• Maria Eduarda Ferraz

Sidetrack entrevista: Vocifer


Foto: Emerson Bento

Vou iniciar o falatório fazendo uma pergunta. Quando você, leitor da Sidetrack, começa a pensar por aí sobre a cena metal brasileira, qual a primeira palavra que vem em sua cabeça? Posso chutar coisas diversas, mas de uma tenho certeza: Palmas, Tocantins, não é uma delas. Caro leitor, mal sabe você! Por entre os ventos fortes do cerrado tocantinense e pelas flores amarelas de pequi, forrando o chão, nasceu um grupo que tem florescido e traçado seu caminho pelas estradas desse mundão.


Iniciada em 2014, a Vocifer é uma banda de Heavy Metal composta por Lucas Lago (baixo), João Pedro Noleto (vocal), Pedro Scheid (guitarra) e Gustavo Oliveira (guitarra). Apesar do tempo na ativa, sua primeira apresentação ao vivo só veio a acontecer em 2016, em uma seletiva para a edição palmense do Grito Rock, onde, posteriormente, tiveram a oportunidade de apresentar-se no festival propriamente dito.


De lá para cá, bastante água rolou e, no ano passado, o grupo deu início a produção do seu primeiro álbum, intitulado Boiuna, onde as canções tem como base o folclore amazônico. O projeto foi produzido por Thiago Bianchi, que em seu currículo traz trabalhos com bandas nacionais, como Angra e Shaman, além de artistas internacionais, como a cantora finlandesa Tarja Turunen, (ex membro do Nightwish) e o também finlandês Timo Tolkki (ex Stratovarius).


É agora, em 2019 que a Vocifer, finalmente, começou a lançar para o público seu trabalho em estúdio, já que a primeira faixa do disco, Hummingbird, acabou de sair. Foi pensando em apresentar o seu metal, fundamentalmente tocantinense, aos leitores da revista, que tive uma conversinha com os responsáveis por trazê-lo à tona. Vamos começar?



Foto: Emerson Bento

[ENTREVISTA]

1) Vocês agora estão fazendo parte do selo Fusão Records. Como isso aconteceu?

Pedro: Na época em que fomos gravar, setembro de 2018, havia-se o desejo, por parte do produtor Thiago Bianchi, de criar um selo para o estúdio. A ideia era que o selo fosse uma cooperativa entre as bandas que gravaram no Estúdio Fusão, a fim de uni-las em shows e eventos e também divulgar os trabalhos regularmente, principalmente através da parceria com a Roadie Crew, a maior revista de metal da América Latina. Então, nos meses seguintes, o Thiago começou a recrutar as bandas e entrou em contato conosco. Não hesitamos em dar nosso sim para que fôssemos parte do selo. Dessa forma, iniciaram-se os trâmites legais até que o Fusão Records fosse concebido no final do ano passado. Hoje ele conta com mais de 30 bandas e é uma das primeiras cooperativas entre bandas da história do Metal nacional. Foi surreal quando abrimos uma revista da Roadie Crew e na contracapa estava a logo da Vocifer.


2) Em breve a Vocifer lançará o seu primeiro álbum. Já tem data? Qual o conceito do álbum e como foi sua produção?

Lucas: A ideia inicial seria lançar esse ano, porém devido ao planejamento da banda, aliado ao conceito do disco, em que cada música carrega uma história, os singles que serão lançados antes do disco completo deverão ter uma data apropriada para cada um. O conceito do álbum, a princípio, seria sobre a lenda da Boiuna, mas ao decorrer do tempo percebemos que o Norte possui um leque cultural magnifico e diversificado, então optamos por criar o CD baseado em nossa cultura, para tentar mostrar mais a cara do norte brasileiro para o mundo. Sobre a produção, fomos pegos de surpresa, pois quando estávamos desenvolvendo o conceito cogitamos até em convidar os Tambores do Tocantins para fazer parte desse projeto, só que não fazíamos ideia de como iríamos produzi-lo, até que recebemos uma vídeo chamada de Thiago Bianchi, nos convidando para gravar com ele. Então assinamos com o estúdio Fusão e fizemos toda a pré-produção em 3 meses antes de irmos para São Paulo, onde ficamos 15 dias gravando.


3) Quantas faixas poderemos ouvir no álbum? Qual a favorita de cada um e por qual razão?

João: O disco contemplará 10 faixas. Não é fácil escolher uma predileta, mas haverá uma canção chamada Used To Be, por ter um caráter mais intimista.

Pedro: De minha parte, eu destaco a Hummingbird, pois ela tem um compasso exclusivo e técnico que a torna muito prazerosa de tocar, sem falar da melodia em si. Também a War of Vendetta, que, na cronologia de composição, foi uma das últimas músicas. Devido ao conceito da letra, foram usadas referências diferentes para os arranjos, havendo uma mistura da escola barroca com uma percussão tribal, além do solo englobar algumas técnicas que não haviam sido muito exploradas nas outras músicas.

Gustavo: Se eu fosse escolher uma favorita, seria a Primal Clash. O que mais me cativa nessa música, é sua incrível sessão rítmica, com a bateria empregando elementos bem pouco usuais no que se costuma ver no metal em geral, em determinados trechos da música, pois é notável a influência da musicalidade brasileira, como o baião, e ainda assim ela permanece com a tradicional identidade do metal.

Lucas: É bem difícil escolher uma, mas se fosse por questão de técnica e dificuldade eu também escolheria Primal Clash, por termos conseguido misturar desde baião, thrash, power metal e melódico na mesma música e, levando para o lado da cozinha da banda, a qual faço parte, eu gostei bastante do conjunto. Porém, se não for pelo quesito técnica, a Release The Nigth leva meu coração e eu não sei explicar o motivo, sou apenas apaixonado por ela.


4) Recentemente a banda anunciou que participará da turnê Noturnall + Mike Portnoy (ex Dream Theater) + Edu Falaschi, tocando em Brasília e Goiânia. Qual a expectativa de subir no palco com tantas feras?

Gustavo: Foi um tanto quanto chocante quando fiquei sabendo. Esses caras sempre estiveram presentes na trilha sonora da minha juventude. Eu cresci, aprendi a apreciar esse gênero musical que tanto amo, busquei desenvolver a habilidade para tocar um instrumento, tudo isso porque esses artistas estiveram presentes em minha vida. Sinceramente, eu sequer teria a capacidade de imaginar que um dia poderia dividir o palco com esses monstros. É realmente espantoso para mim, quando paro e penso nisso.


5) Como vocês avaliam a cena metal brasileira hoje?

Pedro: Acredito que a cena metal brasileira pode ser comparada à um maratonista em marcha lenta, mas que está prestes a dar passos largos para reassumir uma posição que já foi dele. A diversidade cultural do nosso país contribui para que ele seja uma fábrica de talentos singulares. A mistura de ritmos e a busca do novo favorecem isso. As músicas do nosso estilo não são encaradas como um mero produto com elementos de consumo fácil. Dessa forma é necessário aprender muito sobre o público, sobre o contexto do local onde se está inserido. Esse tipo de 'obstáculo' se vence com a própria manifestação cultural, ou seja, eventos, shows, produções, mobilização nas mídias sociais, etc. E a dificuldade está nisso, pois sem a efetiva união das bandas, é praticamente impossível movimentar a cena. Nós temos bons exemplos para nos guiar e devemos nos desmascarar e desmistificar conceitos retrógrados para evoluir ainda mais.


[O LANÇAMENTO]


Segundo o vocalista, João Pedro Noleto, Hummingbird foi escolhida para fazer estreia em 23 de setembro, porque “a data marca o equinócio no Hemisfério Sul, início da primavera. É uma data simbólica na medida em que estamos saindo de um recluso inverno, prontos para frutificar nosso trabalho. A canção tem por tema um colibri de asas flamejantes que só pode ser avistado nessa época do ano”.


João completa que o lyric vídeo foi roteirizado e produzido por uma parceria entre pessoas ligadas à cena metal e cultural de Palmas, que acreditam no trabalho desenvolvido pela banda. Desta forma, ele apresenta o conceito do álbum, tons, cores, paisagens bem características da região.



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