• Heloísa Cipriano

REVIEW: Yesterday (2019)

Se eu fosse uma roteirista de cinema, com certeza eu traria minhas influências e gostos para meus filmes. Música seria uma das vertentes. E claro, muitas ideias originais podem ser extraídas através de bandas. Acho que foi esse o caso de Richard Curtis, quando ele, provável beatlemaníaco e romântico “por escrita”, pensou no longa Yesterday (2019), que está circulando em cinemas brasileiros.


Lily James e Hamish Patel em cena do filme Yesterday (2019).

O filme conta a história de Jack Malik, um compositor fracassado – bem zoado até mesmo pela família com as músicas que compõe – que, depois de passar por uma experiência bizarra de um apagão na Terra, se vê sendo a única pessoa que se lembra do quarteto de Liverpool, The Beatles. A partir de então, ele entra numa “sinuca de bico”: lembrar todas as canções da banda que revolucionou a história do rock e ganhar a tão sonhada fama e dinheiro; ou viver a vida de forma simples, com suas próprias composições? E nesse momento é que o telespectador vê que o filme não é só sobre o fato dele ser o único que se lembra da banda; o que norteia a narrativa de Yesterday é a escolha que Jack faz. Mas vamos por partes. Primeiro, antes de tudo, é preciso falar do legado musical e cultural deixado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

The Beatles nasceu em 1960, época de intenso movimento contracultural: os jovens estadunidenses se rebelavam contra os conflitos raciais, a Guerra Fria e a opressão sofrida em diversas esferas da sociedade. Já iniciaram os trabalhos, portanto, numa época ótima para expressar revolução por meio de composições. Essa talvez seja a sacada que faltou no filme escrito por Richard Curtis e dirigido por Danny Boyle. Também é uma das críticas negativas a respeito do filme: e a importância social que os Beatles tiveram no mundo? Cadê? Mas, vamos combinar: Curtis é famoso por filmes românticos e leves, os famosos água com açúcar como Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), Questão de Tempo (2013) e O Diário de Bridget Jones (2001). Isso, com certeza, pesa no roteiro de Yesterday. E tá tudo bem, porque vem muito mais pela frente.


Da esquerda para a direita: George Harrison, John Lennon, Ringo Starr e Paul McCartney.

The Beatles não só deixou um legado na cultura pop no que se refere ao formato da música em tempo menor, de até 3 minutos; ou influências do rock de Elvis Presley e o country de Johnny Cash misturados em uma só canção; ou pioneiros na utilização de efeitos sonoros, loops, técnicas de double tracking; ou até mesmo em filmes, como em Twist and Shout ser a música que consagrou o filme Curtindo a Vida Adoidado. Eles também fizeram diferença nos discos.

Um dos momentos que mais trabalha com o legado que os Beatles deixaram na indústria audiovisual é na parte cômica em que Jack visualiza as ideias das capas dos discos. Spoilers à parte, esse é um dos insights que o filme tem em mostrar que até mesmo o aesthetic da banda influenciou gerações futuras. Por exemplo, a capa de Abbey Road (1969) é tão icônica que até hoje é cenário turístico para quem atravessa a rua londrina. No filme, isso também fica visível no momento em que brincam com o álbum The Beatles, conhecido popularmente como White Album (1968) – como se fosse algo muito simples e não tivesse uma história por trás da capa totalmente em branco. Além deste, há também registro de cultura pop na capa de A Hard Day’s Night (1964), vestígios da influência de Andy Warhol. Bom, se for parar pra analisar todos os discos, dá até um TCC!


Capa do álbum A Hard Day's Night (1964).

É perceptível que muitas pessoas devam ficar esperando mais do que uma história de amor escrita por Curtis. Mas para ser bem sincera, não acho que essa seja a intenção do roteirista, já que a ideia de perdermos noção de quem são os Beatles é bem assustadora; mas composta no filme de forma divertida. O filme não é sobre os Beatles; e sim, sobre como os Beatles conseguem ser influentes. Tanto é que tenho certeza que muitas pessoas saíram da sala de cinema já buscando ouvir mais a banda e entender as outras referências encaixadas ao longo da trama, pois não é só o quarteto o alvo esquecido; é também a banda britânica Oasis, o refrigerante mais conhecido do mundo Coca Cola, a grande indústria dos cigarros e o bruxo mais famoso do mundo, Harry Potter.


Infográfico sobre os elementos surpresa do filme.

Quem embarca na leveza da trama é também o diretor Danny Boyle, conhecido pela câmera psicodélica dimensionada em Trainspotting (1996) e 127 Horas (2010). E a mistura entre o romance de Curtis com a conhecida montagem acelerada de Boyle cria um universo diferente, e remete a momentos bem divertidos, como o que Jack tenta lembrar a composição de Eleanor Rigby. Não podemos também deixar de destacar o figurino da produtora de Jack e seu par romântico, Ellie Appleton, interpretada por Lily James, que remete muito aos anos 70, últimos anos da carreira dos Beatles.

Por falar em Lily James, as atuações são muito gostosas de assistir. A começar por Hamish Patel, que interpreta Jack com toda a sua alma musical. O ator aprendeu as músicas para interpretar ao vivo nas gravações: ele atua, canta e toca. O par que faz com James – que também está uma graça no longa – é conturbado, mal sabem eles direito de suas emoções um com o outro. Esse amor tímido faz girar o filme juntamente com a loucura de Jack ser reconhecido pelo composição de músicas que na verdade não são dele. Quem fica se sentindo excluído da vez é Ed Sheeran, que interpreta ele mesmo! O cantor super simpático topou fazer parte do longa, e sabe atuar muito bem – dá até um pouco de ranço dele em algumas partes. A surpresa também está na aparição de Robert Carlyle, o nosso eterno Rumplestiltskin de Once Upon a Time. Amigo do diretor Danny Boyle, ele já contracenou em Trainspotting. O ator interpreta nada mais, nada menos que John Lennon se estivesse vivo. Para os fãs que assistiram o filme, o momento é bem comovente, já que Lennon foi assassinado por um "fã".

Pra finalizar, devo admitir que Yesterday é um filme voltado principalmente para os beatlemaníacos que querem apenas sentir o gostinho de assistir uma comédia romântica que contenha seus ídolos como premissa de algo muito maior: o amor. É compreensível que alguns não gostem tanto pelo fato de não explorar mais a fundo as confusões de Jack sendo reconhecido por músicas dos Beatles, trazendo também a história da banda. Parece um filme que se perde; porém, no final das contas, se encontra em outro sentido. Segundo o livro “Things We Said Today: The Complete Lyrics and a Concordance to The Beatles’ Songs”, o substantivo mais usado nas letras da banda é... “love”. Portanto, no final das contas, amor é o que move os Beatles; é o que move Yesterday.



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