• Anna Clara Fonseca

[Review] O impacto necessário de Parasita, filme sul-coreano indicado ao Oscar®️ de melhor filme

Atualizado: Out 20

O cinema deve ser como um martelo. Uma ferramenta simples que todos podem usar.” E vamos de fatos quando o personagem Jean-Pierre diz essa frase em O Formidável. A singularidade do cinema está nesse fácil manuseio de transmissão de mensagem e sentidos. É através dessa universalização que nós somos apresentados a realidades furtivas, pensamentos complexos e sentimentos intrínsecos a cada frame. Afinal, cinema é sobre isso: alegorias realísticas sobre o mundo que vivemos diariamente.


Por ser universal, cada país com seu cinema, logo, cada país com sua identidade. De todos, o cinema asiático é um dos mais impressionantes.


A ascensão da ásia no movimento cinematográfico não é algo atual. Sua forte presença, na

verdade, sempre foi impressionantemente geniosa aos olhos do ocidente. Talvez quem tenha disseminado tal arte foi o diretor japonês Akira Kurosawa, lançando primorosas películas como Rashomon e Hakushi, porém foi em 1954 com a estreia de Os Sete Samurais, que fez com as pessoas concedesse a devida atenção ao cinema asiático.


Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa (1954)

Yasujiro Ozu também foi um dos precursores do movimento, fazendo história com Era Uma Vez em Tóquio de 1953 e Good Morning de 1959. A partir daí, foi ganhando seu espaço aos poucos, sempre comprometidos a apresentar uma cinematografia mais realista e inerente. A china também não ficou pra trás e se estabeleceu com filmes como Spring In a Small Town de Fei Mu, considerado um dos maiores clássicos do cinema chinês. O indiano Pyaasa dirigido por Guru Dutt, até os dias de hoje é reconhecido como um dos filmes mais românticos de todos os tempos. Já nos anos 90, o legado é fincado de vez. A complexidade dos romances de Wong Kar-Wai tornou Chungking Express e In The Mood For Love clássicos da filmografia do diretor e daquela década. O crescimento exponencial da ásia no cinema ocidental possibilitou que outros países conseguissem desenvolver e introduzir o próprio cinema como Taiwan, Filipinas e a Coreia do Sul, que por sua vez, deixou sua herança através de quatro diretores: Kim Ki-Duk, Park Chan Wook, Lee Chang Dong e Bong Joon Ho.



O cinema sul-coreano iniciou seus trabalhos nos anos 60 quando The Housemaid dirigido por Kim Ki-Young e Aimless Bullet por Yu Hyun-Mok nos apresentou a cultura do país a nós. Contudo, foi no final do anos 90 que os quatro diretores acima dirigiram filmes que acabou se tornando a identidade do país, dissecando gêneros, desenvolvendo novas formas de linguagens, mais ousadas e melhores trabalhadas. A intocável produção coreana impacta com cuidado cinematográfico que eles têm para com seus filmes. É perceptível que pensam em cada detalhe, o esmero da direção de fotografia, a excelência da direção, o profissionalismo dos atores, mas aquilo que se tornou característico deles foi a profundidade das histórias e como contam essas histórias. Eles tornam sinopses simples em grandes thrillers com reviravoltas e plot twits: tudo feito com perfeição.


Após assistir Vertigo de Alfred Hitchcock, Park Chan Wook decidiu se tornar diretor de cinema. Ele foi um dos primeiros diretores a levar a Coreia do Sul aos principais festivais de cinema ao redor do mundo. Um dos seus principais trabalhos é nomeado Trilogia da Vingança: Mr. Vengeance, Oldboy e Lady Vengeance, todos aclamados pela crítica internacional.

Sympathy for Lady Vengeance, de Park Chan Wook (2005)

Kim Ki-Duk impactou com o refinamento de Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera, enquanto Oasis de Lee Chan Dong comoveu o coração de todos contando sobre um amor incompreendido pela sociedade. No meio de tantos filmes aclamados por diretores excepcionais, Bong Joon Ho escreveu e dirigiu Memórias de um Assassino, que acabou ganhando êxito na época por ser baseado em fatos reais. Entretanto, o notório diretor não estagnou por aí. Dirigiu o drama thriller Mother! e expandiu os horizontes com os sci-fi Expresso do Amanhã e Okja. Os filmes de Joon Ho não são apenas consagrados tecnicamente, mas também pelo desenvolvimento coeso e roteiro intrigante, promovendo a imersão quase que imediata do espectador, tirando até mesmo o seu fôlego: isso foi tudo que Parasita causou ao cinema em 2019, conquistando a simpatia dos cinéfilos e não-cinéfilos.


Poster de Parasite (2019)

Parasita começa nos mostrando as condições precárias da família Kim: todos desempregados, vivendo na inércia da pobreza e realizando pequenos trabalhos a pizzaria do bairro para não morrerem de fome. Ki-Woo e Ki-Jung são filhos de Ki-Taek e Chung-Sook. Um dia, Ki-Woo recebe seu amigo Min, que o pega de surpresa ao oferecer seu cargo de professor de inglês de uma adolescente de 16 anos, proeminente de uma família muito rica. Diante a esplendorosa situação, extremamente diferente do que eles vivem diariamente, Ki-Woo e sua família bolam planos a fim de introduzir cada um deles nessa vida luxuosa, escapando da pobreza factual. Tudo muda quando eles terminam a missão, descobrindo que há muito mais do que os olhos podem enxergar.



Foto: HanCinema

O principal tema do filme é a luta de classe. Ele nos apresenta a grande lacuna que há entre ricos e pobres e Joon Ho faz isso utilizando metáforas visuais, furtivas, diálogos, etc. Um dos primeiros sinais é a primeira cena quando a câmera começa focada na janela da casa da família Kim e vai descendo, conhecendo o nosso personagem principal, havendo um aviso visual de como a vida deles é baixa. Quando Ki-Woo vai conhecer os Park (família rica), percebe-se que ele sobre escadas para entrar casa, sobe para os quartos, metaforizando uma “ascensão” social. A cena que fica bem clara essa divisão é quando eles deixam a mansão dos Park na chuva. Eles descem vários lances de escadas e ruas, como se vivessem no submundo de toda aquela riqueza. Em alguns momentos nos diálogos, Mrs. e Mr. Park citam cruzar uma linha. A linha e o sobe desce são técnicas que o diretor utiliza para fazer uma analogia a discrepância que há entre ambas famílias.


Ki-Woo e Ki-Jung (Choi Woo-Shik e Park So Dam) / Foto: HanCinema

A escolha do nome Parasita é bastante clara. Não temos apenas um, mas uma sucessão de parasitas: os pobres com os ricos usufruindo da ingenuidade dos Park, abusando da moradia e pequenos luxos que aquela vivência proporciona, acendendo lampejos de esperança de todas as partes e criando a ilusão que eles também podem fazer acontecer naquela vida. Essa não é a primeira vez que o cinema e a literatura traz esse assunto a tona. Na literatura, o sonho de Jay Gatsby é ser rico e materializa todo aquele desejo na figura de Daisy Buchanan, o amor da sua vida, que na verdade, representa tudo o que ele quer e a vida que quer ter. O livro sempre cita o “old money” (ricos de berço: a família Park) e “new money” (ricos que se tornam: a família Kim), onde Fitzgerald diz em entrelinhas que esse “new money” nem sempre é conquistado de maneira honesta, já que Gatsby conseguiu seu dinheiro vendendo bebidas alcoólicas ilegalmente e dando festas extravagantes. No cinema, temos Barry Lyndon e sua insaciável ambição pela riqueza, combatendo tudo e todos que atrapalhar sua jornada até lá (literalmente). Quando alcança, ele não sabe ser rico. A exorbitância imoderada se torna o maior inimigo de Lyndon, pagando um preço muito alto no final de tudo. A família Park também é um parasita. Eles sugam tempo e dignidade dos Kim, não dando nada em troca e os colocando em posições desfavoráveis. Um exemplo seria quando Mr. Park faz o Sr. Kim vestir acessórios de índios no aniversário do filho e atacar Jéssica, sua própria filha. Tudo bem que Mr. Park não sabe que ele é pai dela, mas independente, seria uma situação desconfortável até para um estranho. Temos outro parasita. Esse é o mesmo em O Grande Gatsby, Barry Lyndon e na vida real: é a esperança. Para Ki-Woo, a pedra que ganhou do avô de Min era um símbolo de esperança, que no final, se tornou uma arma para sua quase morte.



Kim Taek (Song Kang-Ho) / Foto: HanCinema

E a pedra? É só isso. Uma pedra. Quando estamos vulneráveis, é involuntário que nos apeguemos a algum objeto. Foi o que acabou acontecendo com a sensibilidade de Ki-Woo quando Min aparece em sua casa, carregando a pesada pedra numa caixa de madeira, dizendo que seu avô havia direcionado ela aos Kim e que a própria iria trazer riqueza material a eles. Tudo o que a pedra representava e o modo como foi apresentada a ele, fez que com que seu pensamento sobre ela fosse magnificamente mágica. Eles acreditavam que ela seria a salvação, sendo que a salvação eram eles mesmos.


Mr. e Mrs Park (Lee Sun-kyun e Cho Yeo-jeong) / Foto: HanCinema

A subliminaridade do cheiro também merece atenção. Ela é a única coisa que eles não conseguem esconder. O odor da pobreza é algo que os Park não conhecem de fato. A redoma que vivem é tão impenetrável que o odor da pobreza é impensável. Tão impenetrável que até o filho caçula diz ser um cheiro “estranho” e que eles exalam o mesmo cheiro, os tornando pessoas iguais. A redoma da família Park é mostrada graficamente através da casa deles. Eles estão em casa e quando saem, estão dentro de um carro, tirando toda noção e senso que existe um mundo ao redor deles. A melhor cena que exemplifica essa realidade é a hora que Mrs. Park vanglória que a chuva havia tinha sido uma benção, quando em outras realidades, ela tinha sido o fim de muitas histórias, incluindo a dos seus funcionários.


A película perdura um questionamento bastante válido nos dias de hoje: “qual é o tipo de pessoas que estamos admirando?". O cara do porão, Geun, idolatrava cegamente o Sr. Park. Ligava as luzes quando ele passava, o defendendo cegamente com argumentos dele ser o provedor daquela mansão, ganhando o tratamento de um digno rei através da admiração exacerbada dele. Geun esperava que o respeito seria recíproco quando se encontrasse com seu ídolo, mas tudo o que recebeu foi uma expressão medonha e dedos no nariz para espantar o cheiro de isolamento. Se trouxermos essa relação de Geun com Mr. Park para nossa realidade, podemos visualizar que ela não está muito longe da nossa. A internet cria Mr. Parks todos os dias: falsos heróis com grandes feitos sem nenhuma humanidade e os Geuns os veneram diariamente, dedicando grande parte do dia delas, esperando alguma migalha para poder se sentirem validadas e realizadas.



Foto: HanCinema

Parasite foi um dos filmes mais aclamados de 2019. Ganhou a Palma de Ouro do ano, Bong Joon Ho e o elenco precisou ficar de pé durante 8 minutos assistindo o público ovacionando tudo aquilo que tinham assistido. Os 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e as seis indicações ao Oscar, incluindo a de Melhor Filme, é apenas um dos imensuráveis impactos que esse filme significou para seus espectadores. Ele não é sobre uma única mensagem, mas sobre inúmeras. Por que será que todos se identificam com ele? O pais de origem não implica na universalidade da mensagem, sendo coerente em qualquer realidade. Parasite também foi importante para as pessoas terem a noção que a Coreia também tem seu lado pobre como qualquer outro país. Com a onda Hallyu acontecendo, uma imagem rica e próspera acaba se criando em cima do país, excluindo completamente que pobreza também é uma realidade lá. Quando o filme acabou, um amigo meu me disse “não sabia que tinha pobres na Coreia.” Obrigada por tudo, Bong Joon Ho.


Mesmo que você tente se introduzir nesse mundo dos “old money”, as chances de você acontecer nele são quase inexistentes. O final da história é sempre será a mesma: Jay Gatsby morrendo com um tiro no peito na sua piscina, Barry Lyndon voltando pra sua cidade natal sem uma perna e Mr. Kim voltando para o porão.


Em uma entrevista, Bong disse: “Enquanto eu dirigia o filme, eu tentei expressar um sentimento específico à cultura coreana. Eu pensei que visto da perspectiva de alguém de fora, seria cheios de elementos coreanos. Mas após a finalização e exibição do filme, todas as respostas de diferentes públicos eram praticamente as mesmas, o que me fez perceber que o assunto era universal, de fato. Essencialmente, todos nós vivemos no país chamado Capitalismo, o que pode explicar a universalidade de suas respostas.


Fontes: Taste Of Cinema e canal The Take

LEIA TAMBÉM

SIGA-NOS NO INSTAGRAM!

Estamos ouvindo!

  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone Spotify
  • Preto Ícone Twitter
  • Preto Ícone Pinterest
  • Preto Ícone Flickr

© Sidetrack Magazine