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REVIEW: "Zeros", de Declan McKenna é o álbum que pode estabelecer o cantor o "novo Bowie"

Atualizado: Set 21

Texto: Letícia Lucena e Bárbara Bigas


Uma das maiores pandemias do século certamente não era algo que esperávamos passar em 2020. Adotamos novos hábitos, pausamos alguns velhos hábitos que amamos, como ir a shows e ao cinema, e passamos a ouvir alguns termos com mais frequência, como “distanciamento social”, “quarentena”, e claro, o irritante “novo normal”. Em meio de tudo isso, vimos muitos álbuns serem adiados, e com Declan McKenna não foi diferente, mas após dois adiamentos em quatro meses, finalmente pudemos conferir o que Declan nos traz em seu segundo grande projeto: “Zeros”.


O álbum que estava inicialmente marcado para o mês de maio, leva a um outro nível o que já havia sido iniciado no primeiro álbum, “What Do You Think About The Car?”, onde Declan faz críticas explicitas às injustiças do mundo em que vivemos. Em “Zeros”, um álbum conceitual carregado de influências do glam rock ao pop contemporâneo, o jovem de 21 anos mostra com mais clareza sua habilidade em trabalhar com storytelling e mesclá-la com o teor crítico de sua escrita que já conhecemos, dessa vez de forma mais subjetiva. Criar personagens para suas canções é algo que o britânico sabe fazer com maestria. Ele usa desse artifício desde seus primeiros singles, como “Isombard”, presente em seu primeiro álbum. Em “Zeros” ele deixa isso mais explícito ao criar os personagens Daniel, mencionado diversas vezes ao longo do álbum, Emily, que intitula uma das faixas, entre outros.


“O que você acha do foguete que eu construí?” pergunta Declan na canção “You Better Believe!!!”, que abre o disco, fazendo uma breve referência a seu álbum de estreia e mostrando também a ambientação composta para o segundo álbum: um toque ironicamente futurista, uma vez que o álbum discute muitos “problemas do futuro” vividos pela sociedade atualmente, servindo até como um alerta, ao proclamar na frase que abre o disco: "You're gonna get yourself killed before you can run", - vocês vão acabar se matando, antes que possam correr - em tradução livre. O futuro é agora, e precisamos enfrentá-lo.


Em sequência, duas canções que dividem o posto de, não só as melhores faixas em “Zeros”, mas também as melhores canções da carreira de Declan McKenna até então. É impossível não se lembrar da discografia de Bowie, em especial “Life on Mars” ao ouvir as primeiras notas de “Be an Astronaut”, uma belíssima faixa sobre descoberta e aceitação. Já “The Key to Life on Earth”, segundo single lançado antes do lançamento completo, ganhou mais destaque pelo seu clipe, que tem a participação do ator Alex Lawther, conhecido pela serie The End of the F***ing World (e também por ser bem parecido fisicamente com Declan, com quem é bastante comparado na internet). O vídeo retrata algo que pode ser interpretado como uma batalha interna, e de como nem sempre estamos sempre nos melhores termos com nosso sub-consciente.

A escolha de "Beautiful Faces" como lead single é um grande acerto, sendo uma das faixas que mais demonstra a evolução do cantor neste intervalo de três anos. A canção é bastante enérgica, repleta de riffs de guitarra e com um lado um pouco mais agressivo da sonoridade do cantor, que critica em sua letra o modo como as pessoas têm lidado com questões estéticas ultimamente, ao tentarem projetar em si os padrões aos quais somos bombardeados diariamente.Daniel, You’re Still a Childtem um ritmo envolvente e completamente recheado de melodias com muita personalidade, vindas de cada instrumento que a compõe. É também uma faixa que conta a história conturbada de um ser perdido e constantemente rejeitado pela sociedade por seus comportamentos controversos e até desagradáveis. Desacelerando o ritmo mais uma vez desde "Be an Astronaut", "Emily" traz sensibilidade ao álbum, e lembra bastante a delicadeza dos primeiros discos dos Beatles.


© Letícia Lucena

Em "Twice Your Size", Declan inicia se aventurando numa sonoridade experimental e depois mergulhando em melodias serenas do violão e dos sintetizadores. A letra é como um soco no estômago que se vale de ironias e símbolos da nossa vida cotidiana na era da pós-verdade e finaliza com riffs de guitarra agressivos e vocais gritados que guardam bem em nossa cabeça seus versos finais: "And wouldn't that be so nice? / Only means half as much when you say it twice / Twice your size".


Lançado como single na véspera do lançamento do álbum, “Rapture” inicia com uma sonoridade techno que pode facilmente te lembrar uma faixa do Daft Punk. Na canção, Declan clama por uma emoção intensa capaz de lutar contra com a recorrência tóxica e sufocante de sua vida, além de constantemente reconhecer sua pequenez diante de tudo que o rodeia. "Eventually, Darling", a última das 10 faixas, fala de mudanças, de vida, morte e seguir em frente, e conclui brilhantemente um disco sólido do começo ao fim, deixando o seguinte questionamento: você faria tudo novamente?


De David Bowie, Beatles e Fleetwood Mac, à Billie Eilish, Gorillaz, Little Simz e Mitski, Declan mescla discos clássicos e contemporâneos como suas principais influências em seu segundo trabalho em estúdio (reveladas pelo próprio cantor através de uma playlist no Spotify), juntas, elas refletem perfeitamente no resultado final, um material ousado e necessário, e para quem diz que Harry Styles assumirá o posto de “novo Bowie”, Declan McKenna definitivamente também está no páreo. Com “Zeros”, Declan se mostra uma voz ativa para a juventude, trazendo-nos um dos álbuns mais marcantes de um ano tão atípico.


Nota: 9/10


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