• Heloísa Cipriano

[REVIEW] Padrões de uma sociedade doente: o que Joker, concorrente ao Oscar, nos ensina

Saiu em outubro de 2019 mas continua impactando muitas pessoas que não foram às salas de cinema. Joker (2019) nos traz mais um universo expandido do vilão mais famoso da DC Comics. E para quem pretende assistir mais um filme envolvendo super-heróis ou vilões, superpoderes ou coisas do tipo, esse aqui é bem diferente dos blockbusters convencionais. Para contar a verdade, esse aqui mostra a real vilania que faz um homem comum virar alguém mau: a sociedade corrompe nossos sonhos, nossas vidas, nossas identidades... nossos bons hábitos.


Essa frase “a sociedade corrompe o homem” te lembra alguém? Me lembra as aulas de filosofia do ensino médio. Rousseau dizia “o homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”. Na minha concepção, nascemos na verdade, neutros. Mas é verdade que sim: as

"A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se você não tivesse". Foto: Warner Bros. Pictures / Divulgação

escolhas que fazemos determinam nossas vidas. O bem e o mal existem, e nós é que escolhemos o que vamos seguir mais. Porque, no final das contas, todos fazemos maldade e bondade (talvez podemos tirar dessa generalização só os santos aos olhos dos cristãos). Mas, isso é opinião. Fato é: Joker se cerca de um tema central, o da empatia.


Palavra que já caiu no gosto popular. Vemos muita gente falando sobre empatia atualmente, ainda mais com os constantes números de suicídios e desse assunto que vem causando preocupação, mas ainda tão estigmatizado. Afinal, muitos ainda pensam que é frescura e que depressão não é uma doença; doença da mente. Muitos pensam que Arthur Fleck é um homem ruim; mas ele, na verdade, não está bem. Ele precisa de ajuda, assim como qualquer um que comete algo ruim.


O filme retrata um homem com crise de epilepsia gelástica, tipo de convulsão que faz o portador dar risadas involuntárias e descontroladas. Ele se considera um comediante, e trabalha como palhaço para sustentar a si e a mãe, uma mulher que também sofre de doenças mentais.


Importante notar como o filme traz naturalmente reflexões, às vezes algumas que fazem pensar bastante para se chegar ao que o diretor Todd Phillips pretendeu mostrar. Palhaço. Quando se pensa em palhaço, pensamos em alguém todo atrapalhado cujo único objetivo é nos fazer rir com sua falta de senso. Arthur Fleck se acha um palhaço. Só que um palhaço no sentido mais cruel da palavra: se sente deslocado da sociedade, sente que não faz parte daquele mundo que o cerca. Ele é diferente de todos. E o diferente, para muitos de nós nos causa repulsa; medo.


Arthur piora sua condição e sua saúde mental sofre graves consequências quando a assistência social para de fazer visitas regulares e tira os medicamentos gratuitos, condição imposta pelo Governo, que faz cortes na cidade de Gotham City. Cidade essa que conta com nova eleição para prefeito, um dos candidatos o pai de Batman, Thomas Wayne. Sem spoilers a seguir, o que pretendo levar a reflexão é: as autoridades também fazem parte (e muito) da condição social do indivíduo. Arthur, assim como muitos de Gotham City, é pobre e não tem condições de pagar tratamento. Por isso, precisa cuidar da saúde por meios públicos. Reflexão que podemos trazer para vida real: quando quem nós elegemos deixa de cuidar, nesse caso, da saúde pública, deixa de lado políticas públicas que devem ser realizadas, direitos ao homem e ao cidadão garantidos na Constituição e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tudo fica no papel e o que era cuidado, deixa de ter valor. Resultado: o final do filme.


Foto: Warner Bros. Pictures / Divulgação

O destaque especial e merecidíssimo vai ao ator Joaquin Phoenix. Sua atuação sempre foi muito admirada, e aqui ele não se deixou levar pelo medo de carregar um personagem que fez tanto sucesso nas mãos do também lendário Heath Ledger. Phoenix cumpriu seu papel e repassa toda a impressão que queremos ver de Coringa, um homem cuja doença mental lhe deixa vulnerável, com uma pitada de inocência. Um homem que só quer aceitação. Vários trejeitos do personagem conseguem captar nossa atenção ao desespero dele de ser notado - e Phoenix não mediu esforços para colocar referências no Coringa antes de ser tornar Coringa. Numa entrevista, ele revelou que nos momentos em que dança, se inspirou nos passos de Ray Bolger em The Old Soft Shoe (1957).


Mas, apesar de ser elogiado por muitos, e ser o forte candidato na categoria melhor ator do Oscar 2020, a crítica especializada não gostou tanto assim do filme. No Roten Tomatoes, Joker alcançou 68% de tomates frescos (bons resultados). Um dos jornais mais lidos dos EUA, The New York Times classificou com um tomate podre e escreveu: “É difícil dizer se ‘Coringa’ surge de confusão ou covardia, mas o resultado é menos uma descrição do niilismo do que uma história sobre nada”. Porém, o público gostou: 88% de aprovação pelos telespectadores.


Cartaz de Joker (2019)

Joker (2019) é para refletir que devemos nos preocupar com os esquecidos, os marginalizados. Porque, quando esquecemos, a loucura que era inocente, se transforma num monstro dentro da mente, e torna capaz alguém que precisa de ajuda se tornar o medo de muitos... se tornar um vilão, só que do mundo real.

Joker (2019) concorre ao Oscar 2020 nas categorias:

Melhor Filme; Melhor Diretor – Todd Phillips; Melhor Ator – Joaquin Phoenix; Melhor Roteiro Adaptado – Todd Phillips e Scott Silver; Melhor Fotografia – Lawrence Sher; Melhor Edição/Montagem – Jeff Groth; Melhor Maquiagem – Kay Georgiou e Nicki Ledermann; Melhor Figurino – Mark Bridges; Melhor Mixagem/Mistura de Som - Tod Maitland, Tom Ozanich e Dean Zupancic; Melhor Trilha Sonora – Hildur Guõnadóttir; Melhor Edição de Som – Alan Robert Murray.

SDTK
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