada no que iremos encontrar juntamente com sua letra melancólica e profunda sobre o amor ser a única que temos.


A força de “MANTRA” é sem precedentes. Com uma indicação ao Grammy, ela pode ser considerada facilmente uma das mais pesadas do álbum, carregando a identidade da banda. A canção fala sobre verdades insustentáveis e sem fundamento, o que se vende pra gente pode ser apenas uma devoção forçada. Acredito ir um pouco além e levar essa mensagem para campos internos, onde temos ideais que podem ser revistos. Chegará o momento que ela começara a te irritar, assim como é dito no refrão: “Before the truth will set you free, it’ll piss you off.” Se observarmos todo contexto atual da banda, podemos dizer que também seria uma mensagem para essa nova sonoridade do Bring Me para com seus fãs?


Considerada a favorita pelo pai de Oliver, a pluralidade sonora começa em Nihilist Blues onde elementos eletrônicos e synthpop entram em ação. Em parceria com a cantora de Art Pop, Grimes, eles promovem uma odisseia ala Tron: O Legado misturado com Blade Runner, trazendo essa veia futurista e distópica para identidade da canção.


Mantendo o sangue pop rock correndo pelas veias, In The Dark dá o ar da graça com sua guitarra menos agressiva, porém retorna em Wonderful Life, mostrando que, apesar de tudo estar desmoronando a sua volta, continua aproveitando pequenos detalhes do dia-a-dia. Sua levada é totalmente contraria com sua letra alto-astral, sendo mais como o grito de algum ato de rebelião. Além disso, traz a participação de Dani Filth, vocalista da banda inglesa de metal Cradle Of Filth.


Medicine e ouch tem significados interligados. Ambas falam sobre relacionamentos tóxicos e abusivos, tratados de maneira nada saudáveis. Trata-se de se livrar desse tipo de pessoa da sua vida, dar um basta em comportamentos nos relacionamentos onde haja esse tipo de relação.


Os riffs memoráveis de sugar honey ice & tea é um dos pontos altos do disco. Conduzida pela guitarra pesada e uma bateria federal, ela forma a sigla SHIT, criticando a hipocrisia humana no refrão “Everybody’s full of sugar, honey, ice, and tea”. Em outras palavras: “Everybody’s full of shit”. O heavy continua permeando na aposta “why you gotta kick me when i’m down?”, acompanhada de um som totalmente novo e diferenciado, o que deu muito certo, sem dúvidas.


O interlúdio de “Fresh Bruises” é acompanhado pela romântica “Mother Tongue”. Dedicada a sua esposa, Alissa Salls, ela nos mostra um lado mais generoso do amor, mais aberto e receptivo. Fish diz que ela é sucessora de “Drown” pelo seu teor melódico. No refrão, temos o icônico verso:Don’t say you love me fala amo”. Ele significa que ele quer ouvir o "eu te amo" da sua lingua materna, aquela que te faz ser quem você é hoje.


O “amo” nos transmite várias mensagens. Dentre elas, a mais em evidência é a que eles estão mudando. Eles estão pegando em novas ondas and that’s all right. A penúltima é “heavy metal”. Sabendo dos narizes torcidos de seus “fãs” para a nova sonoridade, Sykes não se esqueceu deles e os presenteou com essa música, onde fala sobre sempre esperarem o mais do mesmo. Vale ressaltar o verso mais icônico do disco sobre o assunto: Cause a kid on the ‘gram said he used to be a fan but this shit ain’t heavy metal. (tradução: porque um garoto no Instagram disse que costumava ser um fã, mas essa merda não é heavy metal.)


Os violoncelos de “i don’t know what to say” dão entrada a ultima música do álbum. Ela é uma homenagem ao um amigo de Oliver que morreu de câncer há pouco tempo atrás. Nos versos, ele fala sobre arrependimentos e não saber o que dizer em momentos difíceis.


A realidade é que o mundo está mudando a cada dia e involuntariamente, nós mudamos junto com ele. Bring Me The Horizon sempre permeou na área do rock trabalhando com gêneros pesados e ainda se encontra nele, porém eles têm ciência que não querem ficar apenas nisso. Sabem que precisam respirar novos ares e o “amo” foi um suspiro e tanto. Ele representa liberdade e criatividade em sua melhor forma, e ainda sim, disseminando sua arte profunda e intensa como eles sempre realizam.

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