• Anna Clara Fonseca

Unknown Pleasures, do Joy Division, foi o suspiro que o rock precisava [Review]


edit: Letícia Lucena

Tudo que é bom dura pouco. Felizmente e infelizmente, temos exemplos no mundo da música que exemplificam o sentido da frase com acuracidade. Os belos 8 anos do The Doors foram divisores de águas na música nos anos 60, do mesmo jeito que o álbum de estreia do The Stone Roses foi um marco no britpop. Doors e Stone Roses caminham em segmentos sonoros bem distintos, com apenas uma semelhança: ambos revolucionaram uma geração.

A composição intrinsecamente melancólica de Joy Division com uma formação visionária e um vocalista memorável, os 4 anos de vida da banda foram de extrema importância para a música, deixando um legado que permaneceria até os dias de hoje, Unknown Pleasures.

Tudo teve início em 1976 em um show do Sex Pistols quando Peter Hook e Bernard Sumner presenciaram o caos punk de Syd Vicious com o agressivo instrumental de sua banda, que inspirou os amigos de infância a montarem uma banda. Peter Hook ficaria responsável pelo baixo, Bernard Sumner já tinha uma guitarra e também cuidaria dos teclados, já Terry foi escolhido para ficar na bateria, que não vingou no instrumento, dando lugar a Stephen Morris em 1977. O vocalista seria outro espectador do mesmo show do Sex Pistols e seu nome era Ian Curtis.


Peter Hook, Ian Curtis, Stephen Morris e Bernard Sumner.

Peter Hook se lembra quando o encontrou pela primeira vez: "Nós o reconhecemos de vários shows rapidamente e conversámos com ele. Ele era jovem e entusiasta como nós, muito amigável até. E tinha “ódio” (hate) escrito em tinta laranja nas costas, o que era muito estranho. Ele é aquele tipo de pessoa que se alguém fala pra você ‘te dou um milhão de libras para ler o que está escrito nas costas dele”, você não teria olhado para Ian Curtis.


O intenso interesse de Curtis em arte e literatura o refletia em vários níveis da vida artística e pessoal do vocalista. Ian chegava nos ensaios da banda com um caderno cheio de poesias e anotações prontos para serem transpassados em lindas composições. Por ser um leitor assíduo desde a infância, suas influências tiveram reflexo na hora de compor ou na hora de criar o título das músicas. Atrocity Exhibition é uma referência ao escritor inglês JG Ballard e Colony é outra referência a Franz Kafka, uma de suas maiores inspirações. O apreço por música também o fazia apreciar letristas como David Bowie e Jim Morrison. Deborah, esposa de Ian, comentou ao The Guardian em 2014: “Nós crescemos assistindo programas famosos na televisão como parte da nossa geração. Naquele tempo, a poesia era conhecida como cafona. Parecia uma progressão lógica colocar isso na música. Acredito que a fama e a vida na estrada não deram certo para Ian. Acho que ele continuaria a escrever, mesmo que não quisesse se apresentar. Quando ele chegasse aos 40 ou 50 anos, provavelmente ele teria escrito um livro impressionante”.


O primeiro nome da banda, ‘Warsaw’, inspirado numa música do Bowie, foi modificado quando souberam da utilização do mesmo nome em outra banda, sendo a razão de trocarem para Joy Division em 1977. O nome foi tirado da obra escrita por Yehiel De-Nur, The House Of Dolls (a casa de bonecas, em tradução livre), lançada em 1956. No romance, o nome ‘Joy Division’ se refere a uma casa de prostituição, título que teve origem durante a segunda guerra mundial nos campos de concentração nazistas para designar o espaço reservado onde as prisioneiras judias eram oferecidas sexualmente aos soldados nazistas.


Unknown Pleasures foi gravado em uma temperatura gélida mantida por Martin Hannett, um dos que colaboraram no álbum junto com o engenheiro de som, Chris Nagle. Frieza que foi refletida na atmosfera sonora e melódica das faixas do disco, carregando entre si uma ambientação gótica tangível com a voz carregada de Ian juntamente com a guitarra de Sumner, baixo de Hook e a bateria de fundo de Morris. Nagle conta que Ian ouvia a música apenas uma vez antes de entrar para gravar os vocais de primeira. Ele lia a letra muitas vezes até decorá-las, assim não sendo necessário levar as folhas com ele até a cabine. No dia 15 de junho de 1979, Unknown Pleasures vinha ao mundo para mudar não só o cenário da música britânica, como o do mundo da música.


Capa do 'Unknown Pleasures'.

O trabalho de arte que encontramos aqui é completo, até mesmo na capa do álbum. A famosa capa gótica com listras onduladas é sempre lembrada em posts do Tumblr ou em camisas por aí como um conceito, mas na verdade, quando o LP foi lançado, a contracapa dizia: “Isto não é um conceito, é um enigma”. Os “picos de montanhas” são, na realidade, um tema científico: um gráfico do sinal de rádio captado por um radiotelescópio do pulsar PSR B1919+21, a primeira estrela de nêutrons descoberta. A capa feita por Peter Saville e Chris Mathan é uma das imagens mais famosas do mundo do rock. Você provavelmente não encontrará as letras no encarte do disco e isso é proposital. O consenso entre a banda em não incluir foi no intuito de deixar aberto para os ouvintes tirarem suas próprias conclusões. Hook acredita que as letras significam coisas completamente diferentes para cada pessoa. Você pode ouvir uma coisa, e a pessoa ao seu lado pode ouvir algo totalmente diferente.

Morris abre alas com uma bateria aguda seguido do baixo cortês de Hook encontrando os riffs da guitarra de Sumner em Disorder, a primeira música do álbum. A voz quase falada de Ian transmite uma sensação de confiança em quem o está escutando. A melancolia presente molda muitas músicas do álbum, todas acompanhadas de uma composição tão impactante quanto outra. O post-punk de Day Of The Lords revela seus picos ao lado da proeminência do baixo encarando a escuridão do próprio sentimento. A canção nos prepara para experiências como Atmosphere e Insight, refletindo sobre a dor e uma angústia latente que o faz devanear o que antes já foi uma esperança para a própria existência. Em um trecho de Insight, essa perda é visível: ”Acho que os sonhos sempre se acabam/ Eles não crescem, apenas declinam/ Mas eu não me importo mais/ Eu perdi a vontade de querer mais/ Eu não estou com medo, de jeito nenhum/ Eu os assisto enquanto eles caem/ Mas eu lembro/ De quando éramos jovens”.

Em She 's Lost Control conta sobre uma garota sofrendo um ataque epilético. A ideia veio, provavelmente, após Ian presenciar sua cliente, Corinne Lewis, sofrer um ataque em sua frente quando ele trabalhava em uma agência de empregos. Ele percebeu que Corinne não apareceu mais por ali, o que levou a ele acreditar que ela tinha conseguido um emprego, quando na verdade, ela tinha falecido por conta da epilepsia. Mais tarde, Ian veio a descobrir que ele também era epilético.


A sétima faixa é a clássica Shadowplay. Com acordes robustos do baixo de Peter, a melodia se intensifica quando Ian entoa com precisão: “To the center of the city where all roads meet, waiting for you”. A sonoridade explosiva encanta com a consonância visionária e muito próxima do que eles queriam realizar quando decidiram montar a banda. Os riffs incansáveis de Sumner contempla uma infinidade excêntrica que molda todo espírito da música, o que a torna inesquecível desde o primeiro momento. Alguns artistas fizeram suas próprias versões da canção, como o The Killers, para o single promocional Sawdust. Shadowplay também está presente no filme Control lançado em 2007 onde conta a história da banda com ênfase na vida de Ian Curtis, estrelado por Sam Riley e Samantha Morton.

Dias antes da primeira turnê americana da banda acontecer, no dia 18 de maio, Ian Curtis foi encontrado enforcado em sua cozinha. Antes de se suicidar, ele tinha ouvido The Idiot, de Iggy Pop, e assistido Stroszek, um filme do cineasta alemão Werner Herzog. Ele tinha 23 anos.

Peter recorda: “As pessoas presumem que quando ele morreu foi como o Nirvana, mas não foi assim. No último show que fizemos, em Birmingham, tocamos para cerca de 150 pessoas. Portanto, não tivemos sucesso. Ian sempre disse que seríamos grandes em todo o mundo. Ele ficava sentado lá sempre que qualquer um de nós desabafa sobre tudo, como você faz quando não consegue um show ou um contrato de gravação ou o que seja. Ele sempre dizia: ‘Não se preocupe, vamos ser grandes no Brasil. Vamos ser grandes aqui, vamos ser grandes lá'. Era sempre ele o líder de torcida, que nos pegava pela nuca e nos convencia a seguir em frente. Ele tinha paixão e entusiasmo cada vez que nós diminuímos. Ele era incrível nisso.”

Foto por Kevin Cummins em Princess Parkway, na cidade de Hulme em Manchester no dia 6 de Janeiro de 1979.

A curta vida de Joy Division deixou uma influência que reverbera intensamente e ativamente entre o background da música contemporânea até hoje. A composição visceral estabeleceu um contato franco e poético com o ouvinte interessado em conhecer a poesia de uma banda que entregou uma intensidade musical que a década precisava. A franqueza poética de Ian e a instrumentalidade eletrônica e carregada de Peter, Stephen e Bernard acabou se transformando em base para a sonoridade que encontramos na cena alternativa atualmente. Joy Division encara os próprios demônios com coragem, sem ignorar o turbilhão de sensações que atravessa o coração daquele que sabia dissecar um sentimento complexo como ninguém.


Mesmo que a banda não tenha gostado do resultado final do álbum, Unknown Pleasures foi um marco na história da música.


Fontes: 1 / 2 / 3

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